sexta-feira, 19 de setembro de 2008

VOCÊ AMA AS PESSOAS !

VOCÊ AMA AS PESSOAS. VEJO ISSO NOS SEUS OLHOS! (*)

E entretanto continuarão os cães a vir abocanhar-te, morder-te, estraçalhar pedaços do teu corpo cansado e da tua alma sofrida? E tu, resignado, conformado, sempre polido, a alimentá-los enquanto de ti restar o suficiente para te manteres de pé? Estarás certo?

Que Deus nos responda... [ … ] Mas Ele já o fez! Recorda as respostas, uma só que seja. Não lembras um dia, nas horas de ponta, ao cair da tarde, ao saíres do trabalho, parares junto a um jovem que tocava guitarra? Estação do metro, Rua 68 e Avenida Lexington, em Nova Iorque, numa das suas zonas elegantes! Olhaste para ele com a simpatia que olhavas sempre os que vias sozinhos entre as multidões, os que vias à margem, os que pareciam ser elos partidos da cadeia humana. E meditaste um pouco sobre os dramas ocultos naquelas melodias. Para começar conversa, para lhe fazer sentir que ele para ti era gente, perguntaste-lhe que música estava ele a tocar, e tiveste a certeza de que, assim como tu, ele carregava e escondia a sua própria tragédia. Diálogo tão breve, duraria um minuto? Mas uma desconhecida que observou a cena olhou-te bem nos olhos e disse então simplesmente: – “You love people! I see it in your eyes, that you love people!” Ainda a questionaste se ela era psicóloga... Que não, retorquiu-te... Na cidade com alma invisível em cujas ruas tantos milhões formigam, cruzaram-se dois, ou talvez fossem três, que tinham coração!

E inexoravelmente, quando esse ou algum momento semelhante evocas, continuas a querer ajudar os outros, a gostar das pessoas, a acreditar na natureza humana. É o teu destino, o teu fatalismo!

E partes com reforçada coragem para uma nova etapa, um novo dia, uma nova missão; a enfrentar mais um desafio, a arrostar com mais um rosário de amarguras, a tentar realizar mais um sonho. Porquê? Para quê? Com o testemunho do astronauta Titov te identificas, sentes como ele sentia e não esqueces o que ele disse: – “Gosto da vida! É pela vida que eu vou partir!”

______

(*) Estas são as linhas finais do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.

© Editora Luz da Vida, Lda.

1 comentários:

Anónimo disse...

"GOSTAR DAS PESSOAS"

Ao Poeta Zé-Manel Polido

Ao ler o seu encontro casual
em Nova Iorque com aquele moço
que tocava guitarra e, por sinal,
da sociedade humana era um destroço,

acudiu-me ao espírito a figura
da minha extremosíssima mulher
que face a qualquer pobre criatura
não lhe deixava nunca de valer.

Muitos a censuravam por excesso
de generosidade antes os drogadas
ou quaisquer outros marginalizados.

Como em Você, Poeta, nos seus olhos
existia uma luz, que não esqueço,
capaz de em rosas transformar abrolhos!

João de Castro Nunes