domingo, 25 de fevereiro de 2018

AO MEU AVÔ MATERNO




AO MEU AVÔ MATERNO, Dr. MANUEL DOS SANTOS MADEIRA

Não sei porquê, mas há momentos lembrei-me de ti, Avô! Eras um homem culto, dono de uma biblioteca notável, bacharel em Direito e em Farmácia, mas até tratados de Matemática tu tinhas nas tuas estantes: um deles veio parar às minha mãos, é um volume, com mais de 500 páginas, do curso de Análise Infinitesimal da autoria do notável matemático F. Gomes Teixeira, sexto volume das obras completas deste autor, publicado em 1912 pela imprensa da Universidade de Coimbra, por ordem do Governo Português! Tu, Avô, foste antigo estudante desta universidade, a única portuguesa quando eras jovem, e muito ativo na vida política dos universitários de então: o teu nome aparece na lista dos estudantes, os chamados Intransigentes, que atuaram numa intervenção um pouco revolucionária do princípio do Século XX. Sei isto porque o li no livro de Alberto Xavier, História da greve académica de 1907, Coimbra Editora, 1962 (Ver página 280).

Lembrei-me também especialmente do que deves ter sofrido porque tanta gente antipatizava contigo, a meu ver, hoje, sem qualquer fundamento.

Foste casado com a minha Avó Carolina e ficaste viúvo porque ela faleceu relativamente jovem. Parece que na família acharam que tu não sofreste com a falta dela. Seria assim?

A minha querida tia Conceição, que eu tenho recordado com muita simpatia, tua cunhada, era uma das pessoas que não falava contigo. E até a empregada (ou criada, como então se dizia), também chamada Conceição, que vos serviu durante anos e anos e veio depois a ficar servindo os meus pais, até ela tinha por ti uma certa antipatia. Foi visitar-te quando tu, já nos oitenta e muitos, estavas gravemente doente, a caminho do teu fim. Parece que lhe terás dito qualquer coisa como: - “Obrigado pela visita, Conceição, já vieste tarde!”

Eu tinha 11 anos quando tu faleceste, e só então vim a perceber o motivo destas antipatias. Espantoso, dir-se-á, mas parece que tu, como responsável por uma instituição de assistência, terás entusiasmado a frequentar a escola duas jovens entradas na instituição em quem notaste certa capacidade para aprender; e isso, num país que então teria mais de 85 por cento de analfabetos felizes, levantou suspeitas de que tu as querias seduzir como amantes! E se fossem dois rapazes, diriam que tu eras homossexual?

Sabes, querido Avô, eu hoje compreendo que se sofre quando todos nos hostilizam sem nós percebermos que mal lhes fizemos. Penso que era o teu caso. Mas afinal, tu tinhas sensibilidade para o que os outros sentiam. Repara que eu era muito miúdo, o meu pai estava doente e tu vieste visitá-lo. Foi na nossa quinta de Ceira. Era Natal. Alguém mencionou o facto de todas as crianças pedirem prendinhas ao Menino Jesus (ainda não estava na moda o Pai Natal), subentendendo-se que, por certo, eu também as pedia, totalmente despreocupado com a doença do meu pai. E nessa altura, ouvi-te dizer: - “A prenda que ele mais deseja é por certo ver o pai com saúde.” E era, eu já tinha rezado muito, pedindo a Deus que a minha prenda fosse essa mesmo. Nunca esse momento me esqueceu, um momento em que um homem de oitenta anos se apercebe, sem que alguém lho diga, dos desejos de um neto com cinco ou seis.

Obrigado, querido Avô, não te agradeci na altura e hoje já não me podes ouvir. Mas estás no meu coração!
Escrito em Newark, Delaware, 4 de julho de 2017

Publicado em Coimbra