segunda-feira, 24 de setembro de 2012

JOSÉ BAYOLO PACHECO DE AMORIM



Neste ano da minha própria jubilação, quero recordar alguns dos meus professores, especialmente os que marcaram a minha juventude académica.
Começo pelo Professor Doutor

José Bayolo Pacheco de Amorim

Filho de um outro professor universitário, Diogo Pacheco de Amorim, herdou uma das cadeiras que o pai regeu, a Mecânica Racional, e coligiu as aulas do pai num livro que é realmente um modelo de organização e clareza matemáticas. Intitula-se “Lições de Mecânica Racional”. Não sei a quem cabe, se a ele se ao pai, a maior parte das virtudes da obra, pois já não fui aluno do pai. Admitindo que a responsabilidade é partilhada, exprimo aqui a minha admiração pela capacidade expositiva dos seus autores! Acrescentarei que, como aluno do liceu ou, como hoje dizemos, do ensino secundário, estudei aritmética racional por um livro da sua autoria que ainda hoje guardo, para eventual consulta, na minha biblioteca pessoal.

José Bayolo Pacheco de Amorim foi o primeiro cultor, em Portugal, do que hoje chamamos a teoria dos grafos e redes. A sua tese de doutoramento versava o célebre problema das quatro cores. Foi bolseiro em Espanha com Alfred Errera, outro pioneiro desta área, também injustamente esquecido ou, pelo menos, pouco lembrado!

As universidades portuguesas tinham, naqueles tempos, uma extrema rigidez de curriculum; não era possível oferecer aos alunos qualquer variação no elenco das disciplinas que constituem os cursos. Só muito mais tarde começou a haver opções. Um homem como José Bayolo Pacheco de Amorim nunca pôde oferecer uma disciplina sobre a sua especialidade, grafos e redes, aos estudantes.

Como investigador, nas suas dissertações e noutros trabalhos que publicou, ele fez uma análise pormenorizada do problema da dualidade entre cartas geográficas e grafos, recorrendo a conceitos delicados de Topologia.

Como cidadão, teve intervenção ativa na vida pública; era já então conhecida a sua enorme simpatia pela Causa Monárquica, o que por vezes terá levado alguns a considerá-lo um representante do que então se chamava a extrema-direita. Pessoalmente sempre senti o seu apoio profissional e nunca detetei qualquer discriminação, embora eu claramente não partilhasse a sua posição política. Sei que, à margem da sua atividade como catedrático de Matemática, foi um dos grandes dinamizadores do Instituto Politécnico de Tomar, ao qual começou a dedicar intermináveis horas de trabalho na idade em que muitos já só pensam em se aposentarem, e assim continuou já depois de jubilado da Universidade de Coimbra. A sua energia era impressionante, pois corria incansavelmente entre Tomar, Coimbra e a sua bela quinta no Minho… isto num tempo em que a rede - ou o grafo! - das autoestradas portuguesas era bem mais reduzida!

Sua esposa, cuja foto do tempo em que eram noivos ele mantinha na sala de visitas da sua moradia de Coimbra, sempre, em segredo, a admirei, pela sua beleza e juventude, que o seu estilo de vestir acentuava: sandálias pretas e soquetes brancos, saia rodada e blusa de mangas tufadas. Mais tarde, quando a conheci - obviamente, já o casal era adulto - profundamente apreciei, nas diversas vezes em que eles tiveram a amabilidade de me convidar, a dignidade da sua elegância gentil e a distinção do seu trato. Presto aqui, à sua memória, a minha mais sentida homenagem.


1 comentários:

Anónimo disse...

Farei aqui ao meu cartaz sobre o professor José Bayolo Pacheco de Amorim um comentário adicional: visitei-o pela última vez há poucos meses. E foi durante essa visita que fiquei a saber do falecimento da sua esposa. Compreendi então a razão pela qual o vi tão debilitado; e tive a clara premonição que não tardaria a juntar-se a ela pois que, para ele, o interesse em continuar beste mundo tinha diminuído.
Agora, que ele também já não está connosco, presto à memória de ambos, à dele e à da sua esposa, a minha sincera, amiga e respeitosa homenagem.
J. M. S. Simões-Pereira