domingo, 13 de junho de 2010

5 Euros por prova corrigida! Mas para mim, ZERO

E PARA MIM... NÂO VAI NADA, NADA, NADA?

Sou, como se pode ver no meu perfil, docente do Ensino Superior. Mas assumo o lugar comum: tenho por todos os que trabalham com competência e honestidade o mesmo respeito independentemente dos graus académicos.

Ora o que hoje, 13 de junho de 2010, acabo de ler na primeira página do Diário de Notícias foi uma enorme surpresa: o Ministério da Educação paga 5 euros a cada docente por prova corrigida dos exames nacionais no Ensino Básico e no Secundário!

Não vou dizer que é imerecido, acalmem-se os colegas destes níveis de ensino! Sei muitíssimo bem que é um trabalho desgastante, demorado, que não entusiasma. Por isso não direi que é errado remunerá-lo. Evidentemente que não!

O que eu digo é que, sendo verdadeira esta notícia, nós, no Ensino Superior, somos vergonhosamente explorados.

Cada um de nós tem de preparar as questões a propor aos alunos - não há nenhum GAVE a fazer-nos esse serviço - temos de as escrever no computador, temos de as imprimir e fotocopiar - não vem a GNR trazê-las à nossa porta - temos de as corrigir, e, pelo menos no meu caso, é tradicional mostrar as provas depois de corrigidas aos alunos que as quiserem ver, enfim é frequente apresentar aos alunos uma possível resolução dos problemas propostos - o que é viável na Matemática, embora não o seja, obviamente, noutras áreas.

E isto acontece uma vez no ano? Não, com a famigerada reforma de Bolonha, os alunos têm direito a avaliação contínua, que envolve além de vários minitestes durante o semestre uma chamada frequência no fim das aulas - que é um exame como outro qualquer - depois um exame chamado da época normal, depois um outro chamado da época de recurso e ainda um quarto exame - de facto este só para alunos em situações especiais - que se chama da época especial. E cada aluno não tem uma só oportunidade, atenção!

Então quanto é que nos pagam por todo este trabalho? Quero dizer, quanto é que me pagam, para falar com todo o rigor pois não estou mandatado por ninguém nem sei de facto o que se passa noutras universidades, noutros departamentos, noutras faculdades?

Pagam-me NADA ou seja, matematicamente falando, ZERO!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ciência e cultura gratuitas: Sim ou Não?

Acabo de ler um documento no Boletim Quinzenal do meu sindicato, o SNESup, em que o autor preconiza a disponibilização gratuita do conhecimento e dos bens culturais. Para ele, as músicas, por exemplo, deviam ser postas à disposição do público na Internet, sem qualquer remuneração a pagar por quem as quisesse gravar, os livros, a mesma coisa, enfim, na era das telecomunicações fáceis, a cultura e a ciência deviam ser produzidas de graça.

Espantoso que o autor desse documento não propõe -- como devia fazer para ser coerente -- que tudo o resto que se produz devia ser igualmente gratuito. Por que razão deveremos pagar o arroz, as batatas, o pão ou a fruta que comemos? Porquê pagar ao pedreiro e ao carpinteiro que produzem as casas onde moramos? Porquê pagar o petróleo e seus derivados ou quaisquer outras fontes de energia?

É certo que há sociedades que parecem viver felizes sem que os seus membros paguem serviços ou bens mutuamente fornecidos: desde a infância que admiro as formigas e as abelhas. Mas haja coerência como entre elas existe: ou se paga tudo ou não se paga nada!

E num mundo que paga, e caro, as tacadas de Tiger Woods, os xutos de Cristiano Ronaldo e as raquetadas de Serena Williams, que razão nos levará a aceitar que não se devam pagar os resultados do esforço, suor e lágrimas dos que produzem ciência e cultura?

Certamente que já houve tempos em que muitos não eram pagos pelo seu trabalho e produziram grandes obras: os escravos e servos da gleba não eram pagos e alimentaram reis, nobres, senhores feudais e grandes exércitos; e no Antigo Egipto, segundo se diz embora alguns já duvidem, terão sido escravos os que construiram monumentos que ainda lá estão, milhares de anos depois. Preconizará o autor do artigo a que me refiro a reintrodução da escravatura na sociedade do futuro da qual parece querer ser arauto? Sendo que esses novos escravos seriam os cientistas, os intelectuais, os artistas...

Temos pois um arauto do futuro a defender um regresso ao passado! E vamos com sorte, porque também nesse passado, ao qual eu não quereria regressar, cientistas e artistas não eram lá muito bem pagos. Havia alguns reis e nobres mecenas que eram mais ou menos esmoleres para os que, com música, teatro e bufonaria matavam o tédio das cortes e salões dos seus senhores. E cientistas, e também artistas, alguns o conseguiram ser porque eles próprios pertenciam a famílias nobres: nasceram ricos, não enriqueceram com o que descobriram ou criaram.

Enfim, convenhamos, pior ainda do que não ser pago é ser castigado por produzir conhecimento e cultura. Se seguirmos a proposta do autor do artigo que refiro, o primeiro passo será não ser pago; e nesse regresso ao passado o segundo passo é talvez pagar com a vida ou a liberdade a ousadia de pensar ou de produzir progresso. Não foi isso que aconteceu a Sócrates, o grego, à Hipátia de Alexandria, ao Galileu Galilei?

Ora, responder-me-á o autor do artigo, trabalhem sem ganhar e dêem-se por felizes: por enquanto ainda não preconizo para vós o destino de Sócrates, Hipátia ou Galileu!

Ze-Manel Polido

sábado, 30 de janeiro de 2010

POLIGAMIA E INCESTO: SER OU NÂO SER LIBERAL

Hoje, 14 de Fevereiro de 2010, estou a acrescentar uma nota que julgo significativa ao cartaz que aqui afixei em 30 de Janeiro passado. É que a nossa sociedade, por mais que diga o contrário, continua cheia de tabus: o texto que divulgo abaixo foi enviado a várias publicações nacionais nas secções de Fala o Leitor e quejandas. Alguém se atreveu a publicã-lo? Oh! Oh! Foi como se eu estivesse a apelar a colaboradores para alguma acção terrorista!
Leia o meu amigo o que eu escrevi e julgue por si:

Na onda de liberalização das opções sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas, ocorre-me perguntar o motivo pelo qual ainda se não iniciou a discussão da possível legalização da poligamia e do incesto.

Reproduzo um pequeno texto que escrevi há dias:

POLIGAMIA E INCESTO: LEGALIZAR OU NÃO?

Pessoalmente só tenho contra o casamento de homossexuais o nome que se lhe dá. Penso que degrada e ridiculariza o contrato que livremente estabelecem e que, tendo obviamente um enquadramento distinto do casamento tradicional, deveria também ter um nome diferente. Estranho porém não se aproveitar este momento de viragem na instituição chamada família para liberalizar e/ou legalizar outras situações muito mais frequentes e que continuam proibidas e por discutir.

Primeiro exemplo: a poligamia. A proibição de um homem ter várias esposas ou uma mulher ter vários maridos tem causado e continua a causar sofrimentos, tragédias e crimes. É uma fonte de stress para todos os envolvidos. E para quê? Quantos homens e quantas mulheres têm relações fora do casamento e não deixam de ser amorosos e atentos tanto para os cônjuges como para os amantes? Sem esquecer as festas em que casais se reúnem para trocar de parceiro sem que daí advenham más consequências. Também ao discutir a adopção por casais homossexuais, lembremos as crianças nascidas de relações poligâmicas; embora os anticoncepcionais tenham atenuado o problema, ele ainda existe e ninguém gosta de ser filho ilegítimo (bastardo era a palavra ainda pior que felizmente caiu em desuso). A legalização da poligamia porá fim a estes dramas. Na verdade há países onde a poligamia é legal e são modelares como sociedades pacíficas e de reduzidíssima violência: conheço bem o caso da Suazilândia.

Segundo exemplo: o que hoje se chama incesto. Por que não permiti-lo e legalizá-lo? Aqui argumenta-se com riscos genéticos para os descendentes desses casais. Existem de facto? No Antigo Egipto o incesto era usual e não parece que tenha levado à degradação da espécie ou à queda dessa civilização que foi a mais duradoura da História conhecida. Será outra discussão que as sociedades ditas ocidentais deverão encetar para abrir caminho a uma revolução no conceito de família em que a união legal de homossexuais é apenas um tímido começo.

Zé-Manel Polido
(Coimbra)

 

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