JÚLIO CORREIA FORTUNATO
Foi ontem, 3 de agosto de 2017, que voltei a entrar no que foi a Quinta dos
Cedros, herança do meu avô paterno mas com este nome escolhido pela minha mãe,
em Vendas de Ceira, próximo de Coimbra.
E tu, meu caro Júlio, tinhas de reaparecer
na minha memória: foste o último guardião, verdadeiro cuidador, do que foi
aquela bela quinta, para a qual também contribuí sugerindo a plantação de dois
ciprestes que ainda lá continuam, exibindo a sua elegância de árvores altas e
esguias.
Há quem as associe a cemitérios mas à nossa família não trouxeram
morte, pelo menos nos 20 anos que se seguiram à sua plantação… Todos os dias, meu
prezado amigo, vinhas, a pé, da tua casa nos Braçais até à nossa quinta, uns
três ou quatro quilómetros; talvez esse exercício físico, conjugado com o
trabalho dos teus músculos na agricultura, tenha mantido a tua saúde e
prolongado a tua vida.
Olhando a velha casa da quinta, já há muito tempo eu vejo o seu telhado
ameaçando ruína; agora emprestada gratuitamente a uma senhora conhecida,
natural da aldeia, eu já lá tinha entrado e visto como peças valiosas de
mobiliário tinham desaparecido, desde o enorme relógio de pêndulo que em Inglês
se diria um grand-father’s clock, até
aos dois enormes armários sobrepostos da sala de jantar com o topo do superior
encostado ao teto, enfim o arquivo do escritório onde tantos antigos documentos
se guardavam.
E na cave, havia uma marquesa
ginecológica, vinda do consultório do meu pai, que talvez por ser metálica (e o
metal vende-se a peso) também sumiu, substituída agora por um colchão onde vem
dormir - quem sabe? - algum vagabundo… embora me afirmem que
não há sem abrigos nas redondezas.
A porta da cave não se fecha… e, no cimo da
quinta, há um portão que também não se fecha.
Tentei ontem percorrer a quinta; ela está agora, em todos os sentidos,
impenetrável. Irreconhecível! Até o antigo galinheiro me pareceu, à primeira
vista, um muro que dantes não existia. Impressiona!
É um modelo de floresta
virgem, um mundo de silvas, onde os antigos caminhos que a atravessavam em todas
as direções desapareceram, apenas nalguns pontos dispersos ainda vemos os
restos de uma ou outra linha de tijolos que os delimitava.
Meu caro Júlio, tu tinhas amor àquela quinta, tu fazias tudo para manter o
terreno impecável, todos os bocadinhos estavam aproveitados; e aqueles seus três
poços, tinham todos água. No que fica na zona superior da quinta, a máquina que
trazia a água lá do fundo estava preparada para ser movida por um jumento que
andava à roda do poço. No teu tempo, Júlio, já não havia jumento para puxar a
água e, se bem me recordo, já não se utilizava a água desse poço! Mas o muro em
círculo ao redor ainda hoje lá está.
E há algures uma pintura (ou fotografia?)
onde se via a minha avó paterna encostada ao muro, juntamente com o meu pai.
Havia um segundo poço a meio da quinta, este sem qualquer resguardo, só
rodeado por uma pequena sebe; era mesmo um perigo para crianças imprudentes,
mas, felizmente, nunca houve qualquer acidente.
Enfim o terceiro poço era o mais próximo da habitação, a água que se
aproveitava era erguida por uma bomba elétrica, armazenava-se num tanque ali
mesmo ao lado, e a boca do poço estava, e continua a estar, tapada por uma
placa de cimento; para evitar o perigo de alguém cair lá dentro!
Quanto ao
tanque, tinha sempre água límpida: regavas os terrenos próximos com aquela água
e ias varrendo o fundo do tanque de vez em quando para o manter limpo. Tanto
mais que havia bambus e árvores ao redor, das quais caíam folhas.
Todas as semanas, eu te visitava. Era uma rotina. Pagava-te o trabalho da
semana e despesas que houvesse, recebia algum dinheiro de coisas que vendias,
hoje uns litros de vinho, ontem umas alfaces, conversávamos um pouco… E havia
uma vizinha que guardava ovos para nós: a minha mãe não confiava muito nos ovos
comprados no mercado ou mercearias – a ASAE ainda não existia – por isso ela
preferia consumir os que lhe fornecia a vizinha, por serem de mais confiança. E
tu ias à vizinha buscar os ovos e levar o dinheiro para lhos pagar, claro!
Um dia adoeceste. O prognóstico era grave mas tu recusaste qualquer
intervenção terapêutica. Realmente, ainda continuaste a trabalhar com o ânimo
de sempre. Creio que durante vários anos. Por fim, um dia, as forças falharam
de vez… e não mais voltaste à quinta.
Eu continuei a ir visitar-te à tua casa,
nos Braçais, e a levar-te a semanada; não é que tu precisasses dela; é justo acrescentar
que tu recebias já há tempos uma pequena mas condigna reforma da Segurança
Social! Mas eu quis que sentisses que a tua presença neste mundo mantinha para
mim o mesmo valor; por isso continuei a levar-te a semanada! No fundo era como
se te pagasse essa tua presença no mundo.
Quando enfim partiste para não
voltares, nem à nossa quinta nem à tua casa em Braçais, senti a tua falta; e
ainda hoje a sinto.
Meu caro Júlio:
- Que exista o Paraíso e te sintas feliz nele, como
creio que te sentias na nossa quinta!
Figueira da Foz, 5 de agosto de 2017





