terça-feira, 14 de novembro de 2017

AO MEU TIO-AVÔ

José Correia de Lemos
e a sua foto de 1928


Foi um querido tio-avô, casado com a Conceição Mendes Correia de Lemos, uma irmã da minha avó materna, de quem já falei neste blogue.

Guardo destes meus tios as mais ternas recordações. Há poucos dias, estive em Travanca de Lagos (concelho de Oliveira do Hospital) e vi as ruínas da casa que foi deles: nela veio a funcionar um lar de idosos da Fundação Sara Beirão que encerrou para fazerem obras na casa; há poucos dias, ela ardeu e dela agora só restam as paredes. Impressionante! 
E o curioso é que, no dia seguinte, encontrei num monte abandonado de fotografias, uma, aliás rasgada ao meio, mas reconstituível, do meu tio José Correia de Lemos. 
Foi oferecida à sobrinha dele e minha mãe, a quem a família chamava Bita, com a seguinte dedicatória: 
“À Bita, com muita amizade do tio José Correia de Lemos. Travanca 8-8-1928”
Por baixo uma nota onde escreve “Bordo “Monte Olívia” em Janeiro 1928”, obviamente a data em que a fotografia foi tirada, a bordo do navio que o transportaria do Brasil para Portugal. A data 8-8-1928 foi a do dia em que ofereceu a foto; a minha mãe tinha feito 18 anos umas semanas antes, mais precisamente a 15 de julho de 1928.

                           
                Navio Monte Olivia: ver em: http://www.novomilenio.inf.br/rossini/molivia.htm

Tive a curiosidade de ir à Internet procurar o nome do transatlântico em que ele viajou: ele foi emigrante no Brasil, num tempo em que os portugueses iam ao Brasil enriquecer! 
Encontrei a informação que tal barco foi usado entre 1924 e 1945 e fazia a carreira Hamburgo – Lisboa -  Rio de Janeiro – Santos, na melhor das hipóteses, provavelmente uma vez por mês. 

O meu tio aparece sentado, com ar de homem ainda jovem, ou talvez já de 40 anos, calças e casaco de cor clara, camisa branca, sem gravata, mas com lacinho, moda aristocrática daquele tempo. 

Faltavam décadas até haver carreiras aéreas diárias cruzando o Atlântico numa rotina que se tornou banal.

Ainda conheci este tio, quando, já de certa idade, veio a acabar os seus dias em Travanca, ao lado da sua esposa. Gostei dele. 
Viveu ainda bastantes anos, embora com doenças que o debilitaram, como tromboses, problemas de rins, de circulação e de coração: aliás o meu pai, entre outros médicos, também o foi tratando.

Presto-lhe aqui uma homenagem de amizade e saudade. E ao vê-lo viajando a bordo de um navio, não me posso impedir de meditar no que pensarão, daqui a noventa anos, os que virem fotos nossas tiradas agora…
 Coimbra, 2017-11-09

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