terça-feira, 5 de julho de 2011

Maria dos Anjos da Fonseca Saraiva

A notícia recente do teu falecimento chocou-me. Quando nos conhecemos éramos jovens. Embora o tempo passe, julgamos que não envelhecemos e a morte – sobretudo a dos amigos porque na nossa pensamos às vezes – nunca nos parece provável.
Quero pois prestar-te uma pequena homenagem. Por um motivo, que deve parecer surpreendente.
Lembras-te por certo que no ano em que trabalhaste comigo – já lá vão mais de quatro décadas – primeiro gostaste de o fazer mas depois, subitamente, deixaste de gostar. Compreendeste que o trabalho que eu tinha combinado contigo e os outros membros da nossa equipa se tornara demasiado duro.
Como jovem professor, eu queria apoiar e efectivamente apoiava tanto os alunos que começaram a transferir-se às centenas, vindos das universidades de Lisboa e Porto, para a nossa faculdade.
Chegámos a ter 1400 inscritos na cadeira que eu regia de Cálculo Infinitesimal. Não havia ainda 'numerus clausus' e as transferências eram automáticas porque as três licenciaturas em Matemática existentes no País (Lisboa, Porto e Coimbra) tinham o mesmo elenco de disciplinas.
Dar a 1400 alunos 4 ou 5 frequências no ano (o Cálculo Infinitesimal era anual), prepará-las, dactilografá-las, fazer as vigilâncias, corrigi-las e classificá-las para os podermos dispensar selectivamente no exame final de responderem a matérias nas quais já tinham revelado conhecimentos satisfatórios… era realmente um trabalho gigantesco, sobretudo após o aumento inesperado do número de alunos que frequentavam.
Voltaste-te então contra mim e influenciaste metade da equipa: eram seis pessoas ao todo que comigo trabalhavam.
Senti-me magoado. Houve no fim desse ano uma minicrise académica e até os alunos, absurda e paradoxalmente, conseguiste manipular: lembro-me de um deles me dizer que era injusto dispensar alguns e obrigar outros a fazer exame!
Ainda por cima, tu eras vista como uma pessoa favorável à situação política do Estado Novo, o que levou alguns professores, entre os quais um grande amigo meu, a não te condenarem a ti, mas sim a mim. Querendo apoiar tanto os alunos, que na sua maioria seriam revolucionários esquerdistas, tudo me classificava como um dos deles… pelo menos aos olhos de alguns ultra-conservadores. E atingir uma percentagem de aprovações que não era de modo algum habitual tornava-me extraordinariamente suspeito, alvo mesmo de alguma inveja dos colegas. Era olhado como um professor quase mediático - antes do advento do mediatismo - e a situação chegou a ser um autêntico inferno para mim!
Tinha eu 26 anos. Mas tudo isso me levou a tomar uma decisão que a vida me veio a revelar ser acertada. E fiquei a devê-lo a ti, sem que tu jamais te tenhas apercebido disso. Portanto, hoje, mais de quatro décadas depois, registo o meu agradecimento em face desta verdade que ao tempo, por tua causa, aprendi:
- Que nunca devemos ser demasiadamente generosos!

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