terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ciência e cultura gratuitas: Sim ou Não?

Acabo de ler um documento no Boletim Quinzenal do meu sindicato, o SNESup, em que o autor preconiza a disponibilização gratuita do conhecimento e dos bens culturais. Para ele, as músicas, por exemplo, deviam ser postas à disposição do público na Internet, sem qualquer remuneração a pagar por quem as quisesse gravar, os livros, a mesma coisa, enfim, na era das telecomunicações fáceis, a cultura e a ciência deviam ser produzidas de graça.

Espantoso que o autor desse documento não propõe -- como devia fazer para ser coerente -- que tudo o resto que se produz devia ser igualmente gratuito. Por que razão deveremos pagar o arroz, as batatas, o pão ou a fruta que comemos? Porquê pagar ao pedreiro e ao carpinteiro que produzem as casas onde moramos? Porquê pagar o petróleo e seus derivados ou quaisquer outras fontes de energia?

É certo que há sociedades que parecem viver felizes sem que os seus membros paguem serviços ou bens mutuamente fornecidos: desde a infância que admiro as formigas e as abelhas. Mas haja coerência como entre elas existe: ou se paga tudo ou não se paga nada!

E num mundo que paga, e caro, as tacadas de Tiger Woods, os xutos de Cristiano Ronaldo e as raquetadas de Serena Williams, que razão nos levará a aceitar que não se devam pagar os resultados do esforço, suor e lágrimas dos que produzem ciência e cultura?

Certamente que já houve tempos em que muitos não eram pagos pelo seu trabalho e produziram grandes obras: os escravos e servos da gleba não eram pagos e alimentaram reis, nobres, senhores feudais e grandes exércitos; e no Antigo Egipto, segundo se diz embora alguns já duvidem, terão sido escravos os que construiram monumentos que ainda lá estão, milhares de anos depois. Preconizará o autor do artigo a que me refiro a reintrodução da escravatura na sociedade do futuro da qual parece querer ser arauto? Sendo que esses novos escravos seriam os cientistas, os intelectuais, os artistas...

Temos pois um arauto do futuro a defender um regresso ao passado! E vamos com sorte, porque também nesse passado, ao qual eu não quereria regressar, cientistas e artistas não eram lá muito bem pagos. Havia alguns reis e nobres mecenas que eram mais ou menos esmoleres para os que, com música, teatro e bufonaria matavam o tédio das cortes e salões dos seus senhores. E cientistas, e também artistas, alguns o conseguiram ser porque eles próprios pertenciam a famílias nobres: nasceram ricos, não enriqueceram com o que descobriram ou criaram.

Enfim, convenhamos, pior ainda do que não ser pago é ser castigado por produzir conhecimento e cultura. Se seguirmos a proposta do autor do artigo que refiro, o primeiro passo será não ser pago; e nesse regresso ao passado o segundo passo é talvez pagar com a vida ou a liberdade a ousadia de pensar ou de produzir progresso. Não foi isso que aconteceu a Sócrates, o grego, à Hipátia de Alexandria, ao Galileu Galilei?

Ora, responder-me-á o autor do artigo, trabalhem sem ganhar e dêem-se por felizes: por enquanto ainda não preconizo para vós o destino de Sócrates, Hipátia ou Galileu!

Ze-Manel Polido

2 comentários:

João de Castro Nunes disse...

O PREÇO DO TALENTO

Ao Prof. J. Simões-Pereira

Admiro em si, Doutor, a lucidez
do seu raciocinio temperado
por um aroma personalizado
de fino humor e grácil sensatez.

Sabe dizer as coisas que pretende
em rendilhadas frases literárias
provenientes de leituras várias,
cuja perfeita síntese nos prende.

Neste caso concreto estou consigo:
por que há-se ser gratuita uma obra de arte
ou qualquer outro similar artigo?!

Acaso, aspectos laborais à parte,
vale mais o que faz um carponteiro
que um músico ou poeta verdadeiro?

JOÃO DE CASTRO NUNES

João de Castro Nunes disse...

Corrijo a gralha "carponteiro" por "carpinteiro". JCN