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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Boas vindas aos meus alunos

Só algumas poucas palavras para dar as boas vindas aos meus alunos de Física e Engenharia Física, inscritos nas aulas de Álgebra Linear e Geometria Analítica.

Desejo que o semestre vos agrade nesta e nas outras disciplinas do vosso curso e que esta nova experiência vos ajude a crescer: a universidade é diferente da escola secundária; se isto ainda não for óbvio para vós então alguém falhou: ou nós vos infantilizamos ou vós ainda continuais a reagir infantilmente...

E se em algum momento vos sentirdes deprimidos, recordai-vos do conselho de Philander Johnson que, com uma grande dose de humor negro, costumava dizer: ''Cheer up! The worst is yet to come!''... o que em tradução livre dará ''Animem-se, animem-se!... Porque o pior ainda está para vir!''

domingo, 20 de março de 2011

AUTÓGRAFOS


SOU ESTE?
OU ESTA?


Nem esta!

AUTÓGRAFOS FORA DO MUNDO DAS CELEBRIDADES...
DO FUTEBOL E DA TELEVISÃO

Fora desses mundos também há os escritores, principalmente os poetas. Mas será que só os poetas dão autógrafos?

Pois a verdade é que pedir autógrafos a autores de livros técnicos entrou na moda.

Pelo menos, os meus alunos na Universidade de Coimbra têm-me pedido para autografar o meu livro MATEMÁTICA DISCRETA:TÓPICOS DE COMBINATÓRIA.

Fico sensibilizado!

Desejo que leiam o resto do livro com a mesma atenção que as palavras que lhes deixo autografadas na primeira página.

Boa sorte


Obrigado, meninos e meninas!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

20 VALORES? 200 DÉCIMOS?

NOTAS DE EXAME: DE 0 A 20, DE 0 A 200?

Um vestígio de tempos passados que a escola portuguesa (universidade incluída) teima em conservar: a escala dos 20 valores para classificar os alunos. De 20 e até de 200... pois não é verdade que entrar ou não em Medicina pode depender de um décimo de valor no final do ensino secundário? Conheci quem entrou com 187 décimos e quem não entrou pois teve apenas 186… Paranóico!

Ora décadas atrás, nos longos anos em que ensinei nos EUA e nos menos longos em que estagiei na Alemanha, já os estudantes destes países - ditos desenvolvidos - eram classificados em 4 níveis apenas: muito bom, bom, suficiente e mau. Por vezes distinguia-se um nível de excelente.

E mesmo em Portugal, sem ser no ensino, quem é que, como avaliador da qualidade ou desempenho, usa escalas de 0 a 20?

A começar pelos docentes de escolas e de universidades que agora também são avaliados em 4 ou 5 níveis distintos.

De facto, a sociedade civil é assim que julga. Acaso há hotéis de 20, 19, 18… estrelas? Quantos níveis usa o Guia Michelin dos restaurantes?

Apelo à substituição da velha escala. Tenho encontrado alunos excepcionais, muito bons, bons e satisfatórios; e, claro, outros que não satisfazem. Ter de distinguir um 18 de um 19, um 14 de um 15, um 11 de um 12… é um claro exemplo de perda de tempo e da tão falada falta de produtividade portuguesa!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

TRATADOS, LIVROS, SEBENTAS, FOLHINHAS

SEBENTAS?

A velha tradição académica coimbrã cunhou a palavra “Sebenta”. Eram folhas de apontamentos, dactilografadas, muitas vezes brochadas a imitar um livro, que procuravam reproduzir o que um professor dava nas aulas. Num tempo em que não havia fotocopiadoras para piratear edições, as sebentas sempre saíam mais baratas que as alternativas então usadas: os chamados “Tratados” – “les Traités”, quase todos de autores franceses, que eram verdadeiras enciclopédias sobre as áreas científicas que cobriam e que incluíam, quase sempre, resultados originais dos seus autores.

Entretanto o enciclopedismo morreu e agora já não há tratados; o que há são “Monografias”. Os maiores cientistas, os grandes sábios, já não escrevem tratados mas sim, em vez deles, monografias, em cada uma das quais se ocupam – com profundidade e cuidado, não o neguemos! – de um e apenas um tópico pelo qual se interessam ou interessaram.

Quanto à palavra “sebenta”, caiu em desuso. Foi substituída pela expressão, mais aristocrática, “texto de apoio”. E passou a ser frequente ser o próprio professor a redigi-lo e a afixá-lo na Internet.

Só que, por cada asneira que nos escapa quando revemos o texto de um livro a publicar em suporte de papel, há vinte que nos escapam – sem a mínima dor de consciência – quando revemos umas folhas de apoio que vamos disponibilizar na Internet. E porquê?

Porque no papel a asneira fica lá, a testemunhar a nossa incúria… ou falta de sabedoria. Na Internet apaga-se com um clique e, “não se encontrando o cadáver, é mais difícil provar que houve crime!”

Por tudo isto dou razão a um amigo que compara a sebenta – ou os textos de apoio – a um barquinho salva-vidas; e um livro – digno desse nome! – a um luxuoso navio de cruzeiro ou pelo menos a um iate privado de um qualquer multibilionário.

Porque o mercado em Portugal é pequeno e ser ou não “digno desse nome” é um qualificativo difícil de atribuir, sem contestação, a qualquer livro técnico, poucos se aventuram ao trabalho de escrever um. Até porque a escrita de uma obra dessas, que noutras épocas era a consagração de um mestre, hoje pouco pesa na avaliação da qualidade do desempenho da carreira docente universitária. Contam mais os artigos de investigação, mesmo os de poucas páginas – que sem dúvida merecem apreço, pois é com eles que a Ciência avança!

Em todo o caso não se justifica a escandalosa desvalorização do tratado que tem, a meu ver, uma dupla explicação: em primeiro lugar, para quê existirem se ninguém tem coragem de os ler? Em segundo lugar é melhor não falar neles para não termos de assumir a nossa incapacidade de os escrever!

terça-feira, 20 de julho de 2010

POBRES PROFESSORES DOUTORES!

Pobres professores do ensino superior!

Somos indiscutivelmente os trabalhadores mais mal pagos na relação salário dificuldade da carreira! E continuamos, masoquisticamente, dispostos a sacrifícios inúteis, improdutivos, ridículos.

Este cartaz nasceu por uma mensagem que, hoje, 20 de julho de 2010, acabo de receber de um colega por quem aliás tenho o maior respeito e a mais sincera admiração dado o seu curriculum científico e pedagógico. Mas a mensagem é a convocar-me para uma reunião a 3 de setembro - pasme-se! - para discutir a melhor maneira de apaparicarmos a caloirada que vai entrar na universidade no próximo ano!

Bom, não faço mais comentários! Vou transcrever a minha resposta ao colega:

++++++++++

Oh meu caro e prezado Colega:

Vamos ver se lhe consigo fazer chegar esta mensagem sem o magoar. Nós
portugueses, para nosso mal, somos uns vidrinhos, ofendemo-nos com um
mosquito, e eu, que vivi em 3 países ditos desenvolvidos, já me apercebi
que esta nossa hipersensibilidade é uma das razões pelas quais ninguém se
manifesta, ninguém dialoga, ninguém faz sugestões... e, portanto, nunca
passamos da cepa torta...

Vem isto a propósito da sua convocatória para uma reunião a 3 de setembro.
Como estou a trabalhar no duro e não vou fazer férias, por mim até podia
marcar a reunião para 15 de agosto, um dia que é feriado e é domingo!

Mas deixe-me fazer-lhe uma observação: há um ano, creio que também foi sua
a marcação de uma reunião qualquer para os primeiros dias de setembro, com
convocatória em julho; este ano a sua ‘’reincidência’’ leva-me a uma
pergunta: o que move o seu super zelo? Ainda não começaram as férias que,
na nossa profissão, ao contrário de todas as outras, nem podem ser
escolhidas por nós, e já está a lembrar-nos que temos de servir a Pátria,
''com coragem e valor'' logo a seguir a elas...

Olhe, estimado Colega por quem tenho a máxima consideração apesar de
discordar desta sua pressa: não ignore - eu sei que quem vive só na
Academia ignora muitas vezes o Mundo real, aquele que existe para além da
sala de aulas e das bibliotecas, em papel ou virtuais - não ignore que
nós, professores do ensino superior, estamos a ser profundamente
injustiçados e mal tratados
. Há aspetos que têm melhorado - isso é
indiscutível! São coisas que melhoraram com o nosso esforço e a nossa
iniciativa, o nosso voluntariado, em suma. Produzimos e organizamos mais a
nível científico e didático, trazemos mais prestígio para as nossas
instituições. Mas há outros aspetos em que estamos a andar para trás. Hoje
somos trabalhadores mal pagos. Não duvido: os mais mal pagos em relação às
dificuldades da carreira!
Compare com o que lhe cobra qualquer trabalhador
ou pequena empresa por reparar um cano, uma torneira ou uma tomada
elétrica, ou por lhe pintar uma parede ou desempenar uma porta! E na nossa
especialidade, Matemática, não temos sequer qualquer hipótese de obter
rendimentos extra nem, muito menos, sermos nós a fazer o preço pelo nosso
trabalho.

Ora Bolonha veio trazer, em Coimbra, um aumento enorme de trabalho
improdutivo para nós. Numa época, em que todos falam de produtividade! Por
exemplo: esta história da avaliação contínua. Já verifiquei que, na
Clássica de Lisboa, há gente que continua a fazer avaliação com um simples
exame final. Isto tudo é discutível, é verdade: eu, por exemplo, penso que
haver só um exame final estimula os alunos a aprenderem a ser responsáveis
e a gerir o seu tempo, uma competência mais valiosa para eles que saberem
o teorema de Pitágoras (o seu equivalente em espaços de Hilbert, claro)!
Os minitestezinhos só lhes prolongam a adolescência, para não dizer a
infância; e eu sei isso por experiência própria, pois o aprendi quando
tinha 14 anos e saí da infantilizante escola pública de então para uma
onde havia liberdade; e lá aprendi a saber usá-la e, consequentemente a ser
responsável.

Enfim, se leu até aqui, também já contribuí para delapidar um pouco do seu
tempo que podia ter usado em coisa mais produtiva que a ler o meu
escrito!!!

Um abraço de muita estima e consideração – apesar da discordância! – e
tenha umas boas férias. E no dia 1 de Setembro, quarta-feira, por favor
torne a mandar a convocatória para o dia 3, sexta-feira!

Renovados cumprimentos!

J. M. S. Simões Pereira
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Visite o blogue: ze-manel-polido.blogspot.com

domingo, 13 de junho de 2010

5 Euros por prova corrigida! Mas para mim, ZERO

E PARA MIM... NÂO VAI NADA, NADA, NADA?

Sou, como se pode ver no meu perfil, docente do Ensino Superior. Mas assumo o lugar comum: tenho por todos os que trabalham com competência e honestidade o mesmo respeito independentemente dos graus académicos.

Ora o que hoje, 13 de junho de 2010, acabo de ler na primeira página do Diário de Notícias foi uma enorme surpresa: o Ministério da Educação paga 5 euros a cada docente por prova corrigida dos exames nacionais no Ensino Básico e no Secundário!

Não vou dizer que é imerecido, acalmem-se os colegas destes níveis de ensino! Sei muitíssimo bem que é um trabalho desgastante, demorado, que não entusiasma. Por isso não direi que é errado remunerá-lo. Evidentemente que não!

O que eu digo é que, sendo verdadeira esta notícia, nós, no Ensino Superior, somos vergonhosamente explorados.

Cada um de nós tem de preparar as questões a propor aos alunos - não há nenhum GAVE a fazer-nos esse serviço - temos de as escrever no computador, temos de as imprimir e fotocopiar - não vem a GNR trazê-las à nossa porta - temos de as corrigir, e, pelo menos no meu caso, é tradicional mostrar as provas depois de corrigidas aos alunos que as quiserem ver, enfim é frequente apresentar aos alunos uma possível resolução dos problemas propostos - o que é viável na Matemática, embora não o seja, obviamente, noutras áreas.

E isto acontece uma vez no ano? Não, com a famigerada reforma de Bolonha, os alunos têm direito a avaliação contínua, que envolve além de vários minitestes durante o semestre uma chamada frequência no fim das aulas - que é um exame como outro qualquer - depois um exame chamado da época normal, depois um outro chamado da época de recurso e ainda um quarto exame - de facto este só para alunos em situações especiais - que se chama da época especial. E cada aluno não tem uma só oportunidade, atenção!

Então quanto é que nos pagam por todo este trabalho? Quero dizer, quanto é que me pagam, para falar com todo o rigor pois não estou mandatado por ninguém nem sei de facto o que se passa noutras universidades, noutros departamentos, noutras faculdades?

Pagam-me NADA ou seja, matematicamente falando, ZERO!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

Vou acrescentar mais uma página às muitas que se têm escrito sobre os problemas ou pseudo-problemas das chamadas Ciências da Educação.

A espiral de degradação em que se encontra o ensino pré-universitário afecta toda a sociedade e é sentida e vivenciada em primeira linha por aqueles cuja actividade os envolve nestes problemas.

Tenho para mim que uma das causas desta degradação é a dicotomia que menciono no título: há, nas escolas, profissionais do ensino, mas faltam profissionais que ensinam. Exemplificando com a minha especialidade científica: quem ensina Matemática nos níveis do básico ao secundário, tem de ter, por exigências do próprio sistema e frequentemente a contra-gosto, muito mais em comum com baby-sitters do que com matemáticos profissionais. E isto é tremendamente errado, porque por um lado eterniza a infância dos jovens em vez de os estimular a crescer e, por outro, estiola a capacidade dos docentes para viver - digamos, com generosidade, a metade - do seu campo de acção que será (ou deveria ser) a preparação como matemático, enquanto a outra metade seria a preparação como ensinante. E digo que sou generoso, porque acredito que a preparação como matemático devia tomar mais do que metade do seu esforço e da sua dedicação.

Curioso é que a vantagem do ponto de vista que defendo é tácita embora não abertamente reconhecida pela sociedade. Falando sem tabus: em que se baseia o prestígio da Universidade Católica Portuguesa? Essencialmente – e invoco, também mas não só, a minha própria experiência como aluno pós-graduado que fui desta universidade – no facto de a maioria dos seus docentes serem profissionais que ensinam, quer dizer, pessoas que têm a sua principal actividade fora do campus e ali vão dar aulas como actividade secundária. Transmitem assim aos seus alunos uma experiência de vida que é benéfica para eles, não só em si mesma como também porque lhes faculta desde logo contactos para o acesso ao mercado de trabalho quando receberem os seus diplomas. Disso resulta os seus graduados terem muito menos dificuldades em encontrar um primeiro emprego do que os de outras instituições de não menor qualidade. E o que é válido para esta escola é-o também, em larga medida, para várias faculdades da Universidade Técnica de Lisboa.

Ressalvo, para não me acusarem de ambíguo, um facto: em muitas outras universidades nacionais, a maioria dos que, legal e oficialmente e antes de tudo, são chamados professores, pois nelas trabalham em exclusividade, não se limitam a ensinar: são também profissionais que ensinam pois a sua actividade de investigação, divulgação, organização e serviço à comunidade extra-universitária vai muito para além do simples acompanhar dos seus próprios estudantes.

Relativamente aos docentes do ensino pré-universitário, devem estes, a meu ver, em especial os do secundário, ser estimulados a crescer no conhecimento e manuseamento das áreas da sua docência porque acredito que quem sabe fazer sabe ensinar e por vezes desconfio que têm razão os que ironizam com o provérbio “quem sabe, faz, quem não faz - ou é quem não sabe? - ensina!”

E estes que ensinam mas não fazem, lá se vão escudando no conhecido, gasto e ridículo argumento, tão querido aos gurus da Psicologia e das Ciências da Educação, que, mesmo quem não sabe fazer nada, se for cientista da educação sabe garantidamente ensinar!

Mas ensinar o quê? É a pergunta que nós outros, que não somos gurus nem sequer cientistas da educação, lançamos… para ficarmos sem resposta.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

Permito-me trazer à colação um dos ingentes problemas a que se dedicam os peritos das Ciências ditas da Educação: devemos ou não sujeitar crianças e adolescentes a essa tortura monstruosa que no século dezanove se aplicava nas escolas e que dava (e dá) pelo nome de EXAMES?

Mas claro que não, diz a maioria daqueles preclaros especialistas. Exames para avaliar o que os alunos aprenderam? Mas isso que importa? Vamos submetê-los a umas horas de um enorme stress, capaz de os traumatizar para o resto da vida. Se na vida não há stress, para quê obrigar os jovens a saber o que isso é? E porventura podemos avaliar alguém só por essa simples vertente? Façamos sim avaliação contínua, durante o ano lectivo. Essa ainda pode valer alguma coisa. E há imensas outras competências que não se podem avaliar num exame e são pelo menos tão decisivas para triunfar na vida como os conhecimentos adquiridos sobre qualquer matéria, seja Português, Inglês, Matemática, História, Filosofia...

E sabemos, ou julgamos saber, que os povos verdadeiramente avançados já há muito acabaram com os exames... a Finlândia, por exemplo, ao que por aí consta. É por isso que os jovens finlandeses andam todos felizes e nunca, mas nunca mesmo, fazem disparates nas escolas.

Pois é verdade, este será um primeiro passo para entrarmos na era da avaliação contínua e global. Diz-se, aliás, que as provas e competições desportivas, como os Jogos Olímpicos, por exemplo, são um repugnante vestígio de um passado bárbaro que devia ser a vergonha dos gregos antigos que os inventaram. As medalhas vão passar a ser dadas pela avaliação contínua dos atletas nos treinos durante cada período de quatro anos. Quem tiver melhor avaliação, quem tiver sido mais assíduo aos treinos, tiver obtido melhores tempos no estádio da sua cidade, sem stress, bem apoiado pelos seus amigos, familiares, treinadores e dirigentes, no clima a que está habituado, enfim, com todo o conforto, esse é que ficará com a medalha de ouro; o que tiver uma avaliação um pouco mais baixa, mas ainda assim superior aos outros todos, esse ficará com a medalha de prata. E assim sucessivamente... todos aliás terão medalhas... de bronze, de ferro, de níquel, de cádmio, de papel, de plástico (biodegradável, evidentemente!)...

É de facto traumatizante obrigar os atletas a mostrar as suas capacidades longe da sua amada pátria, num ambiente de concorrência com outros que eles nem sequer conhecem, que falam outras línguas, que têm outros hábitos. E, drama dos dramas, pôr em risco quatro anos de treinos numa prova que, por exemplo, nos 100 metros, dura hoje menos que 10 segundos... É sem dúvida o cúmulo do absurdo!

E mais, o valor de um desportista não reside só nas suas marcas. Um desportista que corra os 100 metros em 15 segundos pode ter qualidades humanas muito superiores a um que os corra em 10 segundos. Pode, no futuro, quando por força da idade tiver de abandonar a competição e passar a dirigente desportivo ou professor de educação física, mostrar ser mais competente e mais bem sucedido que outro que, na juventude, tenha alcançado melhores marcas. Não pode ser só pela atribuição de um número que se classifica uma pessoa. E um desportista é uma pessoa!

Por tudo isto vamos avançar rapidamente para um novo sistema de avaliação dos atletas em que as provas em estádio sejam completamente eliminadas. Será o fim do stress de que hoje são vítimas todos os que se dedicam à alta competição. Saudemos, pois, o advento desta nova era no mundo do desporto. Introduzamo-la rapidamente.

Parece que a Finlândia o vai fazer já este ano na modalidade de esqui alpino: vão passar a contar o número de descidas que cada um faz por semana, o número de quedas, os dias em que faltaram aos treinos, se ficaram a transpirar ou não depois de cada descida, como se comportou o batimento cardíaco e como variou a taxa da glicémia após cada treino, enfim, será com este acompanhamento contínuo que depois, no período que no futuro substituirá o mês dos exames -- perdão, o mês dos campeonatos -- se atribuirão medalhas e se registarão recordes.

Claro que o sistema também vai ser aplicado no volei, no hoquei, no basquete, no futebol... Não haverá mais campeonatos do modelo actual. No futebol, por exemplo, que tanto encanta os portugueses, não se pode decidir quem é o melhor no curto período de uma hora e meia. Vamos decidir quem será campeão avaliando continuamente os treinos, incluindo os períodos de aquecimento... Os esquemas actuais ficarão na História como exemplos do barbarismo da nossa civilização. Aliás passará a haver também uma avaliação dos treinadores e dos árbitros: quanto aos treinadores, os melhores serão aqueles que souberem motivar a sua equipa a treinar esforçadamente mesmo sabendo que não vai haver, nos jogos em que participarem (jogos amigáveis, claro, que serão os únicos que subsistirão), nem vencedores nem vencidos; e quanto aos árbitros, os melhores serão aqueles que consigam dirigir os referidos jogos sem mostrar cartões vermelhos ou amarelos. Têm de ser capazes de arbitrar tão bem que nenhum jogador pratique qualquer falta sobre outro jogador. Um bom árbitro tem de conseguir, com a sua simples presença, motivar os jogadores a darem o seu melhor com correcção, e, portanto, se mostrar cartões é porque não sabe ser bom árbitro.

O Mundo avança e só os mais empedernidos conservadores é que duvidam destas extraordinárias transformações da sociedade que nos farão a todos sentir à porta (ou será a Leste?) do Paraíso.

Escrito a 2008.07.09, afixado hoje, com uma pequena alteração, 2008.10.02

© Zé Manel Polido

terça-feira, 26 de agosto de 2008

AOS MEUS ALUNOS: UM VALOR A MAIS, UM VALOR A MENOS

Ainda vos afixo aqui mais uma mensagem!

Um de vós, que designarei por X, pediu-me uma correcção da nota lançada pois gostaria (e tem todo o direito a isso) de repetir o exame para a melhorar embora ela já seja muito boa.

Esse pedido me levou a tecer algumas considerações que creio serem úteis para todos vós.

Aí fica pois a resposta que dei ao vosso colega:

+++

Olhe, amigo X, claro que a sua nota foi obtida em avaliação contínua e, tendo havido erro
no lançamento, há-de haver maneira de o corrigir. E, obviamente, estou disposto a
fazê-lo. Claro também que terei gosto em falar pessoalmente consigo. Porque mais
importante talvez que tudo o que eu lhe tenha ensinado de Matemática será o que lhe
poderei dizer nessa conversa sobre a sociedade competitiva em que o nosso país (e o
X não se esqueça que é europeu) se vai transformando.

Porque me faz pena que o X, sem dúvida um jovem inteligente e capaz, em vez de
olhar para o futuro, olhe para passado! Eu, no seu lugar, buscava novos desafios, cada
vez mais exigentes, cada vez mais globais, talvez tentar já um pouco de actividade
profissional relacionada com o seu curso ou até fazer um pouco de investigação; tudo para começar a construir um curriculum à altura da sua
geração que garantidamente não se vai basear no 10, no 15, no 18 ou 19 ou 20 que tiver
em qualquer das dúzias de cadeiras que frequentar na sua formação.

Sabe, X, a última batalha que os jovens portugueses travam com a única arma das
notas é o 12º ano: e é para entrar ou não em Medicina. E até essa batalha já está a parecer
ridícula a muita gente que conhece o Mundo! O Mundo, para além de Portugal, esse
Portugal "de onde se não vê a Europa" para citar, se não estou em erro, Vitorino
Magalhães Godinho. Até porque a escala de 0 a 20 que nós ainda usamos, é uma das
nossas vergonhas nacionais: em quase todo o mundo dito civilizado, traduzidas por números ou por
letras, as notas de aprovação no ensino superior são essencialmente três: muito bom,
bom ou suficiente.

Eu sei dos muitos recém licenciados que se encontram no desemprego. Não creio que seja por causa das notas, de mais um valor ou menos um valor, não creio que se tivessem mais um valor na média já teriam um lugar, ou que se tivessem mais dois valores na média já teriam sido promovidos na empresa ou instituição onde trabalham. Certamente é importante, imprescindível mesmo, que cada um seja competente na respectiva área profissional; mas isso não basta. É preciso ter um nível de ambição consigo próprio que o leve sempre a olhar mais para o futuro do que para o passado; ter uma visão global que dê o devido valor às diversas vertentes que fazem de um activo um agente de progresso e que incluem, a par de variados valores humanos, a capacidade de perspectivar o seu próprio passado, sim, mas só para atacar o futuro, tudo aspectos de que antigamente nunca se falava durante a vida escolar. Deixá-los hoje em silêncio é atitude que revela vestígios de um passado em que se saía da universidade a saber tudo o que havia para saber, com a consciência tranquila de quem não vai precisar de aprender mais nada no resto da sua vida.

Jovens amigos, pensem nisto!


 

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