sexta-feira, 6 de abril de 2018

VERSOS



POESIA ou VERSOS?

Quando frequentei a escola, falaram-me de alguns poetas e das suas obras. Camões, por exemplo, e os seus Lusíadas, tão ao gosto do tempo salazarista, mas não só, claro; também de Guerra Junqueiro, António Nobre, Antero de Quental, Florbela Espanca de todos estes me falaram; António Aleixo, não recordo se o mencionaram, mas também o conheço desde há muito! Mostraram-me ou li versos destes todos!

Havia sempre naqueles versos algo que era difícil de imitar: tinham rima e métrica! A isso tudo se chamava Poesia.

Ora hoje a Poesia não é o mesmo que versos! A poesia contemporânea não tem rima nem tem métrica. Mais inesperado ainda: não se percebe o que diz, que mensagem traz, é constituída por frases metafóricas, sequências de palavras que podiam ter sido geradas por um sistema aleatório.

Alguns admiram quem escreve mensagens confusas e indecifráveis, há os que dizem ser bonito, genial, que é profundo.  

Por mim, já experimentei escrever poesia e também escrever versos. 

Não duvido agora que escrever frases sem sentido, sem métrica, sem rima é bem mais fácil que escrever um soneto.

Coimbra, 30 de setembro de 2017.




https://www.atariarchives.org/deli/write_about_itself.php

http://www.ubu.com/historical/racter/


 https://en.wikipedia.org/wiki/Computational_creativity

domingo, 25 de fevereiro de 2018

AO MEU AVÔ MATERNO




AO MEU AVÔ MATERNO, Dr. MANUEL DOS SANTOS MADEIRA

Não sei porquê, mas há momentos lembrei-me de ti, Avô! Eras um homem culto, dono de uma biblioteca notável, bacharel em Direito e em Farmácia, mas até tratados de Matemática tu tinhas nas tuas estantes: um deles veio parar às minha mãos, é um volume, com mais de 500 páginas, do curso de Análise Infinitesimal da autoria do notável matemático F. Gomes Teixeira, sexto volume das obras completas deste autor, publicado em 1912 pela imprensa da Universidade de Coimbra, por ordem do Governo Português! Tu, Avô, foste antigo estudante desta universidade, a única portuguesa quando eras jovem, e muito ativo na vida política dos universitários de então: o teu nome aparece na lista dos estudantes, os chamados Intransigentes, que atuaram numa intervenção um pouco revolucionária do princípio do Século XX. Sei isto porque o li no livro de Alberto Xavier, História da greve académica de 1907, Coimbra Editora, 1962 (Ver página 280).

Lembrei-me também especialmente do que deves ter sofrido porque tanta gente antipatizava contigo, a meu ver, hoje, sem qualquer fundamento.

Foste casado com a minha Avó Carolina e ficaste viúvo porque ela faleceu relativamente jovem. Parece que na família acharam que tu não sofreste com a falta dela. Seria assim?

A minha querida tia Conceição, que eu tenho recordado com muita simpatia, tua cunhada, era uma das pessoas que não falava contigo. E até a empregada (ou criada, como então se dizia), também chamada Conceição, que vos serviu durante anos e anos e veio depois a ficar servindo os meus pais, até ela tinha por ti uma certa antipatia. Foi visitar-te quando tu, já nos oitenta e muitos, estavas gravemente doente, a caminho do teu fim. Parece que lhe terás dito qualquer coisa como: - “Obrigado pela visita, Conceição, já vieste tarde!”

Eu tinha 11 anos quando tu faleceste, e só então vim a perceber o motivo destas antipatias. Espantoso, dir-se-á, mas parece que tu, como responsável por uma instituição de assistência, terás entusiasmado a frequentar a escola duas jovens entradas na instituição em quem notaste certa capacidade para aprender; e isso, num país que então teria mais de 85 por cento de analfabetos felizes, levantou suspeitas de que tu as querias seduzir como amantes! E se fossem dois rapazes, diriam que tu eras homossexual?

Sabes, querido Avô, eu hoje compreendo que se sofre quando todos nos hostilizam sem nós percebermos que mal lhes fizemos. Penso que era o teu caso. Mas afinal, tu tinhas sensibilidade para o que os outros sentiam. Repara que eu era muito miúdo, o meu pai estava doente e tu vieste visitá-lo. Foi na nossa quinta de Ceira. Era Natal. Alguém mencionou o facto de todas as crianças pedirem prendinhas ao Menino Jesus (ainda não estava na moda o Pai Natal), subentendendo-se que, por certo, eu também as pedia, totalmente despreocupado com a doença do meu pai. E nessa altura, ouvi-te dizer: - “A prenda que ele mais deseja é por certo ver o pai com saúde.” E era, eu já tinha rezado muito, pedindo a Deus que a minha prenda fosse essa mesmo. Nunca esse momento me esqueceu, um momento em que um homem de oitenta anos se apercebe, sem que alguém lho diga, dos desejos de um neto com cinco ou seis.

Obrigado, querido Avô, não te agradeci na altura e hoje já não me podes ouvir. Mas estás no meu coração!
Escrito em Newark, Delaware, 4 de julho de 2017

Publicado em Coimbra



terça-feira, 14 de novembro de 2017

AO MEU TIO-AVÔ

José Correia de Lemos
e a sua foto de 1928


Foi um querido tio-avô, casado com a Conceição Mendes Correia de Lemos, uma irmã da minha avó materna, de quem já falei neste blogue.

Guardo destes meus tios as mais ternas recordações. Há poucos dias, estive em Travanca de Lagos (concelho de Oliveira do Hospital) e vi as ruínas da casa que foi deles: nela veio a funcionar um lar de idosos da Fundação Sara Beirão que encerrou para fazerem obras na casa; há poucos dias, ela ardeu e dela agora só restam as paredes. Impressionante! 
E o curioso é que, no dia seguinte, encontrei num monte abandonado de fotografias, uma, aliás rasgada ao meio, mas reconstituível, do meu tio José Correia de Lemos. 
Foi oferecida à sobrinha dele e minha mãe, a quem a família chamava Bita, com a seguinte dedicatória: 
“À Bita, com muita amizade do tio José Correia de Lemos. Travanca 8-8-1928”
Por baixo uma nota onde escreve “Bordo “Monte Olívia” em Janeiro 1928”, obviamente a data em que a fotografia foi tirada, a bordo do navio que o transportaria do Brasil para Portugal. A data 8-8-1928 foi a do dia em que ofereceu a foto; a minha mãe tinha feito 18 anos umas semanas antes, mais precisamente a 15 de julho de 1928.

                           
                Navio Monte Olivia: ver em: http://www.novomilenio.inf.br/rossini/molivia.htm

Tive a curiosidade de ir à Internet procurar o nome do transatlântico em que ele viajou: ele foi emigrante no Brasil, num tempo em que os portugueses iam ao Brasil enriquecer! 
Encontrei a informação que tal barco foi usado entre 1924 e 1945 e fazia a carreira Hamburgo – Lisboa -  Rio de Janeiro – Santos, na melhor das hipóteses, provavelmente uma vez por mês. 

O meu tio aparece sentado, com ar de homem ainda jovem, ou talvez já de 40 anos, calças e casaco de cor clara, camisa branca, sem gravata, mas com lacinho, moda aristocrática daquele tempo. 

Faltavam décadas até haver carreiras aéreas diárias cruzando o Atlântico numa rotina que se tornou banal.

Ainda conheci este tio, quando, já de certa idade, veio a acabar os seus dias em Travanca, ao lado da sua esposa. Gostei dele. 
Viveu ainda bastantes anos, embora com doenças que o debilitaram, como tromboses, problemas de rins, de circulação e de coração: aliás o meu pai, entre outros médicos, também o foi tratando.

Presto-lhe aqui uma homenagem de amizade e saudade. E ao vê-lo viajando a bordo de um navio, não me posso impedir de meditar no que pensarão, daqui a noventa anos, os que virem fotos nossas tiradas agora…
 Coimbra, 2017-11-09