“A SUA CALMA, CALOIRO, É QUE ME LIXA!”
O gatinho é calmo e confiante no seu saber|
Li, a 1 de agosto de 2016, no Diário de Notícias, e depois dessa data em
vários jornais, que o membro do governo responsável pelas universidades e
ensino superior quer guerra a comissões de praxes. E quem diz comissões, talvez
queira dizer simplesmente praxes. Estas notícias fizeram-me ir buscar à minha
estante um pequeno livro publicado em Lisboa, em 1958, da autoria de Flávio
Vara, intitulado O Espantalho da “Praxe”
Coimbrã. Nele se analisa, se ataca e cabalmente se desmonta o fenómeno das
praxes académicas de Coimbra.
De facto, não se falava de bullying
nos anos 60 do século XX. Mas ele existia! Em Portugal, a praxe académica,
então um exclusivo da estudantada coimbrã, era o supra-sumo do ataque dos mais
velhos aos seus colegas mais novos, os alunos do 1.º ano, aqui vulgarmente
chamados caloiros.
Insistamos que esta praxe académica, ao tempo, só se praticava em Coimbra.
Aliás em Lisboa dizia-se, com alguma sobranceria, “isso da praxe é um sintoma
de provincianismo, de cidade pequena. Aqui recebemos os primeiranistas com
festas, para os ambientar num clima de camaradagem!” Nem a palavra caloiro se
admitia na capital. A que altura se encontravam realmente os jovens lisboetas,
antes dos seus concitadinos das universidades privadas descerem aos baixos
níveis da praia do Meco?…
O título deste cartaz é uma citação nascida num momento de bullying praxístico que eu próprio sofri
quando aluno do 1.º ano. Um veterano
ou, como também se dizia, um doutor da
praxe, abordou-me na rua e começou a praxar-me. Já não me lembro como ele
me atacou, o que ele me disse, o que queria que eu fizesse. Mas a lentidão com
que reagi, com voz arrastada, sem mostrar qualquer emoção, qualquer medo,
qualquer indignação, levou-o a desistir dos seus ataques, levou-o a retirar-se
sem honra nem proveito, reconhecendo mesmo a sua derrota. Despediu-se de mim,
atirando-me apenas aquele cumprimento:
- “A sua calma, caloiro, é que me lixa!”
Sugiro pois a todos aqueles que não queiram ser imbecilizados por artistas
do bullying, que cultivem a
capacidade de se manterem sempre terrível (para não dizer sadicamente) calmos!


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