sábado, 13 de outubro de 2012

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

Há duas afirmações a respeito da crise que se sente em Portugal e noutros países europeus de cuja validade estou convencido:
1) A crise é provocada por aqueles que, caso o euro sobreviva, receiam a perda da influência e do poder do dólar a nível internacional;

2) A crise terminará imediatamente quando esses mesmos se convencerem que o euro vai sobreviver e, portanto, as suas maquinações são inúteis.
Não afirmo que seja o povo americano que quer destruir o euro; nem o Presidente Obama ou o candidato republicano, seu adversário na eleição que se aproxima. São os senhores do dólar, cujos nomes o grande público nem conhece, talvez os grandes grupos financeiros, ou Wall Street, ou os grandes bancos, talvez um Goldman Sachs de que fala o número de 11 a 17 de Outubro da revista Sábado.
Não se compreende que as agências que desacreditam as dívidas dos países europeus… sejam todas americanas! Porque não existe uma agência de rating europeia que analise a dívida soberana dos EUA? Ou uma sedeada nos países do euro que avalie a dívida soberana do Reino Unido?
Já vimos os senhores do dólar pretenderem que a China altere a paridade da sua moeda, o renmimbi. Esta tentação dos poderosos dos EUA de moldarem o Mundo à conta dos seus interesses, é óbvia. Já todos o sabemos, olhando as suas campanhas militares. Como intervenções militares na Europa seriam o cúmulo do absurdo, a alternativa que lhes resta é o ataque ao euro, procurando desfazer a união entre os países que o adotaram, acometendo em primeiro lugar, como é evidente, os que são mais fracos. Fator poderoso de união, a moeda única é um passo de enorme significado para a criação dos Estados Unidos da Europa, que urge concretizar.
No dia em que os senhores do dólar perceberem que o euro não morrerá, nesse mesmo dia a crise que hoje vivemos acabará. Nós, simples cidadãos a sofrer, na pele, as consequências do egocentrismo deles, só esperamos que os responsáveis europeus compreendam, tão bem como nós, essas manipulações, e avancem no único caminho que permitirá à Europa continuar o seu papel no Mundo: a união política e monetária com um enquadramento fiscal equitativo tão homogéneo quanto possível.
Termino com uma nota de otimismo: Quando a crise acabar, haverá um período de desenvolvimento e prosperidade, pois os senhores do dólar, vendo que não destruíram o euro, vão seguir o velho provérbio que diz “se não os podes vencer, junta-te a eles.”
Na Europa, não há muito mais tempo a perder!
2012-10-13
J. M. S. Simões-Pereira

MANUEL NETO MURTA

Recordando ainda um outro professor da minha licenciatura em Matemática, que frequentei, entre setembro de 1958 e julho de 1962, na Universidade de Coimbra: 


MANUEL NETO MURTA


Em contraste com Beda Neto, Manuel Esparteiro, Pereira Dias e Manuel dos Reis, Neto Murta estava ainda nos cinquenta e poucos anos de idade quando fui aluno dele. Era também um homem calmo e por vezes sorria, mas dava a impressão que gostava de tornar complicadas certas coisas simples, pelo prazer de valorizar a sua própria capacidade de as explicar. De qualquer modo, ficou ligado à minha carreira, pois foi quando aluno dele, em Cálculo das Probabilidades, que me indicou o primeiro livro que li de Matemática Discreta: uma obra de John Riordan, intitulada “Introduction to Combinatorial Analysis”. Matemática Discreta veio a ser o campo a que me dediquei nos meus tempos de investigador e esse livro acompanhou-me até hoje.
O professor Murta tinha feito o seu doutoramento com uma tese de Física Matemática. No 3.º ano, era ele que regia a cadeira com este nome e a matéria que ensinava estava em parte contida na sua tese. Por essa razão, a mim parecia-me aquele programa demasiadamente específico, embora não deixasse de ter interesse. Mas, como estudantes, nós gostaríamos de ter ouvido falar de temas que nesses tempos eram mais apaixonantes, como, por exemplo, a teoria da relatividade, que sabíamos ser lecionada em Lisboa.
Fosse como fosse, Neto Murta era um homem acessível, não distante como alguns outros; cheguei a conhecer a sua esposa, uma senhora muito simpática e dotada de grande simplicidade. Não tinham filhos, mas tinham sobrinhos. Creio que um deles é hoje um dos mais prestigiados médicos oftalmologistas de Coimbra.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

LUIS ALBUQUERQUE


Mais um professor da então chamada Secção de Matemática da Universidade de Coimbra, de quem fui aluno quando tirei a licenciatura entre 1958/59 e 1961/62:


LUIS ALBUQUERQUE


Luís Albuquerque era professor de Matemática e, consequentemente, era de esperar que a sua área de investigação e docência fosse a Matemática. Ele foi de facto, no início da carreira, coautor (com João Farinha, um assistente da Faculdade de Ciências, falecido relativamente novo, e que eu já não conheci) de duas boas coletâneas de problemas que nós usámos, como estudantes:
1) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Álgebra e Geometria Analítica", volumes I e II, Coimbra Editora, Lda. 1947/48;
2) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Geometria Descritiva", Atlântida, Coimbra, 1951.
Curiosamente, neste último, indica-se uma lista de publicações anteriores de Luís Albuquerque, incluindo um livro de 150 páginas intitulado "Algumas Propriedades dos Conjuntos de Espaços Abstratos", edição da Empresa Guedes, Porto, 1944, e um opúsculo sobre história da Matemática, aos quais não tive acesso.
Como seu aluno lembro-me dele como um homem um pouco frio, embora extremamente educado e acessível: estive, algumas vezes em sua casa. Sublinho que, quando eu era estudante universitário, os professores não tinham gabinetes de trabalho na Faculdade, nem obviamente a legislação exigia -- nem podia exigir -- que os docentes tivessem horários para atendimento dos alunos. Assim, era nos intervalos entre duas aulas que podíamos trocar umas breves impressões para esclarecer alguma dúvida ou pedir indicações bibliográficas. Quando queríamos falar mais demoradamente com algum professor, pedíamos-lhe que nos recebesse em sua casa; é verdade, porém, que só os bons alunos tinham coragem para fazer tais pedidos.
Luís Albuquerque era um homem com uma vasta cultura histórica e, a partir de certa altura, a sua atividade centrou-se essencial, para não dizer exclusivamente, na História dos Descobrimentos, uma área onde a sua ação foi notabilíssima. A obra de investigação que nos legou foi sobretudo nesta área. Dinamizou um Centro de Estudos do Mar e das Navegações que veio a chamar-se Luís Albuquerque quando, mais tarde, Alfredo Pinheiro Marques o dirigiu, mas que, infelizmente, me parece que estiolou em anos recentes.
Apesar dos seus interesses se terem claramente desviado da Matemática, apoiou diversos estudantes no início das respetivas carreiras de investigação. Tinha-se dedicado à teoria das matrizes e teve seguidores que vieram a doutorar-se nessa área como o meu contemporâneo e amigo Graciano Neves de Oliveira, um investigador ativo e prolífico que por sua vez entusiasmou outros e veio a criar uma notável escola em matrizes centrada em Coimbra, mas que ultrapassou fronteiras. Se o Graciano foi pai e obreiro dessa escola, Albuquerque teve nela sem dúvida o papel tutelar de seu avô.
Mencionemos enfim a sua atividade política. Homem de esquerda, foi Governador Civil de Coimbra no pós-25 de Abril, um cargo que, não duvido, ocupou muito do seu tempo e o afastou da universidade no último período da sua atividade como professor.

 

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