quinta-feira, 28 de agosto de 2008

VAIDADE MINHA!

VAIDOSO EU? DESTA VEZ, SIM!

João de Castro Nunes, um dos poetas contemporâneos que mais admiro e a quem me refiro neste blogue num cartaz da categoria Literatura com o seu nome no título, dedicou-me um soneto. Claro que é razão para me sentir muitíssimo orgulhoso. Vou transcrever o referido soneto:

“Amor explorado”

Ao Poeta Zé-Manel Polido

Li seus poemas que me impressionaram

pela superação que patenteiam

das circunstâncias várias que geraram

as mágoas que os seus versos alardeiam.

+

Impressionou-me a forma da expressão

bastante original, sem todavia

em termos musicais pôr em questão

o clássico sentido da harmonia.

+

Vê-se que tem poético talento

predominando sobre todo o resto

o seu desencantado sentimento.

+

Em quanto escreve existe um grão de sal,

um fio de humorismo manifesto

que virtuoso faz o próprio mal!

João de Castro Nunes

JOÃO DE CASTRO NUNES

JOÃO DE CASTRO NUNES, O HOMEM E O POETA

JOÃO DE CASTRO NUNES é um homem da cultura, que como tal se afirmou no ensino universitário, e é também um grande poeta da língua portuguesa.

A sua enorme sensibilidade rebrilha nos seus versos. Cultiva o soneto à boa maneira dos clássicos, essa forma de Poesia em que a liberdade está muito longe de ser total. E apesar disso, a originalidade está lá, em cada um deles, o estilo que criou leva-nos a reconhecer o autor logo que lemos a primeira quadra, e a mensagem que cada um nos transmite - porque há, sim, uma mensagem em cada um dos seus sonetos! - é sempre límpida, compreensível, fluida.

Não deve haver quem o iguale, muito menos o exceda, quando exalta o amor à Mulher da sua vida, a sua Esposa e Mãe dos seus oito filhos. E esse amor não foi uma paixão frustrada, muito menos um fogo que ardeu e se consumiu, ou que não teve tempo de se desgastar porque as circunstâncias lhe puseram fim rapidamente; há génios da Poesia que cantaram amores desse tipo e não deixam de merecer a nossa admiração e o nosso respeito. Mas o amor que ele imortaliza nos seus sonetos foi constante, sereno e viveu-o seis décadas desde a juventude; aliás continuou a vivê-lo e vive-o hoje para além da morte com a mesma ou ainda maior intensidade.

Para quem porventura ainda os não conheça, permito-me aqui transcrever dois dos seus sonetos (sem lhe pedir autorização, é certo, mas são apenas dois entre as centenas que ele compôs!). Fui buscá-los ao livro “Orfeu resignado” (edição de autor, publicada em Arganil em 2007). Como a maioria das suas obras são edições de autor e por conseguinte pouco distribuídas, sugiro uma visita ao site do Movimento Cidadãos por Góis onde João de Castro Nunes colabora regularmente.

O URL é: www.portaldomovimento.com/joao_de_castro_nunes.html.

Não quero deixar de assumir que é perante o sentir de homens como ele que tenho de acreditar no género humano. Aqui estão os dois sonetos:

++++

Pelo amor que me deste e que eu te dei

amor sem par, sem peso nem medida,

marcado com punção de ouro de lei,

foi como um sonho, amor, a nossa vida!

+

Foram diversos anos que passaram

mais rápidos acaso do que a luz,

seis décadas que nos transfiguraram

em cireneus levando uma só cruz..

+

O sonho que vivemos não findou:

com algum exagero ou fantasia

direi que só agora começou..

+

Há-de no céu continuar um dia

quando o Senhor que nos desapartou,

quiser que eu vá fazer-te companhia!

+++

Eu creio em Deus, na vida além da morte,

não tanto por argutas teorias,

mas por amor do modo que tu crias

compartilhando a tua fé tão forte.

+

Porém, se acaso assim não suceder

e vão ter sido em Deus acreditar

por com a morte a vida terminar,

valeu a pena mesmo assim viver.

+

É que seguramente, na verdade,

nada é melhor do que a felicidade,

seja onde for, com a pessoa amada.

+

Se após a morte não houver mais nada,

bastou-me ser feliz contigo aqui,

pois tive o céu na terra ao pé de ti!

terça-feira, 26 de agosto de 2008

AOS MEUS ALUNOS: UM VALOR A MAIS, UM VALOR A MENOS

Ainda vos afixo aqui mais uma mensagem!

Um de vós, que designarei por X, pediu-me uma correcção da nota lançada pois gostaria (e tem todo o direito a isso) de repetir o exame para a melhorar embora ela já seja muito boa.

Esse pedido me levou a tecer algumas considerações que creio serem úteis para todos vós.

Aí fica pois a resposta que dei ao vosso colega:

+++

Olhe, amigo X, claro que a sua nota foi obtida em avaliação contínua e, tendo havido erro
no lançamento, há-de haver maneira de o corrigir. E, obviamente, estou disposto a
fazê-lo. Claro também que terei gosto em falar pessoalmente consigo. Porque mais
importante talvez que tudo o que eu lhe tenha ensinado de Matemática será o que lhe
poderei dizer nessa conversa sobre a sociedade competitiva em que o nosso país (e o
X não se esqueça que é europeu) se vai transformando.

Porque me faz pena que o X, sem dúvida um jovem inteligente e capaz, em vez de
olhar para o futuro, olhe para passado! Eu, no seu lugar, buscava novos desafios, cada
vez mais exigentes, cada vez mais globais, talvez tentar já um pouco de actividade
profissional relacionada com o seu curso ou até fazer um pouco de investigação; tudo para começar a construir um curriculum à altura da sua
geração que garantidamente não se vai basear no 10, no 15, no 18 ou 19 ou 20 que tiver
em qualquer das dúzias de cadeiras que frequentar na sua formação.

Sabe, X, a última batalha que os jovens portugueses travam com a única arma das
notas é o 12º ano: e é para entrar ou não em Medicina. E até essa batalha já está a parecer
ridícula a muita gente que conhece o Mundo! O Mundo, para além de Portugal, esse
Portugal "de onde se não vê a Europa" para citar, se não estou em erro, Vitorino
Magalhães Godinho. Até porque a escala de 0 a 20 que nós ainda usamos, é uma das
nossas vergonhas nacionais: em quase todo o mundo dito civilizado, traduzidas por números ou por
letras, as notas de aprovação no ensino superior são essencialmente três: muito bom,
bom ou suficiente.

Eu sei dos muitos recém licenciados que se encontram no desemprego. Não creio que seja por causa das notas, de mais um valor ou menos um valor, não creio que se tivessem mais um valor na média já teriam um lugar, ou que se tivessem mais dois valores na média já teriam sido promovidos na empresa ou instituição onde trabalham. Certamente é importante, imprescindível mesmo, que cada um seja competente na respectiva área profissional; mas isso não basta. É preciso ter um nível de ambição consigo próprio que o leve sempre a olhar mais para o futuro do que para o passado; ter uma visão global que dê o devido valor às diversas vertentes que fazem de um activo um agente de progresso e que incluem, a par de variados valores humanos, a capacidade de perspectivar o seu próprio passado, sim, mas só para atacar o futuro, tudo aspectos de que antigamente nunca se falava durante a vida escolar. Deixá-los hoje em silêncio é atitude que revela vestígios de um passado em que se saía da universidade a saber tudo o que havia para saber, com a consciência tranquila de quem não vai precisar de aprender mais nada no resto da sua vida.

Jovens amigos, pensem nisto!