sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MANUEL MARQUES ESPARTEIRO

Neste ano da minha própria jubilação, continuo a recordar e a registar aqui as minhas memórias relativamente a alguns dos que foram meus professores quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962. Hoje recordo o
Manuel Marques Esparteiro

Relembro, no 1.º ano, Manuel Marques Esparteiro, o homem que dava as chamadas Matemáticas Gerais e depois, no 2.º ano, o Cálculo Infinitesimal, cadeiras anuais, pois naquele tempo poucas eram as cadeiras lecionadas num só semestre. Era um professor extraordinariamente exigente: para ser aprovado nas suas cadeiras, tínhamos de passar em primeiro lugar uma prova escrita e, em seguida, uma prova oral. Era esta que nos parecia terrível. Hoje penso que era útil, pois nos habituava a expor e a não ter medo do público; estas provas eram públicas e os colegas, por exemplo, podiam assistir e efetivamente faziam-no, até para irem ouvindo as perguntas que o professor decidia colocar mais frequentemente.
Como material de estudo, no tempo em que não havia nem fotocópias nem Internet, tínhamos livros na Biblioteca, que era excelente, não hesito em afirmá-lo. Eram essencialmente volumosos tratados, na sua quase totalidade escritos em língua francesa. Os professores portugueses não eram muito dados a escrever livros. O que tínhamos, sim, eram as chamadas “sebentas”, volumes dactilografados por algum estudante mais capaz de coligir bons apontamentos das aulas. Claro que esses volumes eram vendidos e os lucros eram para o estudante que os coligia. Havia um funcionário que os armazenava e, mediante uma pequena percentagem, servia de livreiro. O seu nome: o senhor Manuel dos desenhos, este qualificativo “dos desenhos” vinha de ele ser o responsável pelas portas de uma sala onde tinham lugar todas as cadeiras de Desenho que constavam do nosso curriculum: Desenho Rigoroso, Desenho de Máquinas, Desenho Topográfico…
Nos anos em que frequentei as aulas do Professor Esparteiro (1958/59 e 1959/60), então próximo da sua jubilação, havia a “sebenta” do Miranda, um conhecido e muito procurado explicador para alunos do 1.º ano; depois apareceu outro “autor” das respetivas sebentas que foi um condiscípulo um ano mais avançado e que veio aliás a fazer uma brilhante carreira de matemático como professor e investigador: o Graciano Neves de Oliveira.
Na verdade, Manuel Marques Esparteiro, como grande número de docentes universitários de então, não foi prolífico na escrita de livros ou trabalhos de investigação: sei que publicou uma dissertação para o seu doutoramento e uma outra para o concurso que equivaleria ao que hoje, em 2012, chamamos a agregação. Era assim naquele tempo! Não o condeno, pois embora não escrevesse, a sua cultura matemática era vasta e isso percebia-se por vezes nas aulas que dava.
Já jubilado, continuou a apreciar as coisas boas da vida. Costumava participar em almoços organizados, nos meses de verão, por uma empresa de seca de bacalhau, na Figueira da Foz. E embora preferisse as dietas vegetarianas, nunca, nesses almoços, se eximiu a uma boa sardinhada ou bacalhoada, enquanto comentava:  De vez em quando, também temos de fazer uma asneira!

Veio a falecer atropelado, creio que bem ultrapassados os 80 e muitos anos!



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