segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO? ARTES DA EDUCAÇÃO?

ARTES (E NÃO CIÊNCIAS) DA EDUCAÇÃO (*)

Não sei se é a pressão dos linguistas que querem manter as línguas imutáveis e por tal motivo não aceitam que se inventem palavras novas para factos novos. Mas se os factos são novos, tem de haver para eles palavras novas. Este é um aspecto que, na minha opinião, tem de ser revisto. Ainda há outro em que os linguistas deviam intervir mas também aí ninguém vê neles qualquer reacção: refiro-me à utilização inadequada de palavras que, ou não exprimem o que se quer significar ou exprimem um facto distinto daquele a que se referem.

Exemplos não faltam. No campo da Informática, área muito afim daquela em que trabalho, os profissionais de programação de computadores e os teóricos da chamada Matemática Computacional usam a palavra instância em vez de exemplo ou caso particular. Transliteram o vocábulo inglês instance que, como todos nós sabemos, mesmo os não linguistas, equivale a exemplo (todos nós, americanos e portugueses, dizemos a cada passo "for instance" e "por exemplo", respectivamente), mas não equivale ao português instância: em português, o que há é tribunais de várias instâncias e também há quem faça pedidos instantemente.

Uma outra situação ridícula é o mais que discutido casamento de homosexuais, homens ou mulheres: tenho a convicção que a maioria das pessoas que se opõem à oficialização ou legalização destes contratos o fazem, não por oposição ao contrato em si, mas sim pelo uso de uma palavra que não foi criada para o expressar. Repare-se que, no imobiliário, um contrato de compra e venda não é o mesmo que um contrato de permuta: há uma diferença, relativa aos contratantes. No primeiro, na compra e venda, há alguém que tem e quer deixar de ter e outro que não tem e quer passar a ter; no segundo, ambos têm e querem continuar a ter. Justificadamente, os contratos têm nomes distintos; traduzem situações com algumas semelhanças mas que não são idênticas. Nesta linha de pensamento, porque é que não há-de haver nomes distintos para o casamento entre homem e mulher e o que persistem em chamar casamento entre dois homens ou duas mulheres? Impõe-se a intervenção de linguistas que criem uma palavra nova. Se cada coisa tivesse o seu nome, só se dignificariam ambas e não se estabelecia uma inútil confusão que prejudica sempre quem copia e irrita quem é copiado.

Estas considerações feitas um pouco ao lado dos temas que me propus tratar servem para melhor esclarecer o meu ponto de vista sobre uma polémica que tem também incomodado muita gente.

É o caso das Ciências da Educação. Porquê este nome, obviamente a despropósito? Não há Ciências da Educação! O que há, e seria mais correcto e honesto chamar-lhes assim, é Artes da Educação. O que aliás em nada as desprestigiaria. Até há pouco mais de um século, a Medicina era uma Arte; depois começou a ser uma mistura de Arte e Ciência; agora é muito mais Ciência que Arte. E porque é que podemos fazer esta afirmação? Porque agora sabemos que, se tomarmos a vacina anti-tetânica, é quase absolutamente certo que não vamos morrer com o tétano; e se tomarmos a da rubéola, também ficamos seguros - quase absolutamente e insisto no quase porque em Medicina o absoluto não existe - que não adoeceremos com rubéola.

Ora vejamos o contraste: Que vacina podem os educadores dar a uma criança que garantidamente a imunize contra tornar-se um criminoso ou mesmo apenas um miúdo violento? Ou um deprimido? Ou que a modifique, produzindo um jovem que adore ir à escola a partir de um adolescente que detesta fazê-lo?

Qual é pois a razão para falar de Ciência a propósito da Educação? Respondem-me que é porque, no seu âmbito, se fazem uns inquéritos, se obtêm umas estatísticas, se esquematizam uns resultados utilizando alguns cálculos de matemáticas elementares como sejam percentagens ou proporções. Bem, os pintores, em particular os figurativos, também recorrem um pouco à geometria quando querem respeitar as leis da perspectiva. Deveremos por isso mudar o nome desta forma de arte para Ciências Pictóricas? Quem frequentar uma faculdade ou escola superior de Belas Artes deverá passar a dizer que está a tirar uma licenciatura em Ciências da Pintura?

A excepção serão as Ciências Musicais, porque compor, harmonizar, orquestrar e mesmo afinar instrumentos musicais são actividades enormemente matematizadas. Mesmo assim, o espaço reservado à criação pura, seja do compositor ou do intérprete, é enorme. Também a Arquitectura tem Arte e tem Ciência, e Ciência tem até, embora em menor escala, a Escultura: é óbvio que ao esculpir uma estátua, há que considerar volumes, forças, equilíbrios... mesmo assim, é essencialmente uma Arte, não uma Ciência.

Por isso não se generalizou nem creio se generalizará no futuro próximo, qualquer designação do tipo Ciências Escultóricas nem mesmo Ciências Arquitectónicas.

Resta-nos o ridículo da designação Ciências da Educação.

Assumamos, pois, que a Educação é uma Arte. E que exige talento, em grande parte inato. E que quem brilha na criação dessa forma de arte merece o nosso respeito e admiração; mais até, a sociedade deve ser grata aos que a cultivam porque o seu papel na formação das gerações futuras é fundamental.

Só não se intitulem cientistas. São artistas, sim, e orgulhem-se de o ser, mas não reivindiquem títulos que não se quadram de modo algum aos aspectos centrais da actividade que praticam!

Que gostem de fazer isto ou aquilo, é legítimo; se lhes é apelativo por razões subjectivas, pratiquem-no! Mas não o queiram impor como um protocolo tecnológico ou uma lei científica! Porque disso, nada tem. O que para uns não terá nada de belo para outros é o supra-sumo da estética, às vezes simplesmente porque se generalizou, porque se tornou de uso ou prática numa dada época: como exemplos actuais darei, na Poesia, não haver rimas nem métricas; e na Arte do Vestuário, vulgarmente chamada Moda, as calças e blusões de ganga rasgados, tão em voga à data em que escrevo! A Arte não deve ser imposta. E cada vez é maior a tendência para não o ser. O pensador francês contemporâneo Gilles Lipovetsky fala abertamente nos seus estudos da morte da chamada moda imperativa; hoje, diz ele, a moda é plural. O tempo em que os grandes costureiros -- hoje dir-se-ia, estilistas -- diziam às mulheres: minhas senhoras, a baínha das saias este ano é a x centímetros do chão ou este inverno as botas usam-se pretas ou qualquer outra coisa do género, já passou; e segundo este autor, não é de esperar que volte. Portanto não se pode afirmar que alguém anda ou não anda na moda, que alguma coisa está na moda ou fora de moda.

Isto tudo é consequência, segundo ainda o mesmo pensador, do que ele chama o hiperconsumismo: ninguém se quer afirmar como pertencendo a uma ou outra classe, quer sim afirmar o seu próprio eu... livre, hedonista, procurando valorizar a imagem que criou para si.

E o que se passa na arte do vestuário, passa-se em todas as outras manifestações artísticas. É que os artistas sabem que a Arte não se impõe. E não há que procurar explicações racionais para o que cada um valoriza sob o ponto de vista estético! A menos que queiramos repetir os chavões das grandes damas do século dezanove, quando se elogiavam mutuamente pelo "Bom Gosto" que nisto e naquilo revelavam ter. Na Arte, hoje em dia, não há nada a demonstrar! Muito menos se deve ter a estulta presunção que "é assim que todos devem fazer".

Compreende-se e aceita-se que uma Ordem dos Médicos ou dos Farmaceuticos exija a todos os seus membros que, perante uma determinada patologia, passem a prescrever um novo medicamento B em substituição do antigo medicamento A porque se verificou que os efeitos curativos do novo são claramente superiores aos do anterior. Se um levava uma semana a curar uma dor na cabeça ou no cotovelo e o outro a cura apenas num dia, não hesitemos. Estamos aqui em presença de um avanço científico, fruto de uma actividade científica, que temos de encarar como tal.

Pelo contrário, se ordenarmos a todos os pintores que pintem segundo o gosto (ou, mais expressivamente, o bom gosto) de um determinado mestre, por mais popular, mais inovador, enfim, mais genial que ele seja, aniquilaremos esta forma de arte.

É por isso que são tão catastróficas as consequências de ordenar a todos os professores, a todos os ensinantes, a todos os educadores que instruam, que ensinem, que eduquem de acordo com um modelo congeminado pelos pseudo-cientistas da Educação; porque os gurus da Educação não são cientistas, são sim artistas. E, consequentemente, não devem nem podem dar indicações, muito menos ordens, aos seus confrades. Quando muito, que dêem exemplos!

2008.04.21

© J. M. S. Simões Pereira

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(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve “Convicções e Cepticismos

1 comentários:

Anónimo disse...

QUESTÃO VOCABULAR

Ao Prof. J. M. S. Simões Pereira,
em plena concordância linguística

Há que dar a razão a quem a tem:
pelo que a novos termos diz respeito
para expressar qualquer novo conceito,
eu acho o seu critério muito bem!

Respeitemos os termos consagrados
e, por assim dizer, comprometidos
com hábitos de longe transmitidos
e fortemente em nós... enraizados.

Se "matrimónio" desde logo implica
a existência de mãe no "casamento",
que é uma espécie de acasalamento,

como entre os animais se verfica,
para outro qualquer tipo de união
invente-se... ajustada... locução!

João de Castro Nunes