Já em vários momentos da minha vida mencionei pessoas que me deixaram saudades: a minha tia-avó Conceição Mendes Correia de Lemos, o meu Pai, José Simões Pereira Júnior, e a Maria da Assunção Ferreira que foi uma espécie de ama para mim.
Da minha tia recordo uma afirmação que fez, como se me dissesse um segredo:
“Ó Zé Manel, Zé Manel, o fim da vida é muito triste!”
Foi quase uma confidência. Falava como pessoa que tinha vivido momentos alegres, pois só quem viveu momentos felizes pode compará-los com outros que o não foram!
Quando jovem, tinha tido amigas com quem se divertiu, é claro que dançou, ouviu música, passeou… Mas eu já sabia, quando ela me falou, que também tinha tido perdas na vida: sem filhos, com duas irmãs falecidas, uma com uns trinta outra com uns quarenta anos, viúva, o irmão emigrante no Brasil num tempo em que não havia telemóveis, skypes, emails, nem sequer carreiras aéreas diárias, pois era de barco que se viajava…
Enérgica, administrava as suas
fazendas acompanhando os trabalhadores rurais que as cultivavam, levantando-se
às seis da manhã para ir a pé visitá-las, algumas a um ou até dois quilómetros
de casa.
Por essa altura, ela tinha uma consciência clara da sua idade. Um dia,
viajou connosco até à Figueira da Foz. Quando íamos regressar a Coimbra de onde
ela seguiria depois para a sua casa em Travanca de Lagos, lembro--me de a ouvir
apelar à sua veia poética e dizer:
“Adeus, mar, até à eternidade!”
Não sei se
foi então que esteve realmente pela última vez à beira-mar; talvez até nem
fosse; mas acompanhei-a sentindo um pouco da sua nostalgia.
E quantas incompreensões de sobrinhos ela sofreu, ela que tinha sempre a
porta aberta para receber todos os que a procurassem!
Era em casa dela, em
Travanca, concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, que eu e minha mãe
passávamos o mês de setembro mais uns dias no Natal, todos os anos, e era ali,
na Beira, que nos reuníamos com primos nossos e outros sobrinhos dela, mas
quantas vezes essas reuniões degeneravam em mal-entendidos! Nunca isso a levou
a evitar a presença de todos!
Minha querida Tia Conceição, que bem que eu hoje te compreendo!
Obrigado
pelo que me ensinaste da vida, com a confidência que acima recordo e outras
frases que te ouvi dizer:
com a tua tolerância, a tua paciência, a coragem de
manteres a tua convicção nos valores da família, pois tinhas consciência que
não há ninguém perfeito, a abertura ao diálogo, a capacidade de sofreres por
esses valores em que acreditavas.
E a par com tudo o mais, recordo a amizade e gratidão
que tinhas pelo meu pai, outra pessoa que, como digo, me deixou profundas
saudades. Médico que era, várias vezes te tratou e te aconselhou, com a
prudência e a humanidade que sempre o orientavam.
Agora sou eu que digo: – Adeus, tia, até à eternidade!