domingo, 24 de novembro de 2019

APELO AOS AUTARCAS DE COIMBRA




É positivo que os cidadãos possam pedir para ser ouvidos em algumas reuniões da Câmara Municipal de Coimbra. Pareceu-me contudo que há reticências quando se trata de alguém que não é figura conhecida: o que me levou recentemente a retirar um pedido de intervenção que tinha feito.

E o que iria eu dizer aos nossos autarcas, em especial ao Senhor Presidente, cuja amizade pessoal aliás muito me honra? Na qualidade de cidadão e empresário com interesses na cidade, impressionaram-me, ao regressar de uma ausência no estrangeiro, vários aspetos que reputo positivos: consequências do reconhecimento da UNESCO, a enorme afluência de turistas que enxameiam a Ferreira Borges e a Visconde da Luz (e não apenas a Universidade), a imagem renovada que estas ruas já apresentam, a Portagem e os seus cafés e restaurantes, a utilização do não há muito tempo inaugurado Convento de São Francisco. Não esqueçamos a anunciada utilização como Pousada do antigo quartel junto da Igreja de Santa Clara a Nova, a promoção turística de Santa Clara a Velha, até os simpáticos repuxos no rio, frente ao Parque Manuel Braga.

Ora é preciso despertar a cidade: se há turistas, que se promova a instalação de um hotel de 5 estrelas, pois Viseu já tem um e Aveiro vai ter também; se é urgente revitalizar o Parque Verde, que se resolva a Urbanização moribunda dos Jardins do Mondego, logo ali em frente; se não queremos que existam apenas os Hospitais e a Universidade, que se atraiam sedes de empresas e outras atividades industriais; se Coimbra quer ser centro de uma região, que se lute seriamente pela conclusão da A13, ou seja a ligação em auto-estrada a Viseu e Mangualde, isto sem esquecer o Metro para Miranda, Lousã e mesmo Arganil, como há décadas foi pensado; mas sem asfixiar a área urbana com linhas de Metro à superfície, pois em Coimbra foram oportunamente eliminados os carris dos carros elétricos cujas carreiras não podiam, nem outras semelhantes poderão, ser alteradas consoante a procura de serviços pelas pessoas a transportar: autocarros sim, carris de ferro, não!

Enfim, o meu apelo é que os nossos autarcas, com o apoio dos munícipes, tudo façam para que Coimbra não pare; já foi indiscutivelmente a terceira cidade do País, mas hoje esse título é-lhe seriamente disputado por Braga, Faro e o Funchal. Impõe-se revalidar tal título!

J. M. S. Simões Pereira

domingo, 15 de setembro de 2019

POEMA DO MEU LIVRO LOUCURA FELINA

As Mulheres e os sapatos


Arrasta, arrasta essas chinelas,

devagarinho e com preguiça.
Varre a cozinha e a despensa
e põe ao lume a hortaliça

Andas sempre de chinelas,
a correr, a chinelar…
Ouves o que o homem diz!
E como queres ser feliz,
fazes tudo o que ele mandar!

Estas mulheres de chinelas
são escravas dos seus maridos!
É espantoso! Ainda há,
no nosso tempo, mulheres
que revivem tempos idos!

Mulher de saltos de agulha?
Sonhou ser alta, é pequena…
e outra glória não quis!
É tipo “femme française,”
É cabide onde pendura

Toda a moda de Paris!


Se usas sandálias ou ténis,
És mulher que manda em tudo!
Teu homem é que é teu escravo!
Ai dele se não se comporta,
pois fará figura torta
qual palhaço no Entrudo!

Já não há mulheres descalças
E o calçado diz-me muito.
Mas valorizar mulheres,
Só pelo calçado, é pateta
E não foi esse o meu intuito!

https://free-bi.blogspot.com/

terça-feira, 13 de agosto de 2019

LOUCURA FELINA - Capítulo Nº 5

                                            https://free-bi.blogspot.com/


 Sucesso e Generosidade


     Vamos recordar aqui o primeiro daqueles períodos que abrangem a vida mais ativa como profissional., ou seja, até por volta dos 30 ou 40 anos de idade. Já disse que o meu primeiro emprego foi como informático, em setembro de 1962, tinha eu apenas 20 anos, pois só completaria os 21 em dezembro desse mesmo ano.
     Cinco anos mais tarde, em 1967, é que me estreei como docente, na Universidade de Coimbra, tinha então 25 anos.

O edifício onde funciona ainda hoje o Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra foi inaugurado a 17 de abril de 1969 numa cerimónia que teve a presença do então Presidente da República, o Almirante Américo Tomás. Havia uma certa tensão entre os estudantes de Coimbra e o então presidente da Associação Académica, o estudante Alberto Martins, em certo momento, levantou-se do lugar que ocupava no anfiteatro onde decorria a cerimónia e, respeitosamente, pediu ao Senhor Presidente se o autorizava a usar da palavra. Tomás foi apanhado de surpresa, levantou-se da cadeira que ocupava na mesa da presidência da cerimónia e respondeu:
− “Mas agora vai falar o senhor ministro das Obras Públicas”. O jovem sentou-se e todos nós esperávamos que Tomás, depois de todos os discursos das personalidades que estavam na mesa, se dirigisse ao jovem estudante e lhe dissesse qualquer coisa como “Pode agora então usar da palavra, senhor estudante”. Mas não! Todos os participantes da mesa se levantaram correndo como a fugir para fora da sala! Deram a impressão de serem um verdadeiro grupo de acobardados!

Mostraram-se realmente acobardados, com uma exceção: de facto, será curioso apontar que, quando Tomás se levantou para responder ao estudante, todos na mesa se levantaram, exceto Manuel dos Reis. Como decano dos professores de Matemática, ele também estava na mesa e na qualidade de decano usou da palavra; o seu discurso, que não incluiu quaisquer palavras de sabujice, está publicado na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, volume 42 (1969), páginas 297-300. E há uma fotografia do momento em que todos se levantaram exceto ele, a qual foi publicada no semanário Jornal de Coimbra do dia 22 de maio de 1991.

O incidente desencadeou uma crise académica, a crise de 1969. Em períodos de crise, acontecem sempre situações absurdas. Seguidamente, contarei uma que vivi nesses tempos.

O ano letivo 1969/70 foi o terceiro ano em que regi cadeiras no departamento; nesse ano foi-me atribuída a responsabilidade pela cadeira anual de Cálculo Infinitesimal, do 2.º ano curricular da quase totalidade dos cursos da Faculdade de Ciências. Talvez por ser um professor jovem e por ter começado a carreira na qualidade de matemático aplicado, a minha maneira de ensinar não se enquadrava na tradicional e os alunos apreciaram-na positivamente: até porque prometi dar vários testes ao longo do ano, em vez de um único exame final, e dispensar os alunos das matérias em que, nesses testes, tivessem revelado aproveitamento. Não sei se haveria outros professores a usar o mesmo sistema em cadeiras anuais, tão vastas e importantes como o Cálculo Infinitesimal; mas que o sistema não era de modo algum habitual, disso não duvido; talvez mesmo fosse eu o único docente a usar tal sistema!

Os alunos gostaram tanto que o assunto constou e jovens de Lisboa e Porto transferiram-se em massa para Coimbra. Ficámos com cerca de 1400 inscritos em Cálculo Infinitesimal. Como já disse, o elenco de disciplinas era exatamente o mesmo nas três universidades existentes em Portugal: Lisboa, Porto e Coimbra! E não havia numerus clausus.

Eu tinha uma equipa de seis assistentes que davam aulas práticas, quer dizer, aulas onde se resolviam exemplos e exercícios de aplicação das chamadas matérias teóricas; além disso, eles dactilografavam os testes, corrigiam-nos, classificavam-nos… Este trabalho, que não era demasiado fatigante se os alunos fossem 200 ou mesmo 300, tornava-se terrível com 1400 alunos. E então, entre os assistentes, três deles voltaram-se contra mim. Teriam razão, mas eu vivi um período muito difícil. E até um estudante me abordou dizendo que não era justo eu querer dispensar parcialmente de exame final alguns alunos (os que tivessem mostrado aproveitamento no respetivo teste, repare-se!) e obrigar outros a submeter-se a uma prova final! De tudo isto tirei uma conclusão que me foi útil no resto da vida: “Não vale a pena ser generoso em excesso para facilitar a vida a outros!” E realmente não esqueci a lição e não me recordo de ter voltado a viver qualquer situação semelhante. [Quem quiser mais pormenores sobre este momento pode ver o meu livro “O Norte da Minha Bússola”, Editora Luz da Vida, 2014, páginas 13-14.]

Em 1971/72 passei o ano na Universidade Técnica de Munique com uma bolsa de estudos habitualmente atribuída a pessoas mais jovens, ainda sem doutoramento, pelo Serviço Alemão de Intercâmbio Académico (Deutsches Akademisches Austauschdienst). A razão pela qual escolhi esta cidade não tem nada a ver com Matemática. Eu pensava em casar, mas tinha-me apercebido que a minha mãe não aceitaria facilmente uma nora portuguesa, pois, por um lado, ela só queria uma menina sofisticada da alta sociedade e eu gostava do tipo ingénua… A minha mãe tinha-me combatido o meu interesse por uma linda moça, minha aluna, porque a mãe dela, viúva, com quatro filhos, era professora primária, não pertencia portanto à tal alta sociedade. Pensei pois encontrar alguém num país estrangeiro; e em Munique, as moças vestidas com o dirndl, trajo típico da região com mini-saia e avental, e blusa de mangas curtas tufadas, sandálias pretas e meias brancas até ao joelho tinham a imagem perfeita da ingénua… talvez diabólica! Era o tipo que eu sonhava, mas eu não dominava ainda a língua alemã e isso impediu-me de realizar o meu sonho. No ano seguinte, 1972/73, fui para Viena e aí, sim, o meu maior interesse já foi colaborar com colegas de Matemática. Eu já me exprimia facilmente em Alemão, mas as moças austríacas não eram o meu tipo!

Regressei depois a Portugal e assisti à revolução do 25 de abril (de 1974) que rebentou com todo o serviço nas universidades. Razão pela qual senti que não fazia falta e voltei a partir em dezembro de 1975, desta vez para Hamburgo onde permaneceria até agosto de 1977 com uma bolsa de uma conhecidíssima fundação alemã, a Alexander von Humboldt Stiftung.

Em Hamburgo encontrei colegas com quem desenvolvi projetos interessantes de investigação e, como já era fluente em Alemão, tornei a olhar para as moças com quem me cruzava. Em co-autoria com uma delas, uma aluna de doutoramento chamada Christine Palm, cheguei a publicar, em 1978, um trabalho de investigação nos anais de um congresso organizado pela Sociedade János Bolyai. Mas eu não era por certo o tipo dela e o possível namoro não foi avante.

Não desisti e vim de facto a encontrar uma outra jovem, também a preparar um doutoramento em Matemática com quem me entendi bem. Ela chamava-se Christina Zamfirescu, tinha obtido a nacionalidade alemã mas era natural da Roménia, para onde não queria regressar, pois o país estava dominado pela ditadura feroz de um lacaio da União Soviética, o famigerado ditador Ceausescu. Acrescentarei que talvez a latinidade que nos corria no sangue tenha facilitado a nossa convivência. Nunca aprendi Romeno e ela não falava Português: nós comunicávamos em Alemão, e eu fiquei feliz porque, não sabendo ela Português, a minha mãe e ela não iriam poder desentender-se. O que eu não pensei foi que ambas falavam fluentemente Francês! E isso foi suficiente para que o desentendimento nascesse pouco tempo depois de conviverem quando ambos viemos para Portugal! O que obviamente me fez compreender que só salvaria a minha relação com esta Christina se saíssemos para outro país. Assim nasceu o meu desejo de irmos para os EUA.

 

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