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Sucesso e Generosidade
Vamos recordar aqui o primeiro daqueles períodos que abrangem a vida
mais ativa como profissional., ou seja, até por volta dos 30 ou 40 anos de
idade. Já disse que o meu primeiro emprego foi como informático, em setembro de
1962, tinha eu apenas 20 anos, pois só completaria os 21 em dezembro desse
mesmo ano.
Cinco anos mais tarde, em 1967, é que me estreei como docente, na
Universidade de Coimbra, tinha então 25 anos.
O edifício onde funciona ainda hoje o
Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra foi inaugurado a 17 de
abril de 1969 numa cerimónia que teve a presença do então Presidente da
República, o Almirante Américo Tomás. Havia uma certa tensão entre os
estudantes de Coimbra e o então presidente da Associação Académica, o estudante
Alberto Martins, em certo momento, levantou-se do lugar que ocupava no
anfiteatro onde decorria a cerimónia e, respeitosamente, pediu ao Senhor
Presidente se o autorizava a usar da palavra. Tomás foi apanhado de surpresa,
levantou-se da cadeira que ocupava na mesa da presidência da cerimónia e
respondeu:
− “Mas agora vai falar o senhor
ministro das Obras Públicas”. O jovem sentou-se e todos nós esperávamos que
Tomás, depois de todos os discursos das personalidades que estavam na mesa, se
dirigisse ao jovem estudante e lhe dissesse qualquer coisa como “Pode agora
então usar da palavra, senhor estudante”. Mas não! Todos os participantes da
mesa se levantaram correndo como a fugir para fora da sala! Deram a impressão
de serem um verdadeiro grupo de acobardados!
Mostraram-se realmente acobardados,
com uma exceção: de facto, será curioso apontar que, quando Tomás se levantou
para responder ao estudante, todos na mesa se levantaram, exceto Manuel dos
Reis. Como decano dos professores de Matemática, ele também estava na mesa e na
qualidade de decano usou da palavra; o seu discurso, que não incluiu quaisquer
palavras de sabujice, está publicado na Revista da Faculdade de Ciências da
Universidade de Coimbra, volume 42 (1969), páginas 297-300. E há uma fotografia
do momento em que todos se levantaram exceto ele, a qual foi publicada no
semanário Jornal de Coimbra do dia 22 de maio de 1991.
O incidente desencadeou uma crise
académica, a crise de 1969. Em períodos de crise, acontecem sempre situações
absurdas. Seguidamente, contarei uma que vivi nesses tempos.
O ano letivo 1969/70 foi o terceiro
ano em que regi cadeiras no departamento; nesse ano foi-me atribuída a
responsabilidade pela cadeira anual de Cálculo Infinitesimal, do 2.º ano
curricular da quase totalidade dos cursos da Faculdade de Ciências. Talvez por
ser um professor jovem e por ter começado a carreira na qualidade de matemático
aplicado, a minha maneira de ensinar não se enquadrava na tradicional e os
alunos apreciaram-na positivamente: até porque prometi dar vários testes ao
longo do ano, em vez de um único exame final, e dispensar os alunos das
matérias em que, nesses testes, tivessem revelado aproveitamento. Não sei se
haveria outros professores a usar o mesmo sistema em cadeiras anuais, tão
vastas e importantes como o Cálculo Infinitesimal; mas que o sistema não era de
modo algum habitual, disso não duvido; talvez mesmo fosse eu o único docente a
usar tal sistema!
Os alunos gostaram tanto que o assunto
constou e jovens de Lisboa e Porto transferiram-se em massa para Coimbra.
Ficámos com cerca de 1400 inscritos em Cálculo Infinitesimal. Como já disse, o
elenco de disciplinas era exatamente o mesmo nas três universidades existentes
em Portugal: Lisboa, Porto e Coimbra! E não havia numerus clausus.
Eu tinha uma equipa de seis
assistentes que davam aulas práticas, quer dizer, aulas onde se resolviam
exemplos e exercícios de aplicação das chamadas matérias teóricas; além disso, eles
dactilografavam os testes, corrigiam-nos, classificavam-nos… Este trabalho, que
não era demasiado fatigante se os alunos fossem 200 ou mesmo 300, tornava-se
terrível com 1400 alunos. E então, entre os assistentes, três deles voltaram-se
contra mim. Teriam razão, mas eu vivi um período muito difícil. E até um
estudante me abordou dizendo que não era justo eu querer dispensar parcialmente
de exame final alguns alunos (os que tivessem mostrado aproveitamento no
respetivo teste, repare-se!) e obrigar outros a submeter-se a uma prova final!
De tudo isto tirei uma conclusão que me foi útil no resto da vida: “Não vale a
pena ser generoso em excesso para facilitar a vida a outros!” E realmente não
esqueci a lição e não me recordo de ter voltado a viver qualquer situação
semelhante. [Quem quiser mais pormenores sobre este momento pode ver o meu
livro “O Norte da Minha Bússola”, Editora Luz da Vida, 2014, páginas 13-14.]
Em 1971/72 passei o ano na
Universidade Técnica de Munique com uma bolsa de estudos habitualmente
atribuída a pessoas mais jovens, ainda sem doutoramento, pelo Serviço Alemão de
Intercâmbio Académico (Deutsches
Akademisches Austauschdienst). A razão pela qual escolhi esta cidade não
tem nada a ver com Matemática. Eu pensava em casar, mas tinha-me apercebido que
a minha mãe não aceitaria facilmente uma nora portuguesa, pois, por um lado,
ela só queria uma menina sofisticada da alta
sociedade e eu gostava do tipo ingénua… A minha mãe tinha-me combatido o
meu interesse por uma linda moça, minha aluna, porque a mãe dela, viúva, com
quatro filhos, era professora primária, não pertencia portanto à tal alta
sociedade. Pensei pois encontrar alguém num país estrangeiro; e em Munique, as
moças vestidas com o dirndl, trajo típico
da região com mini-saia e avental, e blusa de mangas curtas tufadas, sandálias
pretas e meias brancas até ao joelho tinham a imagem perfeita da ingénua…
talvez diabólica! Era o tipo que eu sonhava, mas eu não dominava ainda a língua
alemã e isso impediu-me de realizar o meu sonho. No ano seguinte, 1972/73, fui
para Viena e aí, sim, o meu maior interesse já foi colaborar com colegas de
Matemática. Eu já me exprimia facilmente em Alemão, mas as moças austríacas não
eram o meu tipo!
Regressei depois a Portugal e assisti
à revolução do 25 de abril (de 1974) que rebentou com todo o serviço nas
universidades. Razão pela qual senti que não fazia falta e voltei a partir em
dezembro de 1975, desta vez para Hamburgo onde permaneceria até agosto de 1977
com uma bolsa de uma conhecidíssima fundação alemã, a Alexander von Humboldt Stiftung.
Em Hamburgo encontrei colegas com quem
desenvolvi projetos interessantes de investigação e, como já era fluente em
Alemão, tornei a olhar para as moças com quem me cruzava. Em co-autoria com uma
delas, uma aluna de doutoramento chamada Christine Palm, cheguei a publicar, em
1978, um trabalho de investigação nos anais de um congresso organizado pela
Sociedade János Bolyai. Mas eu não era por certo o tipo dela e o possível
namoro não foi avante.
Não desisti e vim de facto a encontrar
uma outra jovem, também a preparar um doutoramento em Matemática com quem me
entendi bem. Ela chamava-se Christina Zamfirescu, tinha obtido a nacionalidade
alemã mas era natural da Roménia, para onde não queria regressar, pois o país
estava dominado pela ditadura feroz de um lacaio da União Soviética, o
famigerado ditador Ceausescu. Acrescentarei que talvez a latinidade que nos
corria no sangue tenha facilitado a nossa convivência. Nunca aprendi Romeno e
ela não falava Português: nós comunicávamos em Alemão, e eu fiquei feliz
porque, não sabendo ela Português, a minha mãe e ela não iriam poder
desentender-se. O que eu não pensei foi que ambas falavam fluentemente Francês!
E isso foi suficiente para que o desentendimento nascesse pouco tempo depois de
conviverem quando ambos viemos para Portugal! O que obviamente me fez
compreender que só salvaria a minha relação com esta Christina se saíssemos
para outro país. Assim nasceu o meu desejo de irmos para os EUA.