quarta-feira, 10 de outubro de 2012

LUÍS BEDA DE SOUSA TAVARES NETO


Hoje mais um professor da minha licenciatura em Matemática em Coimbra entre 1958/59 e 1961/62


Luís Beda de Sousa Tavares Neto



Nós, os alunos, não conhecíamos o seu nome completo. Todos o referíamos como Professor Beda Neto. Dava Álgebra Superior ao 2.º ano e Análise Superior ao 3.º, duas cadeiras, ambas anuais.
Nos exames, não era temido como o Manuel Esparteiro nem tinha a fama de generoso que tinha o Pacheco de Amorim. Era medianamente exigente e as matérias que ele ensinava não eram extensas.
Víamo-lo como um homem fechado, um homem que parecia viver num espaço limitado. Dir-se-ia que sentia alguma frustração. O tratado que naquela época era a referência principal para o estudo da Análise era da autoria de um francês, de nome Goursat. Lembro-me de ele me dizer um dia que tinha também projetado, ou talvez mesmo começado a escrita de uma emulação do Goursat… um Goursazinho foi a expressão que ele usou; começava com a sua tese de doutoramento que ele teria desenvolvido posteriormente. Mas nunca chegou a publicar. Era essa sua fragilidade que me tocou: apesar de minha juventude  eu não tinha nem sequer 20 anos  senti pena daquele senhor que assim me confessava um sonho que não teve coragem de realizar.
Além das suas dissertações, não sei de quaisquer outros trabalhos científicos que tenha publicado. E mesmo como responsável pela cadeira de Álgebra Superior, não tinha admiradores; havia quem considerasse que a matéria por ele dada não seria a mais adequada: a álgebra clássica, já nós a conhecíamos das Matemáticas Gerais do 1.º ano; seria de esperar, diziam os seus detratores, que ele desse o que então se chamava a álgebra moderna, a teoria dos grupos, anéis e corpos que o colega da Universidade de Lisboa dava na cadeira com o mesmo nome. Era mais uma razão que o apagava; não adivinho, se ele tinha ou não conhecimento destas críticas.
E apagado sempre ele foi até ao fim; quando se jubilou, diz-se que terá ido viver para fora de Coimbra, na casa de uma sobrinha. E nunca mais, ninguém ouviu falar dele.



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