AO MEU AVÔ MATERNO, Dr. MANUEL DOS SANTOS MADEIRA
Não sei porquê, mas há momentos lembrei-me de ti, Avô! Eras um homem culto,
dono de uma biblioteca notável, bacharel em Direito e em Farmácia, mas até
tratados de Matemática tu tinhas nas tuas estantes: um deles veio parar às
minha mãos, é um volume, com mais de 500 páginas, do curso de Análise
Infinitesimal da autoria do notável matemático F. Gomes Teixeira, sexto volume
das obras completas deste autor, publicado em 1912 pela imprensa da
Universidade de Coimbra, por ordem do Governo Português! Tu, Avô, foste antigo
estudante desta universidade, a única portuguesa quando eras jovem, e muito
ativo na vida política dos universitários de então: o teu nome aparece na lista
dos estudantes, os chamados Intransigentes,
que atuaram numa intervenção um pouco revolucionária do princípio do Século XX.
Sei isto porque o li no livro de Alberto Xavier, História da greve académica de 1907, Coimbra Editora, 1962 (Ver
página 280).
Lembrei-me também especialmente do que deves ter sofrido porque tanta gente
antipatizava contigo, a meu ver, hoje, sem qualquer fundamento.
Foste casado com a minha Avó Carolina e ficaste viúvo porque ela faleceu
relativamente jovem. Parece que na família acharam que tu não sofreste com a
falta dela. Seria assim?
A minha querida tia Conceição, que eu tenho recordado com muita simpatia,
tua cunhada, era uma das pessoas que não falava contigo. E até a empregada (ou
criada, como então se dizia), também chamada Conceição, que vos serviu durante
anos e anos e veio depois a ficar servindo os meus pais, até ela tinha por ti
uma certa antipatia. Foi visitar-te quando tu, já nos oitenta e muitos, estavas
gravemente doente, a caminho do teu fim. Parece que lhe terás dito qualquer
coisa como: - “Obrigado pela visita, Conceição, já vieste tarde!”
Eu tinha 11 anos quando tu faleceste, e só então vim a perceber o motivo
destas antipatias. Espantoso, dir-se-á, mas parece que tu, como responsável por
uma instituição de assistência, terás entusiasmado a frequentar a escola duas
jovens entradas na instituição em quem notaste certa capacidade para aprender;
e isso, num país que então teria mais de 85 por cento de analfabetos felizes,
levantou suspeitas de que tu as querias seduzir como amantes! E se fossem dois
rapazes, diriam que tu eras homossexual?
Sabes, querido Avô, eu hoje compreendo que se sofre quando todos nos hostilizam
sem nós percebermos que mal lhes fizemos. Penso que era o teu caso. Mas afinal,
tu tinhas sensibilidade para o que os outros sentiam. Repara que eu era muito
miúdo, o meu pai estava doente e tu vieste visitá-lo. Foi na nossa quinta de
Ceira. Era Natal. Alguém mencionou o facto de todas as crianças pedirem
prendinhas ao Menino Jesus (ainda não estava na moda o Pai Natal),
subentendendo-se que, por certo, eu também as pedia, totalmente despreocupado
com a doença do meu pai. E nessa altura, ouvi-te dizer: - “A prenda que ele mais deseja é por certo ver o
pai com saúde.” E era, eu já tinha rezado muito, pedindo a Deus que a minha
prenda fosse essa mesmo. Nunca esse momento me esqueceu, um momento em que um
homem de oitenta anos se apercebe, sem que alguém lho diga, dos desejos de um
neto com cinco ou seis.
Obrigado, querido Avô, não te agradeci na altura e hoje já não me podes
ouvir. Mas estás no meu coração!
Escrito em Newark, Delaware, 4 de julho de 2017
Publicado em Coimbra


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