sábado, 15 de agosto de 2009

CENTRALISMO E AMBIENTALISTAS EM PORTUGAL

A FIGUEIRA DA FOZ, O GOLFE, A CIMPOR E O CABO MONDEGO

Aqui na Figueira da Foz recordei hoje um artigo meu saído no Diário de Coimbra há mais de 9 anos. Relê-lo mostra como tudo continua sem mudar neste nosso país que padece do característico síndrome dos países do terceiro mundo: desenvolve-se a capital (e o Algarve que é onde a capital passa férias) e deixa-se o resto entregue à natureza. Uma opção tranversal aos partidos que têm passado pelo poder, no que obviamente se revelam úteis os auto-proclamados ambientalistas...

Nove anos depois, é amargo reconhecer que, entre os projectos a que me refiro, só não foi inviabilizada a Foz Village; e a pista de remo em Montemor-o-Velho, embora sobreviva, não tem a envolvente que já devia ter... e pergunto-me se a virá a ter...


Segue-se a transcrição do artigo publicado a 22 de Abril de 2000:

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DA CIMPOR AO GOLFE: O QUE MOVE OS AMBIENTALISTAS E OS "PROTECTORES DA NATUREZA"?

Ainda não tínhamos digerido a inviabilização do golfe na Figueira da Foz e logo sabemos que o de Mira sofre o mesmo destino. E que houve pareceres negativos contra a pista de remo em Montemor-o-Velho: não sei aliás se também é inviabilizada. E que o magnífico projecto de urbanização Foz Village, entre Buarcos e o Cabo Mondego, também está a ser vítima dos ambientalistas e protectores da natureza. Só que - e isto é fantástico mas é um facto! - os mesmos que tanto se empenham contra estes projectos estão mudos e quedos contra a fábrica da Cimpor do Cabo Mondego e contra a co-incineração em Souselas e Maceira. Não se lhes ouve um só murmúrio contra estes monstruosos atentados ao ambiente.

Se em política o que parece é, permitam-me que pergunte, o que parece isto tudo?

Que coerência têm estas associações de ecologistas? Porque não se pronunciam contra os projectos do Algarve e da Grande Lisboa, sejam eles na Arrábida ou em Sintra? Não são estas áreas dignas de ser preservadas? Tanto são que a co-incineração foi logo excluída do Outão, mesmo sem os protestos deles! Porque se identificam os alvos dos ataques destas associações com tudo o que possa trazer desenvolvimento à Região Centro, especialmente na vertente turística? Porque permitem eles que os seus pontos de vista se colem aos interesses da indústria hoteleira do Algarve e Grande Lisboa, e aos mais fanáticos partidários do centralismo lisboeta ou enfim da bipolarização turística Lisboa-Algarve?

Porque, deixemo-nos de ingenuidades: o ambiente é de nós todos, não é só dos caracóis e dos batráquios, dos malmequeres e da passarada, é dos humanos também. A flora e a fauna actuam sobre o meio ambiente e nós humanos temos pelo menos iguais direitos. É óbvio que temos de actuar com inteligência e cautela, mas isso não implica deixar tudo nas mãos (ou melhor, nas patas) da bicharada. Termos uma floresta, umas dunas, uns lagos ou lagoas intocados, onde os humanos não entram, será uma maneira de educar para a protecção do ambiente? Como educadores sabemos que para amar e respeitar a natureza temos de nos habituar a conviver com ela. Se tudo nos for inacessível, duvido que esse amor e esse respeito se desenvolvam nas novas gerações.

A opção que me parece realista quanto ao golfe da Figueira ou de Mira não é entre umas lagoas e dunas impolutas e virgens e uma floresta de betão a substituir-se às espécies que os ambientalistas e outros protectores da natureza dizem tanto amar. A alternativa realista é outra: é entre haver turistas, e consequentemente trabalhadores a cuidar da limpeza dos espaços, das plantas, das relvas, das lagoas, das árvores, ou haver apenas marginais e um ou outro raro passante que pensará "que bonito que isto podia ser, se estivesse arranjado e aproveitado!"; é entre haver bolas e tacos de golfe, ou haver preservativos e seringas, restos de papel higiénico, sacos de plástico rotos a verter cascas de frutas e côdeas de pizza, fraldas descartáveis fétidas e sujas. Lixos que ninguém obviamente limpará, estercos que ninguém vai remover. Mas quem quiser jogar o golfe tem a Grande Lisboa e tem o Algarve e para contemplar a natureza tem o Parque de Monsanto, Sintra ou a Arrábida, e a costa algarvia, onde há hotéis, restaurantes, discotecas, condomínios fechados e tudo o mais. Para o lazer dos que têm tempo ou já não precisam de emprego e para se empregarem os que ainda precisam de o fazer. Que vão todos para lá! E que suba nessas regiões o nível de vida e que continuem pobres e sem empregos os que vivem na Região Centro. Afinal também estes, se quiserem, podem ir para essas regiões privilegiadas onde a natureza resiste a todos os golfes, projectos imobiliários de férias e fins-de-semana, equipamentos turísticos e de lazer de todos os tipos. A desertificação não é um problema, pelo menos não incomoda os caracóis, batráquios, malmequeres e passarada. Nem incomoda os protectores da natureza. Nem certamente a Cimpor.

Senhores políticos, desçam das nuvens! Ouçam a meia dúzia dos iluminados protectores da natureza, mas ouçam também a meia dúzia de milhões de portugueses (talvez de facto já sejam menos...) que ainda não emigraram para a Grande Lisboa. Que vivam caracóis, batráquios, malmequeres e passarada, sim! Mas que vivamos nós humanos também! Façam favor de encontrar rapidamente alternativas locais aos projectos que inviabilizaram. Usem a inteligência que têm! Porque nós, cidadãos comuns, também não somos desprovidos dela!

J. M. S. Simões Pereira

(Professor Universitário)

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Diário de Coimbra a 22 de Abril de 2000

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