quarta-feira, 20 de março de 2019

AMIGOS DE...




GENTE DE CORAÇÃO SECO?

É habitual na cultura portuguesa – e noutras também, certamente – associar o amor, a bondade, o calor humano, ao coração. Ter bom coração é uma expressão idiomática que significa ser bondoso, ser sensível ao sofrimento alheio, gostar de ajudar, na medida do que é possível, aqueles que rodeiam, mais ou menos proximamente, a nossa vida.

Há felizmente muita gente com bom coração! E, por vezes, esses que têm bom coração também se revoltam, se mostram irados, não estão sempre dispostos a fazer carícias ao seu fiel cachorro ou ao seu fofo gatinho. Isto é de esperar, pois ter bom coração pressupõe ser sensível, reagir aos estímulos que nos tocam, ter um profundo sentido de justiça.

No extremo oposto estão os frios, os gelados, os que agridem todos aqueles com quem se relacionam, os que se desesperam com os filhos, os que antipatizam com a sogra – ou com a nora!… Não simpatizo com eles, mas compreendo que são seres humanos!

A mim quem me surpreende são aqueles que têm o que eu chamo um coração seco, seco como as folhas caducas das árvores que no Outono ficam nuas. Cruzei-me com alguns destes na minha vida. Ouviram dizer mal de mim – e acreditaram! Bom, ingénuos e crédulos, todos nós podemos ser, de vez em quando. Mas é triste ficarmos sem reconhecer que o fomos durante quinze ou vinte anos, quando já nos é mais que evidente que o que ouvimos dizer era erro ou, pior ainda, era mentira… Estes de coração seco não reagem, não têm a coragem de contatar aquele que foi caluniado para lhe dizer “olha, enganaram-me, de facto naquele tempo acreditei, mas hoje vejo que me enganaram e não quero que me julgues tão cobarde que não tenha coragem para te dizer isto!” Uma tal mensagem não humilharia quem a dissesse, pelo contrário, mostrava inteligência, auto-confiança e frontalidade. E, para quem tem um passado de católico romano, quem ensinou o catecismo a crianças ou quem pertenceu ao grupo coral da sua paróquia, tal atitude provava que ele, ou ela, era capaz de agir coerentemente com as suas convicções religiosas. E o mesmo direi daquele casal, membros da Opus Dei, porque nada os moveu, nem a homenagem que prestei à memória do filho que perderam.

De facto, infelizmente, estes de coração seco existem – e eu conheci alguns!

17. março.2019


J. M. S. Simões-Pereira

sexta-feira, 15 de março de 2019

MÁRIO DE SOUSA SANTOS






MÁRIO DE SOUSA SANTOS
versus
Olinde rodrigues

Como profissional da Matemática que sou, muitas vezes ainda hoje leio artigos sobre colegas que se distinguiram na História. Um dos últimos trabalhos desta natureza de que muito gostei é da autoria de Simon Altmann, membro do Brasenose College da Universidade de Oxford, e foi publicado na Gazeta de Matemática, n.º 152 (janeiro de 2007) sobre Olinde Rodrigues, um matemático e ativista social nascido em França, onde viveu entre 1795 e 1851.

A frase terminal do artigo de Altmann diz muito sobre Olinde Rodrigues. Traduzindo: “Dificilmente, alguma vez uma pessoa de tanto valor foi tão mal tratada pela História”; além disto diz-se no mesmo artigo que “os seus trabalhos de investigação teriam sido imensamente influentes se os contemporâneos lhes tivessem prestado atenção.”

Já publiquei neste blog um cartaz sobre um grande amigo que volto a recordar: Mário de Sousa Santos. A ele julgo que se poderão aplicar as mesmas considerações que ao Olinde Rodrigues.

Mário de Sousa Santos foi professor de música e compositor; tinha também grandes preocupações sociais. Não era o que hoje se chama pessoa mediática; modesto, parecia até tímido, não creio que gostasse de exibir os seus talentos, as suas capacidades. Segundo creio era natural de Lisboa. Viveu em Coimbra, primeiro num quarto alugado como se fosse um jovem estudante, só mais tarde arrendou um rés-do-chão.

Dava lições de piano e tocava órgão nas missas dominicais, na igreja católica de Santa Cruz, uma das principais igrejas de Coimbra, e até de Portugal, uma vez que lá repousam os restos mortais de Afonso Henriques. Compositor que era, frequentemente também adaptava ou improvisava em torno de peças clássicas.

Mas deste homem pouco se fala: eu apelo aos que vivem no meio musical e conhecem a sua obra – eu sei que há alguns – que a promovam e divulguem. A sua influência pode ser grande, se ao menos lhe prestarmos atenção… tal como acima se diz, da obra de Olinde Rodrigues.

Links para outras referencias na WEB:







quinta-feira, 28 de junho de 2018

CATITINHA




RECORDANDO O CATITINHA

É verdade, há 70 anos, a Figueira da Foz era chamada a rainha das praias de Portugal! Ao Algarve ia-se, sim, para ver as amendoeiras em flor… mas praias não as havia por lá. 
À volta de Lisboa, havia Paço d’Arcos, o Estoril, Cascais, o Guincho, enfim, mais para o norte havia a Foz do Arelho, a Nazaré… praias para as famílias das classes alta e média alta daquele tempo… mas basta de nomes de praias dos anos a meio do século XX.

Quero falar-vos de um homem que percorria essas praias todas, uma figura típica e inesquecível para quem foi criança naquele tempo. 
Era o Catitinha!

Escrevo com maiúscula porque lhe servia de nome, de outro nome que ele por certo teria, não sei. Na Figueira da Foz, que eu frequentava, lá vinha ele, assobiando uma gaita e rodeado de criançada. Parece que o nome, muito mais que alcunha, provinha de ele ter por hábito dizer “Isso é catita!” Ele gostava de apertar a mão à miudagem e muitos o seguiam enquanto ele percorria a praia toda.

Eu era muito tímido, talvez medroso, creio bem que a mim ele nunca apertou a mão. Quando o via ou ouvia ao longe, escondia-me na barraca de praia, bem lá no fundo, para ele nem sequer me ver. 

O sujeito não me seduzia, direi mesmo, não me agradava olhar para ele, metia-me um pouco de receio, pois o via como um anormal! E parece que ele o era, tinha ficado doente mental após a morte de um filho; e por isso a proximidade das crianças certamente o consolava.

Olha, Catitinha, Catitinha, das minhas memórias, aqui fica hoje esta simples homenagem, tardia, mas sincera!

29 de abril de 2018



 

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