domingo, 16 de novembro de 2008

A BÍBLIA E DARWIN



A CAROCHINHA, A SUA HISTÓRIA, A BÍBLIA E DARWIN (*)

Parece que ainda há pessoas, e até nas sociedades ditas desenvolvidas, que levam à letra as palavras do livro do Génesis, o primeiro da Bíblia.

Deus terá feito o Mundo em seis dias: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado... uma semana portanto. Primeiro terá separado a luz das trevas (o que até parece de acordo com a teoria do Big Bang, pois antes dele só haveria trevas e nada e depois dele é que se fez luz), depois separou as águas das terras (se isto significa haver estados diferenciados da matéria, precursores de um estado sólido e um estado líquido, mantém-se uma aparência de acordo), em seguida fez os astros (as estrelas, o Sol, a Terra, a Lua). Até aqui, uns três ou quatro dias... e o que significará a palavra dia?

Mas difícil mesmo de acreditar é o calendário das actividades seguintes! Julgo que terá sido qualquer coisa como: Ele teria feito os peixes na quinta-feira de manhã, as aves na quinta-feira à tarde, a bicharada que não sabe nadar nem voar, na sexta de manhã, o homem nesse mesmo dia à tarde, depois reparou que não tinha feito a mulher e foi fazê-la a correr provavelmente já no Sábado, antes do almoço, para poder dormir a sesta com a consciência tranquila de quem completou o seu trabalho... e no dia seguinte, domingo, repousou todo o dia. Não terei sido muito preciso para os exegetas do Génesis, mas, mais quarto de hora menos quarto de hora, mais manhã menos manhã, mais tarde menos tarde, tudo se teria passado assim.

Francamente, não acredito de modo algum nestes pormenores. E compreendo que um Darwin que vivia numa sociedade puritana (e hipócrita, como são aliás quase todas as sociedades puritanas) tivesse querido combater essa visão dominante no seu tempo com a teoria que apresentou. Embora dissimulado com grande inteligência, o seu objectivo deve ter sido essencialmente político, ou político-social; terá sido um esforço mais destinado a abalar a autoridade secular de um poderoso clero, do que a explicar cientificamente fosse o que fosse.

Diz-se que, na opinião dele, as espécies não teriam surgido assim todas numa hipotética primeira semana da história do Mundo. Terá havido uma longa e lenta evolução em que novas espécies apareciam e outras se extinguiam, tudo ou quase tudo passível de ser explicado pela sobrevivência dos mais aptos. Ou seja, quando surgiam indivíduos com características distintas das dos seus progenitores, características essas que os tornavam mais aptos a sobreviver, então eles sobreviviam, transmitiam-nas aos seus descendentes, e aqueles a quem essas características não eram transmitidas ficavam com menos recursos para sobreviver e acabavam por se extinguir. Ainda com mais razão se extinguiriam aqueles indivíduos que surgissem com características diferentes das dos progenitores mas tais que os tornassem mais frágeis, menos aptos a enfrentar o ambiente. Dá pois a ideia, esta bela construção teórica, que houve uma evolução contínua (ou quase contínua, talvez mesmo, admitamo-lo, com alguns saltos discretos) em que os seres aparecidos posteriormente tinham mais capacidades, mais competências -- como se diz agora -- para a luta pela vida.

Será assim? Não parece! Como se teriam sentido os nossos antepassados ao verem as aves, que já existiam antes deles e já voavam porque tinham asas, perante a triste realidade de não terem asas? A evolução em vez de os tornar mais aptos, tornou-os menos aptos. Porque, não duvidemos, para fugir aos representantes de outras espécies fisicamente mais fortes e menos simpáticas -- eu direi os crocodilos, os mamutes, as serpentes -- que já povoavam a Terra, umas asas tinham dado muito jeito. E eles, se tivessem conhecimento do darwinismo, perguntar-se-iam: Como é que as perdemos? A evolução devia ter-nos tornado, já que a nossa espécie apareceu mais tarde, mais aptos, ou, na pior das hipóteses, devia manter-nos tão aptos como aqueles que antes de nós já tinham o direito às asas.

E quem diz asas, diz guelras. Então não se terão sentido revoltados os homens primitivos, porque a evolução, em vez de lhes dar guelras ainda mais perfeitas que as que tinha dado aos peixes surgidos antes deles, privou-os delas? Assim, em vez de mais aptos a sobreviver quando caíssem à água ou quando a água, numa inundação, maremoto ou chuva diluviana lhes caísse em cima, ficaram menos aptos, ou melhor, totalmente inaptos... e ainda o estamos, uns tantos milénios depois.

Talvez, em breve, a introdução de um gene de águia ou abutre e outro de bacalhau ou pescada no óvulo dos nossos netos lhes permita nascer com asas e guelras... mas isso, que digo e prevejo sem a menor ponta de ironia, não é fruto da evolução natural mas da ciência e da tecnologia. Não é uma confirmação, mas sim o desmoronar completo da teoria de Darwin porque provará que afinal podíamos ter mantido as asas e as guelras já usadas em espécies mais antigas -- quanto às asas até os pterossauros as tiveram e alguns não seriam muito mais leves que os humanos -- mas afinal a evolução não se dignou mantê-las! Teremos de concordar que estamos em presença de um claro desmentido do facto, mil vezes repetido pelos darwinistas, de que com a evolução sempre se avançou, tornando cada espécie mais apta que as anteriores. Aqui falhou redondamente. E este caso específico é apenas um entre milhares de outros casos análogos.

Há uma outra situação que põe claramente a nu a ingenuidade -- ou a arrogância! -- dos que consideram a espécie humana mais apta, mais capaz, mais adaptada que outras espécies a partir das quais ela terá evoluído. Refiro-me à proverbial (e real!) incapacidade de uma criança de sobreviver por si só. Então quando as crias de tantas espécies, mal saem do ovo já estão aptas a fazer pela vida e de facto sobrevivem sem qualquer apoio dos seus progenitores, nós, humanos, que teoricamente devíamos ser mais avançados, mais capazes, mais competentes, nós que como espécie seremos das mais recentes e portanto produto de uma mais longa evolução, de um mais demorado aperfeiçoamento... não conseguimos minimamente sobreviver, logo após nascermos, sem apoios?

Dos recém-nascidos -- não serão muitos mas infelizmente são alguns -- que certas mães desesperadas deitam no lixo, porventura já algum foi visto a roer um osso, a trincar uma espinha, enfim a tentar ingerir restos de comida que pudesse encontrar no contentor onde o abandonaram para se proteger de uma carência que certamente o matará? Nenhum! E no entanto, milhares de crias de peixes, por exemplo, sabem muito bem fazê-lo! Conclusão: não nos tornámos mais aptos que essas espécies que já existiam antes de nós. Tornámo-nos menos aptos e, por isso, teoricamente, segundo Darwin, não devíamos ter sobrevivido como espécie. Em suma, com Darwin ou sem ele, vamos assumir com humildade -- uma humildade que não é bíblica nem nada tem de mística ou metafísica! -- a seguinte e indiscutível verdade: neste ponto, somos menos aptos que todos os peixinhos e muitas outras espécies não aquáticas que nos precederam na cadeia da evolução...

Lembro-me de um dia ter lido, ocasionalmente, numa revista de divulgação científica, na sala de espera do meu dentista (razão pela qual não posso citar mais precisamente a fonte) o que o autor chamava um argumento decisivo a favor do darwinismo. Era, entre outras, a questão do olho. Ele dizia que devíamos reparar na razão pela qual o olho (ou mais rigorosamente, a capacidade da visão) se desenvolveu. De facto, argumentava ele, uma espécie sem visão rapidamente se tornava presa de outra espécie com visão, o que levaria a primeira a ser aniquilada e a segunda a prosperar; pois era claro, para o referido autor, que a espécie cega não podia fugir eficazmente da espécie com vista quando esta a atacasse.

Fiquei a pensar nas espécies vegetais; e nas espécies animais herbívoras... As plantas parece-me que não têm olhos; e mesmo que os tivessem, não têm pernas para fugir. Como é que ainda se não extinguiram todas?

Não escamoteemos factos verificados experimentalmente que parecem confirmar o grande Darwin: há vírus ou bactérias que, depois de combatidos, digamos durante uma década, com medicamentos antivíricos ou antibióticos que a princípio os destroem, evoluem e tornam-se resistentes. Quer dizer, as gerações seguintes ficam invulneráveis àqueles medicamentos que aniquilaram os seus antepassados. Ora, se pensarmos um pouco, isto não confirma mas sim desmente a teoria da evolução. Porquê? Porque -- admitamos que é verdade -- um vírus ou bactéria consegue rapidamente evoluir e tornar-se mais apto a sobreviver àquilo que o envenena e mata. Mas então essa capacidade perdeu-se (em vez de se adquirir) algures na cadeia evolutiva. Como é que um vírus faz isto no espaço de uma década e nós, humanos, produto de uma evolução que a partir desses micro-organismos nos devia ter tornado muito mais aptos e versáteis, continuamos a morrer se bebermos cicuta, exactamente como morreu o Sócrates, vai para 24 séculos? Essa capacidade de produzirmos descendência mais competente do que nós a resistir àquilo que nos envenena e mata, essa capacidade que os vírus e bactérias parecem ter, nós não a temos, contra o que seria de esperar dos postulados do darwinismo. E de desejar, postulo eu!

É verdade que têm aparecido alguns seguidores de Darwin que já não acreditam tanto nele como anteriormente se acreditava. Pelo menos tentam dar umas pinceladas de alguma cor nova para retocar a sua velha história. Estou a lembrar-me de Dawkin e da sua famosa e rendosa encenação chamada o gene egoísta! Mas que grande ideia nova que ele trouxe à sociedade! Como os genes se transmitem de pais para filhos, ele coloriu esta história dizendo que eles são eternos e usam os nossos corpos como uma casa de habitação temporária: quando a casa se degrada e se desmorona eles já estão a viver numa casa mais nova. Por isso são egoístas: servem-se da casa para passar umas décadas, mas estão apenas interessados na sua própria sobrevivência. A acreditar em Dawkin, eles são, não diremos eternos, mas talvez perenes.

Será esta ideia assim tão luminosa? Como, segundo os físicos, os núcleos dos átomos ora ganham ora perdem alguns electrões que os gravitam, vamos passar a chamar-lhes núcleos egoístas: sobrevivem à custa da nuvem dos electrões mas estes passam e eles é que ficam! Ou talvez vice-versa: os electrões é que são egoístas: servem-se dos núcleos para gravitar à volta mas, se o núcleo se desintegrar, eles rapidamente encontram outro núcleo! Enfim, os próprios átomos também serão egoístas pois integram moléculas mas sobrevivem à destruição destas; apenas se servem delas enquanto lhes apetece, depois arranjam outras onde se instalarem.

Quando penso nas considerações que acabo aqui de tecer, sou incapaz de decidir quem serão os mais ingénuos: Os que levam à letra o texto do Génesis? Ou os que levam à letra Darwin e os seus continuadores?

Já não falo dos milénios desde que se escreveu a Bíblia, mas do século e meio desde que Darwin lançou o seu manifesto. Século e meio durante o qual a Santíssima Inquisição já se tinha tornado inofensiva de modo que ninguém precisa de temer acabar na fogueira por apresentar ideias que não se inspirem no Génesis. Século e meio ao fim do qual nenhuma Darwiníssima Inquisição -- das que continuam a investir na intoxicação da opinião pública em geral e da juventude escolar em particular -- pode reivindicar o direito de queimar na fogueira os hereges como eu. Sendo estas Inquisições hoje inofensivas, naturalmente me questiono: -- É só por não haver coragem, ou porque a ninguém ocorre uma alternativa melhor, que ainda não se avançou com uma teoria mais credível, enfim, sem eufemismos, com uma teoria digna da nossa época, que explique a biodiversidade com menos fantasias ou fantasias menos delirantes?

Quando criança ouvi contar (e cantar!) a história da carochinha: bonita e arranjadinha, ela procurava um noivo para casar. Ao longo da vida, percebi que história da carochinha é expressão sinónima de descrição fantasiosa ou pelo menos fantasiada. E é desta metáfora que me socorro na presença de discussões entre criacionistas e evolucionistas seguidores de Darwin.

Tenho no entanto de reconhecer que os media estão agora a começar a anunciar, com grandes trombones e trompetas, que alguns génios da Biologia -- jovem prodígio, foi como recentemente o respeitado jornal on-line ‘’Ciência Hoje’’ chamou a Kevin Foster que será um deles --já descobriram finalmente que não é só a lei dos mais aptos que condiciona a evolução das espécies! Já não era sem tempo... mas, como diz o ignorado e ignorante povo iletrado português, antes tarde do que nunca! Creio que a frase é de Saramago e eu vou apropriar-me dela: Sou um pessimista cheio de esperança! Talvez isto seja o começo do caminho para enterrar de vez a teoria dos mais aptos.

© J. M. S. Simões Pereira, 15 Novembro 2008
(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve "Convicções e Cepticismos"

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO? ARTES DA EDUCAÇÃO?

ARTES (E NÃO CIÊNCIAS) DA EDUCAÇÃO (*)

Não sei se é a pressão dos linguistas que querem manter as línguas imutáveis e por tal motivo não aceitam que se inventem palavras novas para factos novos. Mas se os factos são novos, tem de haver para eles palavras novas. Este é um aspecto que, na minha opinião, tem de ser revisto. Ainda há outro em que os linguistas deviam intervir mas também aí ninguém vê neles qualquer reacção: refiro-me à utilização inadequada de palavras que, ou não exprimem o que se quer significar ou exprimem um facto distinto daquele a que se referem.

Exemplos não faltam. No campo da Informática, área muito afim daquela em que trabalho, os profissionais de programação de computadores e os teóricos da chamada Matemática Computacional usam a palavra instância em vez de exemplo ou caso particular. Transliteram o vocábulo inglês instance que, como todos nós sabemos, mesmo os não linguistas, equivale a exemplo (todos nós, americanos e portugueses, dizemos a cada passo "for instance" e "por exemplo", respectivamente), mas não equivale ao português instância: em português, o que há é tribunais de várias instâncias e também há quem faça pedidos instantemente.

Uma outra situação ridícula é o mais que discutido casamento de homosexuais, homens ou mulheres: tenho a convicção que a maioria das pessoas que se opõem à oficialização ou legalização destes contratos o fazem, não por oposição ao contrato em si, mas sim pelo uso de uma palavra que não foi criada para o expressar. Repare-se que, no imobiliário, um contrato de compra e venda não é o mesmo que um contrato de permuta: há uma diferença, relativa aos contratantes. No primeiro, na compra e venda, há alguém que tem e quer deixar de ter e outro que não tem e quer passar a ter; no segundo, ambos têm e querem continuar a ter. Justificadamente, os contratos têm nomes distintos; traduzem situações com algumas semelhanças mas que não são idênticas. Nesta linha de pensamento, porque é que não há-de haver nomes distintos para o casamento entre homem e mulher e o que persistem em chamar casamento entre dois homens ou duas mulheres? Impõe-se a intervenção de linguistas que criem uma palavra nova. Se cada coisa tivesse o seu nome, só se dignificariam ambas e não se estabelecia uma inútil confusão que prejudica sempre quem copia e irrita quem é copiado.

Estas considerações feitas um pouco ao lado dos temas que me propus tratar servem para melhor esclarecer o meu ponto de vista sobre uma polémica que tem também incomodado muita gente.

É o caso das Ciências da Educação. Porquê este nome, obviamente a despropósito? Não há Ciências da Educação! O que há, e seria mais correcto e honesto chamar-lhes assim, é Artes da Educação. O que aliás em nada as desprestigiaria. Até há pouco mais de um século, a Medicina era uma Arte; depois começou a ser uma mistura de Arte e Ciência; agora é muito mais Ciência que Arte. E porque é que podemos fazer esta afirmação? Porque agora sabemos que, se tomarmos a vacina anti-tetânica, é quase absolutamente certo que não vamos morrer com o tétano; e se tomarmos a da rubéola, também ficamos seguros - quase absolutamente e insisto no quase porque em Medicina o absoluto não existe - que não adoeceremos com rubéola.

Ora vejamos o contraste: Que vacina podem os educadores dar a uma criança que garantidamente a imunize contra tornar-se um criminoso ou mesmo apenas um miúdo violento? Ou um deprimido? Ou que a modifique, produzindo um jovem que adore ir à escola a partir de um adolescente que detesta fazê-lo?

Qual é pois a razão para falar de Ciência a propósito da Educação? Respondem-me que é porque, no seu âmbito, se fazem uns inquéritos, se obtêm umas estatísticas, se esquematizam uns resultados utilizando alguns cálculos de matemáticas elementares como sejam percentagens ou proporções. Bem, os pintores, em particular os figurativos, também recorrem um pouco à geometria quando querem respeitar as leis da perspectiva. Deveremos por isso mudar o nome desta forma de arte para Ciências Pictóricas? Quem frequentar uma faculdade ou escola superior de Belas Artes deverá passar a dizer que está a tirar uma licenciatura em Ciências da Pintura?

A excepção serão as Ciências Musicais, porque compor, harmonizar, orquestrar e mesmo afinar instrumentos musicais são actividades enormemente matematizadas. Mesmo assim, o espaço reservado à criação pura, seja do compositor ou do intérprete, é enorme. Também a Arquitectura tem Arte e tem Ciência, e Ciência tem até, embora em menor escala, a Escultura: é óbvio que ao esculpir uma estátua, há que considerar volumes, forças, equilíbrios... mesmo assim, é essencialmente uma Arte, não uma Ciência.

Por isso não se generalizou nem creio se generalizará no futuro próximo, qualquer designação do tipo Ciências Escultóricas nem mesmo Ciências Arquitectónicas.

Resta-nos o ridículo da designação Ciências da Educação.

Assumamos, pois, que a Educação é uma Arte. E que exige talento, em grande parte inato. E que quem brilha na criação dessa forma de arte merece o nosso respeito e admiração; mais até, a sociedade deve ser grata aos que a cultivam porque o seu papel na formação das gerações futuras é fundamental.

Só não se intitulem cientistas. São artistas, sim, e orgulhem-se de o ser, mas não reivindiquem títulos que não se quadram de modo algum aos aspectos centrais da actividade que praticam!

Que gostem de fazer isto ou aquilo, é legítimo; se lhes é apelativo por razões subjectivas, pratiquem-no! Mas não o queiram impor como um protocolo tecnológico ou uma lei científica! Porque disso, nada tem. O que para uns não terá nada de belo para outros é o supra-sumo da estética, às vezes simplesmente porque se generalizou, porque se tornou de uso ou prática numa dada época: como exemplos actuais darei, na Poesia, não haver rimas nem métricas; e na Arte do Vestuário, vulgarmente chamada Moda, as calças e blusões de ganga rasgados, tão em voga à data em que escrevo! A Arte não deve ser imposta. E cada vez é maior a tendência para não o ser. O pensador francês contemporâneo Gilles Lipovetsky fala abertamente nos seus estudos da morte da chamada moda imperativa; hoje, diz ele, a moda é plural. O tempo em que os grandes costureiros -- hoje dir-se-ia, estilistas -- diziam às mulheres: minhas senhoras, a baínha das saias este ano é a x centímetros do chão ou este inverno as botas usam-se pretas ou qualquer outra coisa do género, já passou; e segundo este autor, não é de esperar que volte. Portanto não se pode afirmar que alguém anda ou não anda na moda, que alguma coisa está na moda ou fora de moda.

Isto tudo é consequência, segundo ainda o mesmo pensador, do que ele chama o hiperconsumismo: ninguém se quer afirmar como pertencendo a uma ou outra classe, quer sim afirmar o seu próprio eu... livre, hedonista, procurando valorizar a imagem que criou para si.

E o que se passa na arte do vestuário, passa-se em todas as outras manifestações artísticas. É que os artistas sabem que a Arte não se impõe. E não há que procurar explicações racionais para o que cada um valoriza sob o ponto de vista estético! A menos que queiramos repetir os chavões das grandes damas do século dezanove, quando se elogiavam mutuamente pelo "Bom Gosto" que nisto e naquilo revelavam ter. Na Arte, hoje em dia, não há nada a demonstrar! Muito menos se deve ter a estulta presunção que "é assim que todos devem fazer".

Compreende-se e aceita-se que uma Ordem dos Médicos ou dos Farmaceuticos exija a todos os seus membros que, perante uma determinada patologia, passem a prescrever um novo medicamento B em substituição do antigo medicamento A porque se verificou que os efeitos curativos do novo são claramente superiores aos do anterior. Se um levava uma semana a curar uma dor na cabeça ou no cotovelo e o outro a cura apenas num dia, não hesitemos. Estamos aqui em presença de um avanço científico, fruto de uma actividade científica, que temos de encarar como tal.

Pelo contrário, se ordenarmos a todos os pintores que pintem segundo o gosto (ou, mais expressivamente, o bom gosto) de um determinado mestre, por mais popular, mais inovador, enfim, mais genial que ele seja, aniquilaremos esta forma de arte.

É por isso que são tão catastróficas as consequências de ordenar a todos os professores, a todos os ensinantes, a todos os educadores que instruam, que ensinem, que eduquem de acordo com um modelo congeminado pelos pseudo-cientistas da Educação; porque os gurus da Educação não são cientistas, são sim artistas. E, consequentemente, não devem nem podem dar indicações, muito menos ordens, aos seus confrades. Quando muito, que dêem exemplos!

2008.04.21

© J. M. S. Simões Pereira

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(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve “Convicções e Cepticismos

sábado, 18 de outubro de 2008

PAÍSES DO OCIDENTE E PAIS DIVORCIADOS

DISCRIMINAÇÃO DO PAI DIVORCIADO (*)


Ser pai divorciado ou em processo de divórcio é pertencer a uma raça inferior; e se o processo é no Ocidente, nos Estados Unidos mas provavelmente também na Europa, ser estrangeiro é mais um suplemento de inferioridade. Ai do homem que se divorciar num país que não é o seu de origem. Pode a mulher também não o ser. Mas é ela que é protegida, é ela que é a vítima, é ela que tem sempre razão, é ela que vai continuar a gozar o amor e a presença dos filhos, é ela que vai parasitar financeiramente o ex-marido a pretexto dos filhos mesmo que ele esteja disposto a ficar com eles, criá-los e educá-los sem pedir à mãe deles qualquer pensão, é ela que ainda se gaba que foi mulher de coragem por ter pedido o divórcio! Em que mundo, em que época, em que século vivemos nós?

Tantas discriminações que já foram arrastadas pelas enxurradas da História: o feudalismo, as cruzadas, a inquisição, a monarquia absoluta, a escravatura, a pena de morte nos países mais civilizados, o apartheid entre negros e brancos tanto nos EUA como na África do Sul, o muro de Berlim, os Goulag... Feministas proclamaram os direitos da mulher onde eles eram desrespeitados iniquamente pelos homens, outros proclamam os da criança, outros ainda os de tantas minorias humanas desde os canhotos aos homossexuais, e mesmo os de espécies de fauna ou flora em extinção ou dos animais de laboratório ou dos que abatemos e nos servem de alimentação.

Falta quem defenda os últimos discriminados, os homens, pais de filhos menores, em processos de divórcio.

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(*) Extraído do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
© Editora Luz da Vida, Lda.