segunda-feira, 4 de março de 2013

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN



Creio ter sido no número de julho a dezembro de 1981 que esta revista publicou uma entrevista a uma cientista portuguesa, então residente em Nova Iorque, na qual ela fez algumas declarações de que eu, em certa medida, discordei. Dizia que os portugueses daquela época eram ainda “guerreiros que não trabalham”, que sentiam prazer “em passar uma noite na conversa”, pouco votados ao esforço e à “solidária solidão” que são necessários para estar na vanguarda de qualquer atividade. Dava o exemplo de um afilhado português que gostava muito de nadar mas que, na opinião dela, nunca viria a ser um campeão.

Escrevi ao diretor da revista a seguinte carta (aqui reproduzida com a nova ortografia) que ele, no seu pleno direito, entendeu não publicar.


Professor Onésimo T. Almeida
Box O, Revista Gávea Brown
Brown University
Providence, RI 02912
Exmo. Professor Almeida:

A leitura do interessante número da Gávea Brown que dedicaram à doutora Ana de Brito despertou-me o desejo de manifestar uma certa discordância com o pano de fundo que se percebe sem se ver. Submeto-lhe para possível publicação os comentários que teci na forma de carta aberta à doutora Ana de Brito, pessoa real que na verdade me merece a mais alta consideração pelo seu prestígio científico e que tive o prazer de conhecer, embora só fugazmente.

Quanto a mim, sou professor catedrático na City University of New York; a minha especialidade científica é a matemática e não a biologia mas os mundos de uma e de outra não são totalmente distintos. Tenho, porém, mantido estreitos e frequentes contatos com Portugal. Este ano, por exemplo, encontro-me a passar uma licença sabática no departamento de matemática da Universidade de Coimbra. Esta visita levou-me realmente a confirmar as minhas suspeitas de que Portugal não é já exatamente aquilo que se retrata no número dedicado à doutora Ana de Brito; e por isso me decidi a enviar-lhe o meu comentário.

Cumprimentos do

J. M. S. Simões-Pereira

[Nota: Ana de Brito não era o verdadeiro nome da entrevistada!]
CARTA ABERTA À DOUTORA ANA DE BRITO(*)

Senhora Doutora Ana de Brito:

A maioria daqueles que, como nós os dois, nasceram há quatro décadas em Portugal, sabem que não é preciso haver arranha-céus para haver janelas de onde se vê o horizonte. Basta haver colinas; e a sua Lisboa, como a minha Coimbra, têm colinas e não tinham então arranha-céus.

Havia uma varanda na casa onde eu morava de onde todo o ano se via o pôr-do-sol e, embora eu nunca tenha escrito poesias, ali sentia, por vezes, o que os poetas sentirão. O que lhe vou contar, vivi-o nessa varanda.

Tinha eu uns catorze anos e foi num entardecer na primavera. É um tempo do ano em que há, em Portugal, muitas andorinhas e àquela hora o seu voar é muito alegre, rápido, nervoso, quase louco. Nessa tarde, sem que elas a vissem, voando mais alto de que todas, serena, calma, batendo as asas só de vez em quando, surgiu uma ave de grande envergadura que se dirigia para o ocidente. Fiquei a olhar aquela ave solitária, determinada no caminho a seguir, forte, imperturbável, voando em direção ao sol poente. Surpreendeu-me que ela não pousasse; até a ver como um ponto minúsculo na distância, prosseguiu segura, altiva, corajosa.

Seria por ter visto uma ave assim que Richard Bach criou o John Livingston Seagull? Talvez. Richard Bach acreditou que em cada um de nós habita um John Livingston Seagull. Eu não. Por isso, para mim, aquela ave invulgar tornou-se um símbolo. Não de todos nós, mas apenas de alguns. Apenas daqueles que então, em Portugal, embora frequentes vezes conversassem, não passavam todas as noites a fazê-lo. Apenas daqueles que, isoladamente, sem mesmo terem tido o estímulo de verem o estrangeiro, num mundo que os não apoiava, sem estruturas, sem recompensas, sem equipas, sem a admiração da maioria ou de minorias, escolhiam um destino para a sua vida e partiam em direção a ele, inabaláveis. Um destino escolhido por serem sonhadores, por crerem que existe alguma coisa mais que a mediocridade e que alcançá-lo vale o preço do esforço e do sacrifício.


De entre estes portugueses de quem falo, tenho, e tinha já, visto vários triunfar. Em tudo. Até na natação. Onde a imagem de um Joaquim Baptista Pereira, entrevistado depois de vencer a travessia do Canal da Mancha no seu ano, foi uma das maiores lições da minha infância: apontava ao jornalista o local do Tejo onde se treinara e dizia-lhe com simplicidade “olhe, foi ali, sozinho, que passei muitas horas a nadar e a sonhar”. Exemplo de um Português vivendo em Portugal que, no desporto do seu afilhado, tinha talento e foi um campeão.

Caso único? Não, já nesse tempo os havia, homens e mulheres, no desporto, no espetáculo, na matemática, na música, na medicina… Gigantes. Porque se fizeram a si próprios, porque não tiveram a seu lado, a fazê-los crescer, a ajudá-los a vencer o desânimo, a educá-los na liberdade ou na disciplina, um treinador, um promotor, um supervisor… Gigantes porque ousaram ombrear com aqueles que, tendo nascido noutros países, não precisaram de se fazer, pois tiveram o apoio dedicado, permanente, muitas vezes quase exclusivo e privado, de treinadores, promotores, supervisores… Gigantes que nos merecem, pelo menos, o respeito de não ignorarmos que os houve.

A imagem que cada um de nós tem de Portugal é evidentemente subjetiva: a sua como a minha. E também é subjetiva a imagem que temos de outros países. Em todo o mundo, porém, há coisas que mudam e coisas que permanecem porque também em todo o mundo as mensagens da verdade atravessam fronteiras, por mais cerradas que elas sejam, e encontram sempre quem esteja preparado para as receber.

Eu compreendi quando ainda era muito jovem – e confesso sentir orgulho nisso – que depois da minha geração viria outra ainda melhor que a minha. E compreendi também que cada geração deve muito àquelas que a precederam. Hoje, os jovens de Portugal que quiserem voar a grande altitude e para isso tiverem força já encontram, com uma facilidade que nós não tivemos, quem os treine, promova, supervisione. Por isso a nova geração portuguesa já é mais que um punhado de heróis isolados.

Ainda estará viva em Portugal a tradição dos “guerreiros que não trabalham”? Eu penso que não, felizmente. Ainda existirá em Portugal o prazer de “passar uma noite na conversa”? Eu penso que sim, felizmente. Felizmente porque – para quem gostar, claro! – conversar não é só perder tempo, como o não é jogar o golfe, correr mini-maratonas, ver basebol ou ver televisão. Prazer português, prazeres americanos. Conversar espelha e é a capacidade portuguesa de ser humano, coexiste com a tendência para formar amizades que não nascem à força de artifícios, que não se nutrem no uso sem significado do primeiro nome ou do tu instantes depois de um “how do you do?” ou de um “hi!”, mas que também não se destroem sem causa, nem, muito menos, se esquecem.


Concordo que Portugal é ainda, em certas áreas, que não a Ciência nem o Desporto, um país onde muitas pequenas aves se sentem felizes porque lhes é possível ignorar a existência das grandes; mas é também um país que tem sempre tido águias solitárias, voando de olhos postos na distância, subindo mais alto para ver para além do horizonte… A vida deu-me o privilégio de testemunhar que muitas de entre elas, não obstante conhecerem bem aquilo a que chama a sua “solidária solidão”, gostam de conversar. Afinal conversar, tal como fazer poesia, também é criar…

Luso-americanamente seu

J. M. S. Simões-Pereira



(*) O professor Onésimo T. Almeida, apesar do seu espírito aberto à discussão e ao contraditório, entendeu não publicar na revista Gávea Brown, da qual era diretor, esta minha carta. Para que tudo fique esclarecido, Ana de Brito era um falso nome da conhecida investigadora em Biomedicina Maria de Sousa, também amante da poesia, Prémio Universidade de Coimbra 2011, sobre quem June Goodfield tinha escrito um livro intitulado “An Imagined World: A Story of Scientific Discovery”, que visava focar, usando o seu caso, o que é a atividade de investigação científica. Nessa história, à protagonista, que era na vida real a Maria de Sousa, a escritora chamava Ana de Brito.



4 comentários:

Anónimo disse...

Caro J. M. S. Simões Pereira,

Só um breve esclarecimento pontual. Não se tratou de eu entender não publicar a sua carta. Tratava-se (e trata-se) de uma política editorial da revista, que nesse aspecto segue o modelo da vasta maioria das revistas do género que conheço, que não têm secção de Cartas ao Director.

Saudações cordiais do

onésimo

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

Meu caro Onésimo: Está claro no meu texto que não estou a queixar-me de si mas sim da Doutora Maria de Sousa... que mesmo naquela época foi um nadinha injusta contra os nossos compatriotas... Um abraço José (Simões-Pereira)
P.S. O comentário anterior foi removido por mim pois o nome Maria de Sousa saiu trocado.

Ariel disse...

Eu gosto dos animais e eu acho que os homens tem que proteger todos os animais, e não apenas aqueles que são animais em extinção, edu compro para meus cães eu Total Alimentos, pois é o melhor alimento para eles.