Neste ano da minha própria jubilação, continuo a recordar e a registar aqui as minhas memórias relativamente a alguns dos que foram meus professores quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962. Hoje recordo o
Manuel Marques Esparteiro
Como material de estudo, no tempo em que não havia nem fotocópias nem Internet, tínhamos livros na Biblioteca, que era excelente, não hesito em afirmá-lo. Eram essencialmente volumosos tratados, na sua quase totalidade escritos em língua francesa. Os professores portugueses não eram muito dados a escrever livros. O que tínhamos, sim, eram as chamadas “sebentas”, volumes dactilografados por algum estudante mais capaz de coligir bons apontamentos das aulas. Claro que esses volumes eram vendidos e os lucros eram para o estudante que os coligia. Havia um funcionário que os armazenava e, mediante uma pequena percentagem, servia de livreiro. O seu nome: o senhor Manuel dos desenhos, este qualificativo “dos desenhos” vinha de ele ser o responsável pelas portas de uma sala onde tinham lugar todas as cadeiras de Desenho que constavam do nosso curriculum: Desenho Rigoroso, Desenho de Máquinas, Desenho Topográfico…
Nos anos em que frequentei as aulas do Professor Esparteiro (1958/59 e 1959/60), então próximo da sua jubilação, havia a “sebenta” do Miranda, um conhecido e muito procurado explicador para alunos do 1.º ano; depois apareceu outro “autor” das respetivas sebentas que foi um condiscípulo um ano mais avançado e que veio aliás a fazer uma brilhante carreira de matemático como professor e investigador: o Graciano Neves de Oliveira.
Na verdade, Manuel Marques Esparteiro, como grande número de docentes universitários de então, não foi prolífico na escrita de livros ou trabalhos de investigação: sei que publicou uma dissertação para o seu doutoramento e uma outra para o concurso que equivaleria ao que hoje, em 2012, chamamos a agregação. Era assim naquele tempo! Não o condeno, pois embora não escrevesse, a sua cultura matemática era vasta e isso percebia-se por vezes nas aulas que dava.
Já jubilado, continuou a apreciar as coisas boas da vida. Costumava participar em almoços organizados, nos meses de verão, por uma empresa de seca de bacalhau, na Figueira da Foz. E embora preferisse as dietas vegetarianas, nunca, nesses almoços, se eximiu a uma boa sardinhada ou bacalhoada, enquanto comentava: De vez em quando, também temos de fazer uma asneira!
Veio a falecer atropelado, creio que bem ultrapassados os 80 e muitos anos!

0 comentários:
Enviar um comentário