SEBENTAS?
A velha tradição académica coimbrã cunhou a palavra “Sebenta”. Eram folhas de apontamentos, dactilografadas, muitas vezes brochadas a imitar um livro, que procuravam reproduzir o que um professor dava nas aulas. Num tempo em que não havia fotocopiadoras para piratear edições, as sebentas sempre saíam mais baratas que as alternativas então usadas: os chamados “Tratados” – “les Traités”, quase todos de autores franceses, que eram verdadeiras enciclopédias sobre as áreas científicas que cobriam e que incluíam, quase sempre, resultados originais dos seus autores.
Entretanto o enciclopedismo morreu e agora já não há tratados; o que há são “Monografias”. Os maiores cientistas, os grandes sábios, já não escrevem tratados mas sim, em vez deles, monografias, em cada uma das quais se ocupam – com profundidade e cuidado, não o neguemos! – de um e apenas um tópico pelo qual se interessam ou interessaram.
Quanto à palavra “sebenta”, caiu em desuso. Foi substituída pela expressão, mais aristocrática, “texto de apoio”. E passou a ser frequente ser o próprio professor a redigi-lo e a afixá-lo na Internet.
Só que, por cada asneira que nos escapa quando revemos o texto de um livro a publicar em suporte de papel, há vinte que nos escapam – sem a mínima dor de consciência – quando revemos umas folhas de apoio que vamos disponibilizar na Internet. E porquê?
Porque no papel a asneira fica lá, a testemunhar a nossa incúria… ou falta de sabedoria. Na Internet apaga-se com um clique e, “não se encontrando o cadáver, é mais difícil provar que houve crime!”
Por tudo isto dou razão a um amigo que compara a sebenta – ou os textos de apoio – a um barquinho salva-vidas; e um livro – digno desse nome! – a um luxuoso navio de cruzeiro ou pelo menos a um iate privado de um qualquer multibilionário.
Porque o mercado em Portugal é pequeno e ser ou não “digno desse nome” é um qualificativo difícil de atribuir, sem contestação, a qualquer livro técnico, poucos se aventuram ao trabalho de escrever um. Até porque a escrita de uma obra dessas, que noutras épocas era a consagração de um mestre, hoje pouco pesa na avaliação da qualidade do desempenho da carreira docente universitária. Contam mais os artigos de investigação, mesmo os de poucas páginas – que sem dúvida merecem apreço, pois é com eles que a Ciência avança!
Em todo o caso não se justifica a escandalosa desvalorização do tratado que tem, a meu ver, uma dupla explicação: em primeiro lugar, para quê existirem se ninguém tem coragem de os ler? Em segundo lugar é melhor não falar neles para não termos de assumir a nossa incapacidade de os escrever!
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
TRATADOS, LIVROS, SEBENTAS, FOLHINHAS
terça-feira, 20 de julho de 2010
POBRES PROFESSORES DOUTORES!
Pobres professores do ensino superior!
Somos indiscutivelmente os trabalhadores mais mal pagos na relação salário dificuldade da carreira! E continuamos, masoquisticamente, dispostos a sacrifícios inúteis, improdutivos, ridículos.
Este cartaz nasceu por uma mensagem que, hoje, 20 de julho de 2010, acabo de receber de um colega por quem aliás tenho o maior respeito e a mais sincera admiração dado o seu curriculum científico e pedagógico. Mas a mensagem é a convocar-me para uma reunião a 3 de setembro - pasme-se! - para discutir a melhor maneira de apaparicarmos a caloirada que vai entrar na universidade no próximo ano!
Bom, não faço mais comentários! Vou transcrever a minha resposta ao colega:
++++++++++
Oh meu caro e prezado Colega:
Vamos ver se lhe consigo fazer chegar esta mensagem sem o magoar. Nós
portugueses, para nosso mal, somos uns vidrinhos, ofendemo-nos com um
mosquito, e eu, que vivi em 3 países ditos desenvolvidos, já me apercebi
que esta nossa hipersensibilidade é uma das razões pelas quais ninguém se
manifesta, ninguém dialoga, ninguém faz sugestões... e, portanto, nunca
passamos da cepa torta...
Vem isto a propósito da sua convocatória para uma reunião a 3 de setembro.
Como estou a trabalhar no duro e não vou fazer férias, por mim até podia
marcar a reunião para 15 de agosto, um dia que é feriado e é domingo!
Mas deixe-me fazer-lhe uma observação: há um ano, creio que também foi sua
a marcação de uma reunião qualquer para os primeiros dias de setembro, com
convocatória em julho; este ano a sua ‘’reincidência’’ leva-me a uma
pergunta: o que move o seu super zelo? Ainda não começaram as férias que,
na nossa profissão, ao contrário de todas as outras, nem podem ser
escolhidas por nós, e já está a lembrar-nos que temos de servir a Pátria,
''com coragem e valor'' logo a seguir a elas...
Olhe, estimado Colega por quem tenho a máxima consideração apesar de
discordar desta sua pressa: não ignore - eu sei que quem vive só na
Academia ignora muitas vezes o Mundo real, aquele que existe para além da
sala de aulas e das bibliotecas, em papel ou virtuais - não ignore que
nós, professores do ensino superior, estamos a ser profundamente
injustiçados e mal tratados. Há aspetos que têm melhorado - isso é
indiscutível! São coisas que melhoraram com o nosso esforço e a nossa
iniciativa, o nosso voluntariado, em suma. Produzimos e organizamos mais a
nível científico e didático, trazemos mais prestígio para as nossas
instituições. Mas há outros aspetos em que estamos a andar para trás. Hoje
somos trabalhadores mal pagos. Não duvido: os mais mal pagos em relação às
dificuldades da carreira! Compare com o que lhe cobra qualquer trabalhador
ou pequena empresa por reparar um cano, uma torneira ou uma tomada
elétrica, ou por lhe pintar uma parede ou desempenar uma porta! E na nossa
especialidade, Matemática, não temos sequer qualquer hipótese de obter
rendimentos extra nem, muito menos, sermos nós a fazer o preço pelo nosso
trabalho.
Ora Bolonha veio trazer, em Coimbra, um aumento enorme de trabalho
improdutivo para nós. Numa época, em que todos falam de produtividade! Por
exemplo: esta história da avaliação contínua. Já verifiquei que, na
Clássica de Lisboa, há gente que continua a fazer avaliação com um simples
exame final. Isto tudo é discutível, é verdade: eu, por exemplo, penso que
haver só um exame final estimula os alunos a aprenderem a ser responsáveis
e a gerir o seu tempo, uma competência mais valiosa para eles que saberem
o teorema de Pitágoras (o seu equivalente em espaços de Hilbert, claro)!
Os minitestezinhos só lhes prolongam a adolescência, para não dizer a
infância; e eu sei isso por experiência própria, pois o aprendi quando
tinha 14 anos e saí da infantilizante escola pública de então para uma
onde havia liberdade; e lá aprendi a saber usá-la e, consequentemente a ser
responsável.
Enfim, se leu até aqui, também já contribuí para delapidar um pouco do seu
tempo que podia ter usado em coisa mais produtiva que a ler o meu
escrito!!!
Um abraço de muita estima e consideração – apesar da discordância! – e
tenha umas boas férias. E no dia 1 de Setembro, quarta-feira, por favor
torne a mandar a convocatória para o dia 3, sexta-feira!
Renovados cumprimentos!
J. M. S. Simões Pereira
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domingo, 13 de junho de 2010
5 Euros por prova corrigida! Mas para mim, ZERO
E PARA MIM... NÂO VAI NADA, NADA, NADA?
Sou, como se pode ver no meu perfil, docente do Ensino Superior. Mas assumo o lugar comum: tenho por todos os que trabalham com competência e honestidade o mesmo respeito independentemente dos graus académicos.
Ora o que hoje, 13 de junho de 2010, acabo de ler na primeira página do Diário de Notícias foi uma enorme surpresa: o Ministério da Educação paga 5 euros a cada docente por prova corrigida dos exames nacionais no Ensino Básico e no Secundário!
Não vou dizer que é imerecido, acalmem-se os colegas destes níveis de ensino! Sei muitíssimo bem que é um trabalho desgastante, demorado, que não entusiasma. Por isso não direi que é errado remunerá-lo. Evidentemente que não!
O que eu digo é que, sendo verdadeira esta notícia, nós, no Ensino Superior, somos vergonhosamente explorados.
Cada um de nós tem de preparar as questões a propor aos alunos - não há nenhum GAVE a fazer-nos esse serviço - temos de as escrever no computador, temos de as imprimir e fotocopiar - não vem a GNR trazê-las à nossa porta - temos de as corrigir, e, pelo menos no meu caso, é tradicional mostrar as provas depois de corrigidas aos alunos que as quiserem ver, enfim é frequente apresentar aos alunos uma possível resolução dos problemas propostos - o que é viável na Matemática, embora não o seja, obviamente, noutras áreas.
E isto acontece uma vez no ano? Não, com a famigerada reforma de Bolonha, os alunos têm direito a avaliação contínua, que envolve além de vários minitestes durante o semestre uma chamada frequência no fim das aulas - que é um exame como outro qualquer - depois um exame chamado da época normal, depois um outro chamado da época de recurso e ainda um quarto exame - de facto este só para alunos em situações especiais - que se chama da época especial. E cada aluno não tem uma só oportunidade, atenção!
Então quanto é que nos pagam por todo este trabalho? Quero dizer, quanto é que me pagam, para falar com todo o rigor pois não estou mandatado por ninguém nem sei de facto o que se passa noutras universidades, noutros departamentos, noutras faculdades?
Pagam-me NADA ou seja, matematicamente falando, ZERO!

