domingo, 7 de outubro de 2012

MANUEL DOS REIS versus AMÉRICO TOMÁS

Mais um professor de quem fui aluno na Universidade de Coimbra quando aí cursei Matemática entre 1958/59 e 1961/62

Manuel dos Reis vs Américo Tomás

Recordarei aqui Manuel dos Reis, ou, melhor, Doutor Manuel dos Reis, como ele sempre assinava, pois a palavra Doutor integrava a sua rubrica e parece que a considerava como sendo parte do seu nome. Vaidade? Talvez, ele cresceu num tempo em que “lente” era a palavra usada para designar os professores universitários. Lente significava aquele que lê. O lente pegava num livro e lia, talvez até não conhecesse o conteúdo, apenas garantidamente sabia ler. E os estudantes ouviam. E tanto bastava para que os lentes fossem alvo da admiração e do respeito gerais.

Seria este o mundo em que Manuel dos Reis, na década de 1960 já próximo da jubilação, nasceu e viveu os primeiros tempos da sua atividade? Nós, os alunos, sempre o vimos como um homem de aspeto irascível, sem nunca sorrir, sempre de má catadura, totalmente inacessível! Dava Mecânica Celeste, uma cadeira anual, aos finalistas da licenciatura em Matemática. O programa era coberto pelas primeiras 200 páginas do “Traité de Mécanique Celeste”, um tratado em 4 volumes, com um total de mais de 2000 páginas, da autoria de um especialista francês, F. Tisserand, professor em Paris. Não sabíamos se Manuel dos Reis alguma vez teria ensinado outra matéria. Mas o ambiente do tempo era tão rígido, que a sua postura e a sua atividade não destoavam desse ambiente. Um homem que foi seu assistente, o Eng. Francisco Alves Ferreira, disse-me que, quando ele andava ocupado a redigir algum trabalho de caráter científico e lhe perguntavam quando ia ser publicado, ele respondia sempre que ainda não lhe tinha dado “a forma definitiva”.
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Em Coimbra, o chamado quarto de hora académico era uma tradição: qualquer coisa marcada para uma determinada hora começava sempre um quarto de hora mais tarde e não se falava de atraso, pois era uma regra seguida por todos. Manuel dos Reis, para as suas aulas, ampliou o quarto de hora para a meia hora, mas era rigorosamente meia hora, quer dizer, o seu atraso era… pontualíssimo. Chegava sempre de táxi. Nesse tempo, nenhum docente tinha gabinete de trabalho na universidade; ele por acaso até tinha porque era o diretor da biblioteca, na qual havia um pequeno escritório à entrada que ele poderia utilizar. Não me lembro de ouvir dizer que ele lá passasse tempo.
Contava-se que, todas as semanas, se deslocava a Lisboa e se encontrava com amigos na Pastelaria Versalhes, que já existia no mesmo local onde ainda hoje se encontra. Julgo saber que ele era membro da Academia de Ciências, mas desconheço totalmente a sua produção científica. Por certo terá sido autor, pelo menos, das dissertações exigidas para o doutoramento e a agregação (ou concurso para professor extraordinário, como se dizia na altura). Em Coimbra nunca aparecia em quaisquer eventos sociais, dos poucos que havia. Constava que era casado, mas julgo que não tinha filhos. Há um facto que parece indicar que ele terá desenvolvido qualquer profunda aversão a Coimbra ou, pelo menos, ao Departamento de Matemática onde durante tantos anos trabalhou. É que após o seu falecimento em 1990, certamente por indicação sua, a família doou à biblioteca da Universidade de Aveiro (não à de Coimbra!) o acervo bibliográfico que ele possuía: alguns milhares de livros sobre Matemática, mas não só. Pessoalmente acredito que a má catadura, que perante nós, alunos, sempre exibiu, tivesse a ver com qualquer misterioso ódio que nutria pela sua própria instituição.
                                                                      
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Talvez transpareça do que escrevo que eu não admirava este homem. É falso. Quero prestar a minha homenagem ao seu caráter de cidadão que eu vi não vergar a espinha perante os deuses do salazarismo. Foi um episódio sobre o qual escrevi um artigo, em 22 de maio de 1991, no Jornal de Coimbra, um semanário que então se publicava.
Tudo aconteceu a 17 de abril de 1969, o dia da inauguração do edifício onde se ia instalar, e continua hoje instalado, o Departamento de Matemática. Na mesa de honra, Américo Tomás então Presidente da República, o Ministro da Educação e o das Obras Públicas, o Reitor da Universidade, e Manuel dos Reis, como decano da Faculdade de Ciências. Rebenta o célebre incidente em que Alberto Martins, um futuro ministro, que então era estudante e presidia à Associação Académica, se levanta da sua cadeira na assistência e pede, aliás respeitosamente, ao Almirante Américo Tomás, para usar da palavra. Tomás pareceu ficar atrapalhado. Ele próprio se levanta também e responde, apontando o dedo ao estudante, “mas agora vai falar o senhor ministro das obras públicas…” Alberto Martins senta-se outra vez e todos nós ficámos à espera, que depois do senhor ministro falar, Tomás, num gesto de homem sem medo, interpelasse o estudante: “Fale então, senhor estudante, dou-lhe agora a palavra…” Tal, porém, não aconteceu.
O ponto que aqui quero salientar tem duas vertentes: uma é que, no discurso que Manuel dos Reis tinha proferido nessa cerimónia, antes do Alberto Martins se levantar, não houve palavras de sabujice às autoridades. Numa atitude raríssima naquele tempo, Manuel dos Reis falou com objetividade sobre as vicissitudes da história recente da Matemática em Coimbra; o seu discurso está publicado na íntegra na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, volume 42, (1969), páginas 297-300. A outra vertente é que, quando Tomás se levantou para responder ao pedido do estudante, toda a mesa em peso se levantou, exceto Manuel dos Reis. Numa fotografia que o Jornal de Coimbra tinha publicado, e republicou com o meu artigo em 22 de maio de 1991, vemos esse homem que não sabia sorrir permanecer sentado, enquanto todos os outros estão em pé. Distração momentânea? Não viu que os outros se levantaram? Não creio.



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