sábado, 13 de outubro de 2012

MANUEL NETO MURTA

Recordando ainda um outro professor da minha licenciatura em Matemática, que frequentei, entre setembro de 1958 e julho de 1962, na Universidade de Coimbra: 


MANUEL NETO MURTA


Em contraste com Beda Neto, Manuel Esparteiro, Pereira Dias e Manuel dos Reis, Neto Murta estava ainda nos cinquenta e poucos anos de idade quando fui aluno dele. Era também um homem calmo e por vezes sorria, mas dava a impressão que gostava de tornar complicadas certas coisas simples, pelo prazer de valorizar a sua própria capacidade de as explicar. De qualquer modo, ficou ligado à minha carreira, pois foi quando aluno dele, em Cálculo das Probabilidades, que me indicou o primeiro livro que li de Matemática Discreta: uma obra de John Riordan, intitulada “Introduction to Combinatorial Analysis”. Matemática Discreta veio a ser o campo a que me dediquei nos meus tempos de investigador e esse livro acompanhou-me até hoje.
O professor Murta tinha feito o seu doutoramento com uma tese de Física Matemática. No 3.º ano, era ele que regia a cadeira com este nome e a matéria que ensinava estava em parte contida na sua tese. Por essa razão, a mim parecia-me aquele programa demasiadamente específico, embora não deixasse de ter interesse. Mas, como estudantes, nós gostaríamos de ter ouvido falar de temas que nesses tempos eram mais apaixonantes, como, por exemplo, a teoria da relatividade, que sabíamos ser lecionada em Lisboa.
Fosse como fosse, Neto Murta era um homem acessível, não distante como alguns outros; cheguei a conhecer a sua esposa, uma senhora muito simpática e dotada de grande simplicidade. Não tinham filhos, mas tinham sobrinhos. Creio que um deles é hoje um dos mais prestigiados médicos oftalmologistas de Coimbra.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

LUIS ALBUQUERQUE


Mais um professor da então chamada Secção de Matemática da Universidade de Coimbra, de quem fui aluno quando tirei a licenciatura entre 1958/59 e 1961/62:


LUIS ALBUQUERQUE


Luís Albuquerque era professor de Matemática e, consequentemente, era de esperar que a sua área de investigação e docência fosse a Matemática. Ele foi de facto, no início da carreira, coautor (com João Farinha, um assistente da Faculdade de Ciências, falecido relativamente novo, e que eu já não conheci) de duas boas coletâneas de problemas que nós usámos, como estudantes:
1) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Álgebra e Geometria Analítica", volumes I e II, Coimbra Editora, Lda. 1947/48;
2) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Geometria Descritiva", Atlântida, Coimbra, 1951.
Curiosamente, neste último, indica-se uma lista de publicações anteriores de Luís Albuquerque, incluindo um livro de 150 páginas intitulado "Algumas Propriedades dos Conjuntos de Espaços Abstratos", edição da Empresa Guedes, Porto, 1944, e um opúsculo sobre história da Matemática, aos quais não tive acesso.
Como seu aluno lembro-me dele como um homem um pouco frio, embora extremamente educado e acessível: estive, algumas vezes em sua casa. Sublinho que, quando eu era estudante universitário, os professores não tinham gabinetes de trabalho na Faculdade, nem obviamente a legislação exigia -- nem podia exigir -- que os docentes tivessem horários para atendimento dos alunos. Assim, era nos intervalos entre duas aulas que podíamos trocar umas breves impressões para esclarecer alguma dúvida ou pedir indicações bibliográficas. Quando queríamos falar mais demoradamente com algum professor, pedíamos-lhe que nos recebesse em sua casa; é verdade, porém, que só os bons alunos tinham coragem para fazer tais pedidos.
Luís Albuquerque era um homem com uma vasta cultura histórica e, a partir de certa altura, a sua atividade centrou-se essencial, para não dizer exclusivamente, na História dos Descobrimentos, uma área onde a sua ação foi notabilíssima. A obra de investigação que nos legou foi sobretudo nesta área. Dinamizou um Centro de Estudos do Mar e das Navegações que veio a chamar-se Luís Albuquerque quando, mais tarde, Alfredo Pinheiro Marques o dirigiu, mas que, infelizmente, me parece que estiolou em anos recentes.
Apesar dos seus interesses se terem claramente desviado da Matemática, apoiou diversos estudantes no início das respetivas carreiras de investigação. Tinha-se dedicado à teoria das matrizes e teve seguidores que vieram a doutorar-se nessa área como o meu contemporâneo e amigo Graciano Neves de Oliveira, um investigador ativo e prolífico que por sua vez entusiasmou outros e veio a criar uma notável escola em matrizes centrada em Coimbra, mas que ultrapassou fronteiras. Se o Graciano foi pai e obreiro dessa escola, Albuquerque teve nela sem dúvida o papel tutelar de seu avô.
Mencionemos enfim a sua atividade política. Homem de esquerda, foi Governador Civil de Coimbra no pós-25 de Abril, um cargo que, não duvido, ocupou muito do seu tempo e o afastou da universidade no último período da sua atividade como professor.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

LUÍS BEDA DE SOUSA TAVARES NETO


Hoje mais um professor da minha licenciatura em Matemática em Coimbra entre 1958/59 e 1961/62


Luís Beda de Sousa Tavares Neto



Nós, os alunos, não conhecíamos o seu nome completo. Todos o referíamos como Professor Beda Neto. Dava Álgebra Superior ao 2.º ano e Análise Superior ao 3.º, duas cadeiras, ambas anuais.
Nos exames, não era temido como o Manuel Esparteiro nem tinha a fama de generoso que tinha o Pacheco de Amorim. Era medianamente exigente e as matérias que ele ensinava não eram extensas.
Víamo-lo como um homem fechado, um homem que parecia viver num espaço limitado. Dir-se-ia que sentia alguma frustração. O tratado que naquela época era a referência principal para o estudo da Análise era da autoria de um francês, de nome Goursat. Lembro-me de ele me dizer um dia que tinha também projetado, ou talvez mesmo começado a escrita de uma emulação do Goursat… um Goursazinho foi a expressão que ele usou; começava com a sua tese de doutoramento que ele teria desenvolvido posteriormente. Mas nunca chegou a publicar. Era essa sua fragilidade que me tocou: apesar de minha juventude  eu não tinha nem sequer 20 anos  senti pena daquele senhor que assim me confessava um sonho que não teve coragem de realizar.
Além das suas dissertações, não sei de quaisquer outros trabalhos científicos que tenha publicado. E mesmo como responsável pela cadeira de Álgebra Superior, não tinha admiradores; havia quem considerasse que a matéria por ele dada não seria a mais adequada: a álgebra clássica, já nós a conhecíamos das Matemáticas Gerais do 1.º ano; seria de esperar, diziam os seus detratores, que ele desse o que então se chamava a álgebra moderna, a teoria dos grupos, anéis e corpos que o colega da Universidade de Lisboa dava na cadeira com o mesmo nome. Era mais uma razão que o apagava; não adivinho, se ele tinha ou não conhecimento destas críticas.
E apagado sempre ele foi até ao fim; quando se jubilou, diz-se que terá ido viver para fora de Coimbra, na casa de uma sobrinha. E nunca mais, ninguém ouviu falar dele.



 

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