quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

Vou acrescentar mais uma página às muitas que se têm escrito sobre os problemas ou pseudo-problemas das chamadas Ciências da Educação.

A espiral de degradação em que se encontra o ensino pré-universitário afecta toda a sociedade e é sentida e vivenciada em primeira linha por aqueles cuja actividade os envolve nestes problemas.

Tenho para mim que uma das causas desta degradação é a dicotomia que menciono no título: há, nas escolas, profissionais do ensino, mas faltam profissionais que ensinam. Exemplificando com a minha especialidade científica: quem ensina Matemática nos níveis do básico ao secundário, tem de ter, por exigências do próprio sistema e frequentemente a contra-gosto, muito mais em comum com baby-sitters do que com matemáticos profissionais. E isto é tremendamente errado, porque por um lado eterniza a infância dos jovens em vez de os estimular a crescer e, por outro, estiola a capacidade dos docentes para viver - digamos, com generosidade, a metade - do seu campo de acção que será (ou deveria ser) a preparação como matemático, enquanto a outra metade seria a preparação como ensinante. E digo que sou generoso, porque acredito que a preparação como matemático devia tomar mais do que metade do seu esforço e da sua dedicação.

Curioso é que a vantagem do ponto de vista que defendo é tácita embora não abertamente reconhecida pela sociedade. Falando sem tabus: em que se baseia o prestígio da Universidade Católica Portuguesa? Essencialmente – e invoco, também mas não só, a minha própria experiência como aluno pós-graduado que fui desta universidade – no facto de a maioria dos seus docentes serem profissionais que ensinam, quer dizer, pessoas que têm a sua principal actividade fora do campus e ali vão dar aulas como actividade secundária. Transmitem assim aos seus alunos uma experiência de vida que é benéfica para eles, não só em si mesma como também porque lhes faculta desde logo contactos para o acesso ao mercado de trabalho quando receberem os seus diplomas. Disso resulta os seus graduados terem muito menos dificuldades em encontrar um primeiro emprego do que os de outras instituições de não menor qualidade. E o que é válido para esta escola é-o também, em larga medida, para várias faculdades da Universidade Técnica de Lisboa.

Ressalvo, para não me acusarem de ambíguo, um facto: em muitas outras universidades nacionais, a maioria dos que, legal e oficialmente e antes de tudo, são chamados professores, pois nelas trabalham em exclusividade, não se limitam a ensinar: são também profissionais que ensinam pois a sua actividade de investigação, divulgação, organização e serviço à comunidade extra-universitária vai muito para além do simples acompanhar dos seus próprios estudantes.

Relativamente aos docentes do ensino pré-universitário, devem estes, a meu ver, em especial os do secundário, ser estimulados a crescer no conhecimento e manuseamento das áreas da sua docência porque acredito que quem sabe fazer sabe ensinar e por vezes desconfio que têm razão os que ironizam com o provérbio “quem sabe, faz, quem não faz - ou é quem não sabe? - ensina!”

E estes que ensinam mas não fazem, lá se vão escudando no conhecido, gasto e ridículo argumento, tão querido aos gurus da Psicologia e das Ciências da Educação, que, mesmo quem não sabe fazer nada, se for cientista da educação sabe garantidamente ensinar!

Mas ensinar o quê? É a pergunta que nós outros, que não somos gurus nem sequer cientistas da educação, lançamos… para ficarmos sem resposta.

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