domingo, 6 de novembro de 2016

RECORDAÇÕES DE COIMBRA:


“A SUA CALMA, CALOIRO, É QUE ME LIXA!”

O gatinho é calmo e confiante no seu saber|

Li, a 1 de agosto de 2016, no Diário de Notícias, e depois dessa data em vários jornais, que o membro do governo responsável pelas universidades e ensino superior quer guerra a comissões de praxes. E quem diz comissões, talvez queira dizer simplesmente praxes. Estas notícias fizeram-me ir buscar à minha estante um pequeno livro publicado em Lisboa, em 1958, da autoria de Flávio Vara, intitulado O Espantalho da “Praxe” Coimbrã. Nele se analisa, se ataca e cabalmente se desmonta o fenómeno das praxes académicas de Coimbra.

De facto, não se falava de bullying nos anos 60 do século XX. Mas ele existia! Em Portugal, a praxe académica, então um exclusivo da estudantada coimbrã, era o supra-sumo do ataque dos mais velhos aos seus colegas mais novos, os alunos do 1.º ano, aqui vulgarmente chamados caloiros.

Insistamos que esta praxe académica, ao tempo, só se praticava em Coimbra. Aliás em Lisboa dizia-se, com alguma sobranceria, “isso da praxe é um sintoma de provincianismo, de cidade pequena. Aqui recebemos os primeiranistas com festas, para os ambientar num clima de camaradagem!” Nem a palavra caloiro se admitia na capital. A que altura se encontravam realmente os jovens lisboetas, antes dos seus concitadinos das universidades privadas descerem aos baixos níveis da praia do Meco?…

O título deste cartaz é uma citação nascida num momento de bullying praxístico que eu próprio sofri quando aluno do 1.º ano. Um veterano ou, como também se dizia, um doutor da praxe, abordou-me na rua e começou a praxar-me. Já não me lembro como ele me atacou, o que ele me disse, o que queria que eu fizesse. Mas a lentidão com que reagi, com voz arrastada, sem mostrar qualquer emoção, qualquer medo, qualquer indignação, levou-o a desistir dos seus ataques, levou-o a retirar-se sem honra nem proveito, reconhecendo mesmo a sua derrota. Despediu-se de mim, atirando-me apenas aquele cumprimento:

 - “A sua calma, caloiro, é que me lixa!”


Sugiro pois a todos aqueles que não queiram ser imbecilizados por artistas do bullying, que cultivem a capacidade de se manterem sempre terrível (para não dizer sadicamente) calmos!

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