terça-feira, 26 de agosto de 2008

AOS MEUS ALUNOS: UM VALOR A MAIS, UM VALOR A MENOS

Ainda vos afixo aqui mais uma mensagem!

Um de vós, que designarei por X, pediu-me uma correcção da nota lançada pois gostaria (e tem todo o direito a isso) de repetir o exame para a melhorar embora ela já seja muito boa.

Esse pedido me levou a tecer algumas considerações que creio serem úteis para todos vós.

Aí fica pois a resposta que dei ao vosso colega:

+++

Olhe, amigo X, claro que a sua nota foi obtida em avaliação contínua e, tendo havido erro
no lançamento, há-de haver maneira de o corrigir. E, obviamente, estou disposto a
fazê-lo. Claro também que terei gosto em falar pessoalmente consigo. Porque mais
importante talvez que tudo o que eu lhe tenha ensinado de Matemática será o que lhe
poderei dizer nessa conversa sobre a sociedade competitiva em que o nosso país (e o
X não se esqueça que é europeu) se vai transformando.

Porque me faz pena que o X, sem dúvida um jovem inteligente e capaz, em vez de
olhar para o futuro, olhe para passado! Eu, no seu lugar, buscava novos desafios, cada
vez mais exigentes, cada vez mais globais, talvez tentar já um pouco de actividade
profissional relacionada com o seu curso ou até fazer um pouco de investigação; tudo para começar a construir um curriculum à altura da sua
geração que garantidamente não se vai basear no 10, no 15, no 18 ou 19 ou 20 que tiver
em qualquer das dúzias de cadeiras que frequentar na sua formação.

Sabe, X, a última batalha que os jovens portugueses travam com a única arma das
notas é o 12º ano: e é para entrar ou não em Medicina. E até essa batalha já está a parecer
ridícula a muita gente que conhece o Mundo! O Mundo, para além de Portugal, esse
Portugal "de onde se não vê a Europa" para citar, se não estou em erro, Vitorino
Magalhães Godinho. Até porque a escala de 0 a 20 que nós ainda usamos, é uma das
nossas vergonhas nacionais: em quase todo o mundo dito civilizado, traduzidas por números ou por
letras, as notas de aprovação no ensino superior são essencialmente três: muito bom,
bom ou suficiente.

Eu sei dos muitos recém licenciados que se encontram no desemprego. Não creio que seja por causa das notas, de mais um valor ou menos um valor, não creio que se tivessem mais um valor na média já teriam um lugar, ou que se tivessem mais dois valores na média já teriam sido promovidos na empresa ou instituição onde trabalham. Certamente é importante, imprescindível mesmo, que cada um seja competente na respectiva área profissional; mas isso não basta. É preciso ter um nível de ambição consigo próprio que o leve sempre a olhar mais para o futuro do que para o passado; ter uma visão global que dê o devido valor às diversas vertentes que fazem de um activo um agente de progresso e que incluem, a par de variados valores humanos, a capacidade de perspectivar o seu próprio passado, sim, mas só para atacar o futuro, tudo aspectos de que antigamente nunca se falava durante a vida escolar. Deixá-los hoje em silêncio é atitude que revela vestígios de um passado em que se saía da universidade a saber tudo o que havia para saber, com a consciência tranquila de quem não vai precisar de aprender mais nada no resto da sua vida.

Jovens amigos, pensem nisto!


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