Eu tinha uns 22 anos e ele tinha uns 33. Ele ia
doutorar-se e eu estava no meu primeiro emprego, num centro de cálculo, mas com
gosto por acompanhar as atividades académicas. Por isso já tinha assistido a
provas de doutoramento e fui assistir às dele.
Fiquei muito positivamente impressionado. O diálogo
travado entre ele e os membros do júri teve uma elevação que eu não tinha ouvido
nos doutoramentos a que anteriormente já tinha assistido. Foi um diálogo sério,
sobre pontos significativos da tese do candidato; pareceu-me que foi uma
conversa verdadeiramente científica.
Por isso, tendo ficado entusiasmado com o nível do que
tinha visto, felicitei sinceramente o candidato no fim das provas: disse-lhe
claramente que, na minha opinião, a conversa dele com o júri tinha sido de
verdadeiros cientistas.
Espantoso é o que vim a saber mais tarde: o candidato
interpretou o meu comentário como estando a fazer troça dele! Ele não
acreditava em si próprio! Por isso reagiu assim… e embora eu, na verdade, tenha
gostado da maneira como se comportou nas provas, ele, realmente, nunca veio a ser
um cientista brilhante: nunca publicou livros didáticos, só umas notas de curso;
e trabalhos de investigação seus, nunca apareceram em revistas internacionais e
mesmo nas caseiras, além das dissertações requeridas pela carreira académica
(doutoramento e concurso para professor extraordinário), só escreveu algumas
poucas páginas.
Enfim, não esconderei que senti sempre a antipatia dele
por mim, no seguimento das nossas vidas profissionais. Ele cultivou todavia habilmente uma imagem pública que o
projetou como se ele fosse um académico de grande envergadura!!
Assim como os gatinhos negros do destino,
é com admiração e regozijo que observamos
tanto as grandes como as pequenas estrelas!



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