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quarta-feira, 4 de junho de 2014

REITOR MÁRIO GUERRA.



MÁRIO GUERRA, UM REITOR DO ESTADO NOVO

 sorridente, como nunca o vi!



Já referi, neste blogue, no artigo “Carreira de um Carreirista”, o drama dos que se consideram a si próprios de tal modo falhados que essa frustração os leva a interpretar qualquer sorriso cordial que alguém lhes dirija como um sorriso de troça.

O caso que referi no citado artigo vivi-o como adulto jovem, mas aqui vou recordar um outro que vivi quando teria uns dez anos. Eu frequentava então o Liceu Normal D. João III, em Coimbra, hoje rebaptizado como Escola Secundária José Falcão. Estávamos em pleno Estado Novo, no ano letivo 1951/52. Era reitor desse liceu um cavalheiro chamado Mário Guerra. O cargo de reitor dispensava-o de dar aulas pelo que não tinha quase nenhum contato com os alunos. Era um homem que diziam nunca ter sido casado, que nunca ninguém tinha visto sorrir, que os miúdos mais velhos odiavam e gozavam por usar camisas que não pareciam muito bem lavadas (mas eu nunca reparei nisto!): aliás, por este motivo, deram-lhe uma alcunha pouco lisonjeadora. Chamavam-lhe “O Côdeas”.

Lembro-me de ver este homem, percorrendo lentamente os corredores do liceu, à procura de alguma criança que a seus olhos merecesse punição! Quando ele era avistado, fazia-se um silêncio sepulcral e todos procuravam encostar-se às paredes e aí ficavam imóveis, petrificados! Ninguém, obviamente, sequer o cumprimentava… e com razão, vim eu a aprender!

A mim, que só fiz dez anos no mês de dezembro desse meu primeiro ano letivo, haviam dito que devíamos respeitar todos os professores e também obviamente o senhor reitor; e eu já tinha interiorizado que os meninos bem comportados devem cumprimentar os adultos! Por esse motivo, naquele dia fatídico em que vi pela primeira vez o senhor reitor a avançar lentamente pelo estreito corredor onde eu me encontrava, mal ele olhou para mim baixei a cabeça para o cumprimentar e… sorri. Garanto que foi um sorriso o mais ingénuo possível… mas o falhado do sujeito tomou-o como riso de troça, perguntou-me com a sua voz rouca “- Porque é que te estás aí a rir?” e, sem esperar resposta que eu também não teria, deu-me um valentíssimo puxão de orelhas…

Mário Guerra ficou assim na minha memória como um homem que era um zero em Psicologia e que de Pedagogia nada entendia. Até das crianças tinha medo! Medo que o troçassem, é claro, pois embora fosse de compleição física fraca, nunca, naquela época, aluno algum agrediria jamais um professor.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

A CARREIRA DE UM CARREIRISTA


Eu tinha uns 22 anos e ele tinha uns 33. Ele ia doutorar-se e eu estava no meu primeiro emprego, num centro de cálculo, mas com gosto por acompanhar as atividades académicas. Por isso já tinha assistido a provas de doutoramento e fui assistir às dele.

Fiquei muito positivamente impressionado. O diálogo travado entre ele e os membros do júri teve uma elevação que eu não tinha ouvido nos doutoramentos a que anteriormente já tinha assistido. Foi um diálogo sério, sobre pontos significativos da tese do candidato; pareceu-me que foi uma conversa verdadeiramente científica.

Por isso, tendo ficado entusiasmado com o nível do que tinha visto, felicitei sinceramente o candidato no fim das provas: disse-lhe claramente que, na minha opinião, a conversa dele com o júri tinha sido de verdadeiros cientistas.

Espantoso é o que vim a saber mais tarde: o candidato interpretou o meu comentário como estando a fazer troça dele! Ele não acreditava em si próprio! Por isso reagiu assim… e embora eu, na verdade, tenha gostado da maneira como se comportou nas provas, ele, realmente, nunca veio a ser um cientista brilhante: nunca publicou livros didáticos, só umas notas de curso; e trabalhos de investigação seus, nunca apareceram em revistas internacionais e mesmo nas caseiras, além das dissertações requeridas pela carreira académica (doutoramento e concurso para professor extraordinário), só escreveu algumas poucas páginas.

Enfim, não esconderei que senti sempre a antipatia dele por mim, no seguimento das nossas vidas profissionais. Ele cultivou todavia habilmente uma imagem pública que o projetou como se ele fosse um académico de grande envergadura!!


Assim como os gatinhos negros do destino,
é com admiração e regozijo que observamos
tanto as grandes como as pequenas estrelas!  



terça-feira, 5 de julho de 2011

Maria dos Anjos da Fonseca Saraiva

A notícia recente do teu falecimento chocou-me. Quando nos conhecemos éramos jovens. Embora o tempo passe, julgamos que não envelhecemos e a morte – sobretudo a dos amigos porque na nossa pensamos às vezes – nunca nos parece provável.
Quero pois prestar-te uma pequena homenagem. Por um motivo, que deve parecer surpreendente.
Lembras-te por certo que no ano em que trabalhaste comigo – já lá vão mais de quatro décadas – primeiro gostaste de o fazer mas depois, subitamente, deixaste de gostar. Compreendeste que o trabalho que eu tinha combinado contigo e os outros membros da nossa equipa se tornara demasiado duro.
Como jovem professor, eu queria apoiar e efectivamente apoiava tanto os alunos que começaram a transferir-se às centenas, vindos das universidades de Lisboa e Porto, para a nossa faculdade.
Chegámos a ter 1400 inscritos na cadeira que eu regia de Cálculo Infinitesimal. Não havia ainda 'numerus clausus' e as transferências eram automáticas porque as três licenciaturas em Matemática existentes no País (Lisboa, Porto e Coimbra) tinham o mesmo elenco de disciplinas.
Dar a 1400 alunos 4 ou 5 frequências no ano (o Cálculo Infinitesimal era anual), prepará-las, dactilografá-las, fazer as vigilâncias, corrigi-las e classificá-las para os podermos dispensar selectivamente no exame final de responderem a matérias nas quais já tinham revelado conhecimentos satisfatórios… era realmente um trabalho gigantesco, sobretudo após o aumento inesperado do número de alunos que frequentavam.
Voltaste-te então contra mim e influenciaste metade da equipa: eram seis pessoas ao todo que comigo trabalhavam.
Senti-me magoado. Houve no fim desse ano uma minicrise académica e até os alunos, absurda e paradoxalmente, conseguiste manipular: lembro-me de um deles me dizer que era injusto dispensar alguns e obrigar outros a fazer exame!
Ainda por cima, tu eras vista como uma pessoa favorável à situação política do Estado Novo, o que levou alguns professores, entre os quais um grande amigo meu, a não te condenarem a ti, mas sim a mim. Querendo apoiar tanto os alunos, que na sua maioria seriam revolucionários esquerdistas, tudo me classificava como um dos deles… pelo menos aos olhos de alguns ultra-conservadores. E atingir uma percentagem de aprovações que não era de modo algum habitual tornava-me extraordinariamente suspeito, alvo mesmo de alguma inveja dos colegas. Era olhado como um professor quase mediático - antes do advento do mediatismo - e a situação chegou a ser um autêntico inferno para mim!
Tinha eu 26 anos. Mas tudo isso me levou a tomar uma decisão que a vida me veio a revelar ser acertada. E fiquei a devê-lo a ti, sem que tu jamais te tenhas apercebido disso. Portanto, hoje, mais de quatro décadas depois, registo o meu agradecimento em face desta verdade que ao tempo, por tua causa, aprendi:
- Que nunca devemos ser demasiadamente generosos!