terça-feira, 19 de agosto de 2008

DIVÓRCIO NOS PAÍSES OCIDENTAIS

FUNDAMENTALISMO NO DIVÓRCIO À OCIDENTAL (*)

Interrogas-te se virá o dia em que, a pretexto de pensões alimentares em atraso, a mulher terá o direito de vender os órgãos do ex-marido que previamente mandou assassinar. E tudo te parece indicar como resposta: – Talvez!

Tu sobreviveste a esse cataclismo que é a última discriminação das sociedades ocidentais: a que se abate sobre os homens divorciados que são pais de filhos menores. E em seguida à condição de filho mal amado, uma tortura psicológica menos usual mas ainda mais avassaladora.

É certo que amaste a tua ex-mulher e era com dor que vias crescer, primeiro a antipatia da tua mãe por ela, depois – consequência natural! – a incompatibilidade entre as duas. Enfim ela pediu o divórcio porque não queria que a sogra, directamente ou por teu intermédio, influenciasse os vossos filhos. Queria ter o poder de os afastar de vós. Estranho, como tudo se manipula… mas manipula! Durante mais de uma década a seguir ao divórcio, serviu-te, fria, a vingança contra a tua mãe que vias em declínio e sofrimento pelo cruel afastamento dos netos, e que, hora a hora, acompanhaste. E um dia, antevendo a solidão, tornaste a casar. Assististe então, com horror e fascínio, a um fenómeno raro nas relações humanas: viste a tua mãe transferir para ti e para a tua actual mulher o rancor que tivera à primeira, e para esta, esquecendo o passado, o amor imenso que – ainda hoje o crês – sempre te dedicara. Ominosa permuta de amor por ódio e de ódio por amor!

“Quando se passa por uma tal experiência” – disseste – “só pela confiança num Deus que nos liberta de angústias julgadas insuperáveis é que nos salvamos de personificar o mais acabado e completo cínico, para quem nenhuma relação humana é genuína.”

Este livro são cartas nunca expedidas e páginas de um diário que afirmas ser o teu legado, o teu único legado: podia muito bem intitular-se Autobiografia de um Louco. Quem o ler alcançará o que tal título traduz! E contemplará alguns fios dessa inefável teia de sentimentos, centrada na personalidade enigmática da tua mãe, ao recordares momentos de amor e solidão que atravessaste sem nunca perderes a fé.

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(*) Estas são as palavras com que abre o livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

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