segunda-feira, 27 de julho de 2009

LANÇAMENTO NOVO LIVRO

Aos meus estudantes: Desejo-vos umas boas férias!
Entretanto anuncio-vos que o meu livro sobre grafos já aí está.
Saiu a 12 de Julho de 2009.
Mas ainda não está distribuído: só a livraria dos Arcos do Jardim (em Coimbra)
e a Havanesa e a Casa Rádio (na Figueira da Foz) é que o têm.


CAPA
CONTRA CAPA
DE NOVO A CAPA DA FRENTE

Matemática Discreta: Grafos, Redes, Aplicaçoes (x+603 páginas)

A capa: realização de Rúbem Ismael Silva Dinis e concepção de Jacinta Luz Pereira pseudónimo de Luz Compasso

A ideia base da capa do livro anterior Matemática Discreta, Tópicos de Combinatória, também foi de Luz Compasso.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

Vou acrescentar mais uma página às muitas que se têm escrito sobre os problemas ou pseudo-problemas das chamadas Ciências da Educação.

A espiral de degradação em que se encontra o ensino pré-universitário afecta toda a sociedade e é sentida e vivenciada em primeira linha por aqueles cuja actividade os envolve nestes problemas.

Tenho para mim que uma das causas desta degradação é a dicotomia que menciono no título: há, nas escolas, profissionais do ensino, mas faltam profissionais que ensinam. Exemplificando com a minha especialidade científica: quem ensina Matemática nos níveis do básico ao secundário, tem de ter, por exigências do próprio sistema e frequentemente a contra-gosto, muito mais em comum com baby-sitters do que com matemáticos profissionais. E isto é tremendamente errado, porque por um lado eterniza a infância dos jovens em vez de os estimular a crescer e, por outro, estiola a capacidade dos docentes para viver - digamos, com generosidade, a metade - do seu campo de acção que será (ou deveria ser) a preparação como matemático, enquanto a outra metade seria a preparação como ensinante. E digo que sou generoso, porque acredito que a preparação como matemático devia tomar mais do que metade do seu esforço e da sua dedicação.

Curioso é que a vantagem do ponto de vista que defendo é tácita embora não abertamente reconhecida pela sociedade. Falando sem tabus: em que se baseia o prestígio da Universidade Católica Portuguesa? Essencialmente – e invoco, também mas não só, a minha própria experiência como aluno pós-graduado que fui desta universidade – no facto de a maioria dos seus docentes serem profissionais que ensinam, quer dizer, pessoas que têm a sua principal actividade fora do campus e ali vão dar aulas como actividade secundária. Transmitem assim aos seus alunos uma experiência de vida que é benéfica para eles, não só em si mesma como também porque lhes faculta desde logo contactos para o acesso ao mercado de trabalho quando receberem os seus diplomas. Disso resulta os seus graduados terem muito menos dificuldades em encontrar um primeiro emprego do que os de outras instituições de não menor qualidade. E o que é válido para esta escola é-o também, em larga medida, para várias faculdades da Universidade Técnica de Lisboa.

Ressalvo, para não me acusarem de ambíguo, um facto: em muitas outras universidades nacionais, a maioria dos que, legal e oficialmente e antes de tudo, são chamados professores, pois nelas trabalham em exclusividade, não se limitam a ensinar: são também profissionais que ensinam pois a sua actividade de investigação, divulgação, organização e serviço à comunidade extra-universitária vai muito para além do simples acompanhar dos seus próprios estudantes.

Relativamente aos docentes do ensino pré-universitário, devem estes, a meu ver, em especial os do secundário, ser estimulados a crescer no conhecimento e manuseamento das áreas da sua docência porque acredito que quem sabe fazer sabe ensinar e por vezes desconfio que têm razão os que ironizam com o provérbio “quem sabe, faz, quem não faz - ou é quem não sabe? - ensina!”

E estes que ensinam mas não fazem, lá se vão escudando no conhecido, gasto e ridículo argumento, tão querido aos gurus da Psicologia e das Ciências da Educação, que, mesmo quem não sabe fazer nada, se for cientista da educação sabe garantidamente ensinar!

Mas ensinar o quê? É a pergunta que nós outros, que não somos gurus nem sequer cientistas da educação, lançamos… para ficarmos sem resposta.

domingo, 16 de novembro de 2008

A BÍBLIA E DARWIN



A CAROCHINHA, A SUA HISTÓRIA, A BÍBLIA E DARWIN (*)

Parece que ainda há pessoas, e até nas sociedades ditas desenvolvidas, que levam à letra as palavras do livro do Génesis, o primeiro da Bíblia.

Deus terá feito o Mundo em seis dias: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado... uma semana portanto. Primeiro terá separado a luz das trevas (o que até parece de acordo com a teoria do Big Bang, pois antes dele só haveria trevas e nada e depois dele é que se fez luz), depois separou as águas das terras (se isto significa haver estados diferenciados da matéria, precursores de um estado sólido e um estado líquido, mantém-se uma aparência de acordo), em seguida fez os astros (as estrelas, o Sol, a Terra, a Lua). Até aqui, uns três ou quatro dias... e o que significará a palavra dia?

Mas difícil mesmo de acreditar é o calendário das actividades seguintes! Julgo que terá sido qualquer coisa como: Ele teria feito os peixes na quinta-feira de manhã, as aves na quinta-feira à tarde, a bicharada que não sabe nadar nem voar, na sexta de manhã, o homem nesse mesmo dia à tarde, depois reparou que não tinha feito a mulher e foi fazê-la a correr provavelmente já no Sábado, antes do almoço, para poder dormir a sesta com a consciência tranquila de quem completou o seu trabalho... e no dia seguinte, domingo, repousou todo o dia. Não terei sido muito preciso para os exegetas do Génesis, mas, mais quarto de hora menos quarto de hora, mais manhã menos manhã, mais tarde menos tarde, tudo se teria passado assim.

Francamente, não acredito de modo algum nestes pormenores. E compreendo que um Darwin que vivia numa sociedade puritana (e hipócrita, como são aliás quase todas as sociedades puritanas) tivesse querido combater essa visão dominante no seu tempo com a teoria que apresentou. Embora dissimulado com grande inteligência, o seu objectivo deve ter sido essencialmente político, ou político-social; terá sido um esforço mais destinado a abalar a autoridade secular de um poderoso clero, do que a explicar cientificamente fosse o que fosse.

Diz-se que, na opinião dele, as espécies não teriam surgido assim todas numa hipotética primeira semana da história do Mundo. Terá havido uma longa e lenta evolução em que novas espécies apareciam e outras se extinguiam, tudo ou quase tudo passível de ser explicado pela sobrevivência dos mais aptos. Ou seja, quando surgiam indivíduos com características distintas das dos seus progenitores, características essas que os tornavam mais aptos a sobreviver, então eles sobreviviam, transmitiam-nas aos seus descendentes, e aqueles a quem essas características não eram transmitidas ficavam com menos recursos para sobreviver e acabavam por se extinguir. Ainda com mais razão se extinguiriam aqueles indivíduos que surgissem com características diferentes das dos progenitores mas tais que os tornassem mais frágeis, menos aptos a enfrentar o ambiente. Dá pois a ideia, esta bela construção teórica, que houve uma evolução contínua (ou quase contínua, talvez mesmo, admitamo-lo, com alguns saltos discretos) em que os seres aparecidos posteriormente tinham mais capacidades, mais competências -- como se diz agora -- para a luta pela vida.

Será assim? Não parece! Como se teriam sentido os nossos antepassados ao verem as aves, que já existiam antes deles e já voavam porque tinham asas, perante a triste realidade de não terem asas? A evolução em vez de os tornar mais aptos, tornou-os menos aptos. Porque, não duvidemos, para fugir aos representantes de outras espécies fisicamente mais fortes e menos simpáticas -- eu direi os crocodilos, os mamutes, as serpentes -- que já povoavam a Terra, umas asas tinham dado muito jeito. E eles, se tivessem conhecimento do darwinismo, perguntar-se-iam: Como é que as perdemos? A evolução devia ter-nos tornado, já que a nossa espécie apareceu mais tarde, mais aptos, ou, na pior das hipóteses, devia manter-nos tão aptos como aqueles que antes de nós já tinham o direito às asas.

E quem diz asas, diz guelras. Então não se terão sentido revoltados os homens primitivos, porque a evolução, em vez de lhes dar guelras ainda mais perfeitas que as que tinha dado aos peixes surgidos antes deles, privou-os delas? Assim, em vez de mais aptos a sobreviver quando caíssem à água ou quando a água, numa inundação, maremoto ou chuva diluviana lhes caísse em cima, ficaram menos aptos, ou melhor, totalmente inaptos... e ainda o estamos, uns tantos milénios depois.

Talvez, em breve, a introdução de um gene de águia ou abutre e outro de bacalhau ou pescada no óvulo dos nossos netos lhes permita nascer com asas e guelras... mas isso, que digo e prevejo sem a menor ponta de ironia, não é fruto da evolução natural mas da ciência e da tecnologia. Não é uma confirmação, mas sim o desmoronar completo da teoria de Darwin porque provará que afinal podíamos ter mantido as asas e as guelras já usadas em espécies mais antigas -- quanto às asas até os pterossauros as tiveram e alguns não seriam muito mais leves que os humanos -- mas afinal a evolução não se dignou mantê-las! Teremos de concordar que estamos em presença de um claro desmentido do facto, mil vezes repetido pelos darwinistas, de que com a evolução sempre se avançou, tornando cada espécie mais apta que as anteriores. Aqui falhou redondamente. E este caso específico é apenas um entre milhares de outros casos análogos.

Há uma outra situação que põe claramente a nu a ingenuidade -- ou a arrogância! -- dos que consideram a espécie humana mais apta, mais capaz, mais adaptada que outras espécies a partir das quais ela terá evoluído. Refiro-me à proverbial (e real!) incapacidade de uma criança de sobreviver por si só. Então quando as crias de tantas espécies, mal saem do ovo já estão aptas a fazer pela vida e de facto sobrevivem sem qualquer apoio dos seus progenitores, nós, humanos, que teoricamente devíamos ser mais avançados, mais capazes, mais competentes, nós que como espécie seremos das mais recentes e portanto produto de uma mais longa evolução, de um mais demorado aperfeiçoamento... não conseguimos minimamente sobreviver, logo após nascermos, sem apoios?

Dos recém-nascidos -- não serão muitos mas infelizmente são alguns -- que certas mães desesperadas deitam no lixo, porventura já algum foi visto a roer um osso, a trincar uma espinha, enfim a tentar ingerir restos de comida que pudesse encontrar no contentor onde o abandonaram para se proteger de uma carência que certamente o matará? Nenhum! E no entanto, milhares de crias de peixes, por exemplo, sabem muito bem fazê-lo! Conclusão: não nos tornámos mais aptos que essas espécies que já existiam antes de nós. Tornámo-nos menos aptos e, por isso, teoricamente, segundo Darwin, não devíamos ter sobrevivido como espécie. Em suma, com Darwin ou sem ele, vamos assumir com humildade -- uma humildade que não é bíblica nem nada tem de mística ou metafísica! -- a seguinte e indiscutível verdade: neste ponto, somos menos aptos que todos os peixinhos e muitas outras espécies não aquáticas que nos precederam na cadeia da evolução...

Lembro-me de um dia ter lido, ocasionalmente, numa revista de divulgação científica, na sala de espera do meu dentista (razão pela qual não posso citar mais precisamente a fonte) o que o autor chamava um argumento decisivo a favor do darwinismo. Era, entre outras, a questão do olho. Ele dizia que devíamos reparar na razão pela qual o olho (ou mais rigorosamente, a capacidade da visão) se desenvolveu. De facto, argumentava ele, uma espécie sem visão rapidamente se tornava presa de outra espécie com visão, o que levaria a primeira a ser aniquilada e a segunda a prosperar; pois era claro, para o referido autor, que a espécie cega não podia fugir eficazmente da espécie com vista quando esta a atacasse.

Fiquei a pensar nas espécies vegetais; e nas espécies animais herbívoras... As plantas parece-me que não têm olhos; e mesmo que os tivessem, não têm pernas para fugir. Como é que ainda se não extinguiram todas?

Não escamoteemos factos verificados experimentalmente que parecem confirmar o grande Darwin: há vírus ou bactérias que, depois de combatidos, digamos durante uma década, com medicamentos antivíricos ou antibióticos que a princípio os destroem, evoluem e tornam-se resistentes. Quer dizer, as gerações seguintes ficam invulneráveis àqueles medicamentos que aniquilaram os seus antepassados. Ora, se pensarmos um pouco, isto não confirma mas sim desmente a teoria da evolução. Porquê? Porque -- admitamos que é verdade -- um vírus ou bactéria consegue rapidamente evoluir e tornar-se mais apto a sobreviver àquilo que o envenena e mata. Mas então essa capacidade perdeu-se (em vez de se adquirir) algures na cadeia evolutiva. Como é que um vírus faz isto no espaço de uma década e nós, humanos, produto de uma evolução que a partir desses micro-organismos nos devia ter tornado muito mais aptos e versáteis, continuamos a morrer se bebermos cicuta, exactamente como morreu o Sócrates, vai para 24 séculos? Essa capacidade de produzirmos descendência mais competente do que nós a resistir àquilo que nos envenena e mata, essa capacidade que os vírus e bactérias parecem ter, nós não a temos, contra o que seria de esperar dos postulados do darwinismo. E de desejar, postulo eu!

É verdade que têm aparecido alguns seguidores de Darwin que já não acreditam tanto nele como anteriormente se acreditava. Pelo menos tentam dar umas pinceladas de alguma cor nova para retocar a sua velha história. Estou a lembrar-me de Dawkin e da sua famosa e rendosa encenação chamada o gene egoísta! Mas que grande ideia nova que ele trouxe à sociedade! Como os genes se transmitem de pais para filhos, ele coloriu esta história dizendo que eles são eternos e usam os nossos corpos como uma casa de habitação temporária: quando a casa se degrada e se desmorona eles já estão a viver numa casa mais nova. Por isso são egoístas: servem-se da casa para passar umas décadas, mas estão apenas interessados na sua própria sobrevivência. A acreditar em Dawkin, eles são, não diremos eternos, mas talvez perenes.

Será esta ideia assim tão luminosa? Como, segundo os físicos, os núcleos dos átomos ora ganham ora perdem alguns electrões que os gravitam, vamos passar a chamar-lhes núcleos egoístas: sobrevivem à custa da nuvem dos electrões mas estes passam e eles é que ficam! Ou talvez vice-versa: os electrões é que são egoístas: servem-se dos núcleos para gravitar à volta mas, se o núcleo se desintegrar, eles rapidamente encontram outro núcleo! Enfim, os próprios átomos também serão egoístas pois integram moléculas mas sobrevivem à destruição destas; apenas se servem delas enquanto lhes apetece, depois arranjam outras onde se instalarem.

Quando penso nas considerações que acabo aqui de tecer, sou incapaz de decidir quem serão os mais ingénuos: Os que levam à letra o texto do Génesis? Ou os que levam à letra Darwin e os seus continuadores?

Já não falo dos milénios desde que se escreveu a Bíblia, mas do século e meio desde que Darwin lançou o seu manifesto. Século e meio durante o qual a Santíssima Inquisição já se tinha tornado inofensiva de modo que ninguém precisa de temer acabar na fogueira por apresentar ideias que não se inspirem no Génesis. Século e meio ao fim do qual nenhuma Darwiníssima Inquisição -- das que continuam a investir na intoxicação da opinião pública em geral e da juventude escolar em particular -- pode reivindicar o direito de queimar na fogueira os hereges como eu. Sendo estas Inquisições hoje inofensivas, naturalmente me questiono: -- É só por não haver coragem, ou porque a ninguém ocorre uma alternativa melhor, que ainda não se avançou com uma teoria mais credível, enfim, sem eufemismos, com uma teoria digna da nossa época, que explique a biodiversidade com menos fantasias ou fantasias menos delirantes?

Quando criança ouvi contar (e cantar!) a história da carochinha: bonita e arranjadinha, ela procurava um noivo para casar. Ao longo da vida, percebi que história da carochinha é expressão sinónima de descrição fantasiosa ou pelo menos fantasiada. E é desta metáfora que me socorro na presença de discussões entre criacionistas e evolucionistas seguidores de Darwin.

Tenho no entanto de reconhecer que os media estão agora a começar a anunciar, com grandes trombones e trompetas, que alguns génios da Biologia -- jovem prodígio, foi como recentemente o respeitado jornal on-line ‘’Ciência Hoje’’ chamou a Kevin Foster que será um deles --já descobriram finalmente que não é só a lei dos mais aptos que condiciona a evolução das espécies! Já não era sem tempo... mas, como diz o ignorado e ignorante povo iletrado português, antes tarde do que nunca! Creio que a frase é de Saramago e eu vou apropriar-me dela: Sou um pessimista cheio de esperança! Talvez isto seja o começo do caminho para enterrar de vez a teoria dos mais aptos.

© J. M. S. Simões Pereira, 15 Novembro 2008
(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve "Convicções e Cepticismos"

 

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