domingo, 2 de julho de 2017

CONSELHOS MATERNOS


SER PRODÍGIO E SER “ENCOLHAS”



- Que importa seres um prodígio, se fores um “encolhas”?


Esta questão foi-me posta por minha mãe, teria eu uns 15 anos. Expliquemos: eu era um aluno brilhante na escola que frequentava, com classificações altíssimas em todas as disciplinas, exceto no desenho livre. Era realmente considerado um aluno prodigioso. Mas – e aqui está um defeito que a minha mãe não tolerava – era muito tímido! Ser encolhas era e é uma expressão popular que significa ser tímido.

E qual a razão pela qual eu era tímido? As raízes dessa timidez estão num pequeno incidente, tinha eu uns 5 anos. Uma amiga de uma tia minha, a minha saudosa tia Alcina, casada com o meu tio Rui, irmão da minha mãe, trouxe-me um pequeno presente, talvez de aniversário. Eu já sabia agradecer; e por isso entrei na sala onde a dita senhora estava conversando com a minha mãe e disse-lhe: - Muito obrigado!

A referida senhora rebentou num grito despropositado, acompanhado por uma espécie de gargalhada: - “Ai coitadinho, já sabe dizer obrigado!” E voltando-se para mim, acrescentou: - Mas o presente, não sou eu que to dou! Vem da tua tia Alcina!

Eu achei que aquele grito horrível e aquele “coitadinho” eram um insulto e fiquei a partir daí com uma terrível inibição! Realmente, “coitadinho de mim!”.

Não se lembrando desta história ou até talvez desconhecendo-a totalmente, a minha mãe queria, mais tarde, fazer de mim um jovem desenvolto, um “homem da sociedade” como ela dizia, conhecedor das regras de convivência usadas na alta sociedade de então. O que exigia, obviamente, que eu não fosse tímido; na alta sociedade era preciso saber entrar com passo firme e cabeça erguida embora sorrindo ligeiramente – só ligeiramente, sublinhe-se – num qualquer salão… As senhoras casadas cumprimentavam-se de beija-mão! As solteiras, não, claro! E saber beijar a mão das senhoras com elegância, sem sugerir – nem de longe – subserviência era uma arte que tínhamos de aprender, nós os meninos das famílias da tal alta sociedade. E é que, quando a minha mãe me interpelou como acima refiro, havia meninos que já o faziam muito bem. Mas eu, ainda não!

Por todas estas razões, resolvi mesmo deixar de ser “encolhas”. Metodicamente, organizei um esquema para ir vencendo os obstáculos que me impediam de ser desenvolto: escrevia mesmo um diário onde apontava as experiências, os episódios, os meus progressos e fracassos. Encontrei há tempos esse diário no meio de velhos papéis. Talvez seja um documento para estudos de Psicologia. O essencial é que venci, talvez não possa dizer a cem por cento, pois ainda hoje há momentos em que me desagrada atuar; mas são muito poucos, e, em geral, até há quem me acuse de falar demais!

Sou pois um caso de um “encolhas” que virou “descarado”! Prodígio é que infelizmente já não sou: competente e honesto na minha profissão, isso sim, sem dúvida, mas génio, de facto, não vim a ser!



quinta-feira, 22 de junho de 2017

Sou uma Celebridade! Sou um famoso!

Este poster é dirigido a três pessoas que entram infinitas vezes neste blog e que me conhecem pessoalmente, mas que pretendem esconder a sua identidade.  


Orgulha-me imenso - a sério que me orgulho! - que certas pessoas que vivem em certas localidades um bocado até afastadotas de onde eu vivo entrem desesperadamente nos meus blogues.

Querem saber tudo sobre mim. Não se me dirigem habitualmente, não me dão notícias delas, mas seguem-me aqui.  

Muito bem! Sinto-me uma celebridade, um famoso: como acontece com as celebridades, há quem queira saber onde passei a tarde ou a manhã, onde tomei o pequeno-almoço e onde jantei, se andei de calças, de calções ou – quem sabe? – de cuecas...

Pobres pessoas que assim se diminuem!

Preocupam-se tanto comigo que a vida própria delas fica para trás: é claro que depois têm de se pendurar nos que trabalham!

Boa noite, boa tarde ou bom dia, conforme a hora no sítio onde está a ler-me!




terça-feira, 21 de março de 2017

CONCEIÇÃO MENDES CORREIA DE LEMOS

Já em vários momentos da minha vida mencionei pessoas que me deixaram saudades: a minha tia-avó Conceição Mendes Correia de Lemos, o meu Pai, José Simões Pereira Júnior, e a Maria da Assunção Ferreira que foi uma espécie de ama para mim.

Da minha tia recordo uma afirmação que fez, como se me dissesse um segredo: 

“Ó Zé Manel, Zé Manel, o fim da vida é muito triste!” 

Foi quase uma confidência. Falava como pessoa que tinha vivido momentos alegres, pois só quem viveu momentos felizes pode compará-los com outros que o não foram! 



Quando jovem, tinha tido amigas com quem se divertiu, é claro que dançou, ouviu música, passeou… Mas eu já sabia, quando ela me falou, que também tinha tido perdas na vida: sem filhos, com duas irmãs falecidas, uma com uns trinta outra com uns quarenta anos, viúva, o irmão emigrante no Brasil num tempo em que não havia telemóveis, skypesemails, nem sequer carreiras aéreas diárias, pois era de barco que se viajava… 


Enérgica, administrava as suas fazendas acompanhando os trabalhadores rurais que as cultivavam, levantando-se às seis da manhã para ir a pé visitá-las, algumas a um ou até dois quilómetros de casa.

Por essa altura, ela tinha uma consciência clara da sua idade. Um dia, viajou connosco até à Figueira da Foz. Quando íamos regressar a Coimbra de onde ela seguiria depois para a sua casa em Travanca de Lagos, lembro--me de a ouvir apelar à sua veia poética e dizer: 

“Adeus, mar, até à eternidade!” 

  

Não sei se foi então que esteve realmente pela última vez à beira-mar; talvez até nem fosse; mas acompanhei-a sentindo um pouco da sua nostalgia.

E quantas incompreensões de sobrinhos ela sofreu, ela que tinha sempre a porta aberta para receber todos os que a procurassem! 

Era em casa dela, em Travanca, concelho de Oliveira do Hospital, na Beira Alta, que eu e minha mãe passávamos o mês de setembro mais uns dias no Natal, todos os anos, e era ali, na Beira, que nos reuníamos com primos nossos e outros sobrinhos dela, mas quantas vezes essas reuniões degeneravam em mal-entendidos! Nunca isso a levou a evitar a presença de todos!

Minha querida Tia Conceição, que bem que eu hoje te compreendo! 

Obrigado pelo que me ensinaste da vida, com a confidência que acima recordo e outras frases que te ouvi dizer: 
com a tua tolerância, a tua paciência, a coragem de manteres a tua convicção nos valores da família, pois tinhas consciência que não há ninguém perfeito, a abertura ao diálogo, a capacidade de sofreres por esses valores em que acreditavas. 
E a par com tudo o mais, recordo a amizade e gratidão que tinhas pelo meu pai, outra pessoa que, como digo, me deixou profundas saudades. Médico que era, várias vezes te tratou e te aconselhou, com a prudência e a humanidade que sempre o orientavam.


Agora sou eu que digo: – Adeus, tia, até à eternidade!