sexta-feira, 15 de agosto de 2008

ZÉ-MANEL POLIDO, A VOZ DO PAI DIVORCIADO

ZÉ-MANEL POLIDO

E O SILÊNCIO SOBRE O PAI DIVORCIADO

Quem ousa desafiar The Establishment?

Como já afirmei noutro cartaz que afixei neste blogue, ser autor e editor é uma curiosa experiência que muito nos ensina sobre a sociedade em que vivemos, neste caso, a portuguesa ou, mais propriamente, a ocidental. Os dois livros que publiquei sob o pseudónimo de Zé-Manel Polido “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra, URL: www.luz-da-vida.com.pt) viram-se cobertos por um manto de silêncio só por tentarem trazer à luz do dia um drama politicamente incorrecto: a discriminação contra o pai divorciado. Para o leitor mais interessado, afixarei neste blogue alguns fragmentos do “Amor, Solidão e Fé”.

Entretanto o texto que segue foi extraído, com ligeiras adaptações, de um capítulo do meu trabalho final no curso de Pós-Graduação em Edição, Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica de Lisboa, apresentado em Setembro de 2006. Continua válido! Deixo ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões.

O silêncio que assassina:

Há, de facto, uma espécie de conspiração de silêncio sobre tudo o que não seja enquadrável no que, anos atrás, a geração contestatária chamava The Establishment; as gerações actuais deparam-se com idênticas barreiras no Establishment contemporâneo se pretenderem dizer o que não é politica, social ou religiosamente correcto.

Concordamos com o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, quando afirma, na entrevista publicada no número de Agosto de 2006 da revista Os meus livros: “A mim, o que me choca mais, mais do que dizer mal, é o silêncio que assassina”.

Cremos que o jornalismo em geral – talvez seja melhor dizer o “quarto poder” – é o principal responsável por essas barreiras de silêncio que se abatem sobre os recém entrados, como autores ou editores, no meio literário. Responsabilidade a começar nos críticos e comentadores e a acabar nos fazedores de opinião televisivos!

As promoções dos que não precisam delas:

Tem-nos efectivamente surpreendido o efeito “bola de neve” que é prevalecente a nível da promoção de edições literárias por todos os agentes envolvidos neste meio. Sem esquecermos as livrarias! Vejamos que, se uma determinada obra já vendeu 100 mil exemplares, em princípio não precisa de ocupar uma montra inteira; mas ocupa! Porque se está a obter um tão grande sucesso, é óbvio que a livraria a tem à venda e qualquer interessado em comprá-la pode entrar confiante e adquiri-la sem precisar de a ter visto na montra.

O mesmo se diga da postura das páginas literárias de qualquer revista ou suplemento da imprensa escrita: será preciso que todos analisem e reanalisem à exaustão o best-seller do momento, o seu autor, as obras que acabam de ser publicadas a reboque do mesmo tema e que esperam ter sucesso à sombra da primeira, as opiniões que outros críticos já emitiram a seu respeito?... Parecer-nos-ia que não, que não seria necessário prosseguir com super promoções de um produto cujo êxito já se confirmou; mas o que na realidade sucede é o contrário do que pareceria lógico. Os exemplos são por demais conhecidos e não vamos especificá-los por motivos óbvios!

Os temas de sucesso garantido:

Outro efeito que dificulta a vida aos referidos recém entrados é a prioridade dada a tudo o que tenha êxito comercial assegurado sem que minimamente se atenda à qualidade literária, para não dizer linguística e mesmo gramatical, ou à mensagem que a obra traz (ou não traz) consigo.

Se uma figura mediática, de preferência futebolista ou quejando, manequim, apresentador de programas televisivos ou vedetinha de telenovela ou de reality shows fizer publicar um livro sob o seu nome (no sistema de ghost writing, é claro, quer dizer, redigido total ou quase totalmente por um profissional da escrita), esse livro tem garantida uma enorme publicidade a todos os níveis e por todas as formas; e haverá, em consequência disso, ou talvez até sem necessidade disso, milhares de leitores interessados em o comprar, sejam homens que não realizaram o sonho de serem goleadores, mulheres que não realizaram o de se passearem em passerelles, jovens que não realizaram o de ser escolhidos num casting para algumas semanas depois entrarem na sua escolinha de peito inchado porque os outros meninos os viram na véspera na televisão.

Mencionemos ainda a prioridade dada às obras sobre temas em voga, as quais também têm êxito imediato: o centésimo romance dedicado, por exemplo, à violência do homem sobre a mulher vende tantos milhares de exemplares como vendeu o nonagésimo nono, o nonagésimo oitavo, o nonagésimo sétimo, etc. Porque este drama que, no nosso país, durante décadas se escondeu atrás do alcoolismo endémico dos rurais, agora publicita-se para evidenciar a emancipação da mulher urbana portuguesa! Dir-se-ia que ao mundo cinzento da aguardente cachaça e do vinho carrascão se igualou afinal o das flutes e do Johnnie Walker…

Mas mesmo que o tema nada tenha a ver com Portugal, desde que seja politicamente mediático… publique-se já! Os taliban impondo a burka no Afeganistão? Importantíssimo! Publique-se já! Os machistas da Arábia proibindo as mulheres de guiar automóvel? Verdadeiramente dramático! Publique-se já! A protagonista sofrendo a excisão do clitóris na África? É essencial que fique a saber dessa estúpida prática quem ainda não ouviu falar dela! Publique-se já! E publique-se já porque todas as páginas literárias vão dedicar parangonas a essa nova obra… embora nela nada mais se diga para além do que já foi dito e redito noventa e nove vezes…

Os poetas e o seu Gotha; alguém entende o que eles escrevem?

Enfim não esqueçamos as obras de poesia: ou o autor já entrou numa espécie de Gotha de poetas, um misterioso catálogo virtual de autores que são considerados poetas, ou não. Se entrou, vende o seu livro aos outros membros do Gotha; se não entrou, não vende a ninguém.

É certo que a poesia contemporânea são sequências de palavras cujo sentido provavelmente só quem está no tal Gotha ou vive ao seu serviço é que pode entender… São eles quem finge receber a mensagem, descodificando o que hoje chamam poemas, fiadas de algumas poucas palavras impressas no fundo de uma página; e parece que é importante ser no fundo, pois no cimo desvaloriza o conteúdo; ah! e o papel, sim, é de boa qualidade e a fonte tipográfica bem escolhida, pormenores cujo desrespeito levaria a que parte da mais-valia da obra se perdesse para sempre! Ao receberem tais mensagens, os eleitos vivem a mesma transcendência que sempre viveram os místicos, desde que a humanidade se conhece, quando afirmam percepcionar revelações do além através de visões ou vozes que só eles apreendem.

Em contrapartida ao que acabamos de dizer, qualquer livro de versos à moda antiga, ou seja, portador de uma mensagem e escrito em linguagem que todos entendam, com algum ritmo, métrica ou – pecado dos pecados! – rima… não é visto como poesia e resta-lhe candidatar as suas páginas a letras de canções ligeiras…

Ensaios e os partidos ou congregações apoiantes dos seus autores:

Quanto a ensaios e livros técnicos, assinalemos apenas que alguns problemas atrás mencionados também atingem o ensaio. Tornou-se claro para nós que a recensão de um ensaio por críticos literários das publicações de referência não tem nada a ver com o mérito respectivo! É que, também aqui, nem uma crítica negativa se pode esperar…

Se o autor do ensaio não for um consagrado – e pode sê-lo com inteira justiça pelo seu reconhecido talento e competência mas também pelo simples facto de ter um partido político ou uma congregação, religiosa ou agnóstica, atrás de si – ou se a editora não tiver o nome feito – e pode tê-lo pelos mesmos motivos que consagram um autor – não há sequer menção da obra; só o silêncio, o “silêncio assassino” de que Letria fala, a cobrirá…

O livro técnico e a fotocopilhagem:

E para não deixarmos de referir os livros técnicos destinados especialmente a apoiar os estudantes universitários portugueses, desses recordaremos um problema, este bem geral, que comercialmente afecta todas as editoras e todos os autores, consagrados ou não, estreantes ou veteranos: a fotocopilhagem, neologismo que alguém cunhou para designar o fenómeno que consiste em poupar uns cêntimos renunciando à capa dura e à boa encadernação e gramagem das páginas de um livro que poderia servir uns anos no estudo e na profissão, para usar em sua substituição umas folhas soltas e enrodilhadas que se atiram ao lixo no dia seguinte ao do exame.

A impunidade em que vivem as chamadas casas de fotocópias do nosso país é impressionante; pessoalmente recordo o que me aconteceu nos EUA quando entrei numa casa de fotocópias com uma revista científica onde tinha publicado um pequeno trabalho meu com apenas três páginas e eles se recusaram a fotocopiá-lo porque na respectiva ficha técnica se mencionava o copyright!

Conclusões:

Como disse no início, tire-as o leitor!

Lisboa, Setembro de 2006

© Zé-Manel Polido

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