MÁRIO GUERRA, UM REITOR DO ESTADO NOVO
sorridente, como nunca o vi!
Já referi, neste blogue, no artigo “Carreira de um
Carreirista”, o drama dos que se consideram a si próprios de tal modo falhados que
essa frustração os leva a interpretar qualquer sorriso cordial que alguém lhes
dirija como um sorriso de troça.
O caso que referi no citado artigo vivi-o como adulto
jovem, mas aqui vou recordar um outro que vivi quando teria uns dez anos. Eu
frequentava então o Liceu Normal D. João III, em Coimbra, hoje rebaptizado como
Escola Secundária José Falcão. Estávamos em pleno Estado Novo, no ano letivo
1951/52. Era reitor desse liceu um cavalheiro chamado Mário Guerra. O cargo de
reitor dispensava-o de dar aulas pelo que não tinha quase nenhum contato com os
alunos. Era um homem que diziam nunca ter sido casado, que nunca ninguém tinha
visto sorrir, que os miúdos mais velhos odiavam e gozavam por usar camisas que
não pareciam muito bem lavadas (mas eu nunca reparei nisto!): aliás, por este
motivo, deram-lhe uma alcunha pouco lisonjeadora. Chamavam-lhe “O Côdeas”.
Lembro-me de ver este homem, percorrendo lentamente os
corredores do liceu, à procura de alguma criança que a seus olhos merecesse
punição! Quando ele era avistado, fazia-se um silêncio sepulcral e todos
procuravam encostar-se às paredes e aí ficavam imóveis, petrificados! Ninguém,
obviamente, sequer o cumprimentava… e com razão, vim eu a aprender!
A mim, que só fiz dez anos no mês de dezembro desse meu
primeiro ano letivo, haviam dito que devíamos respeitar todos os professores e
também obviamente o senhor reitor; e eu já tinha interiorizado que os meninos
bem comportados devem cumprimentar os adultos! Por esse motivo, naquele dia
fatídico em que vi pela primeira vez o senhor reitor a avançar lentamente pelo
estreito corredor onde eu me encontrava, mal ele olhou para mim baixei a cabeça
para o cumprimentar e… sorri. Garanto que foi um sorriso o mais ingénuo
possível… mas o falhado do sujeito tomou-o como riso de troça, perguntou-me com
a sua voz rouca “- Porque é que te estás aí a rir?”
e, sem esperar resposta que eu também não teria, deu-me um valentíssimo puxão
de orelhas…
Mário Guerra ficou assim na minha memória como um homem
que era um zero em Psicologia e que de Pedagogia nada entendia. Até das
crianças tinha medo! Medo que o troçassem, é claro, pois embora fosse de
compleição física fraca, nunca, naquela época, aluno algum agrediria jamais um
professor.







