SER CIENTISTA E CRER EM DEUS
A Deus, há uns que chamam Alá, outros Jeová, outros Iavé, outros Adonai, e
até já vi, na Internet, uma lista com 72 nomes ao todo! O mesmo acontece
connosco, humanos; a mim, por exemplo, há quem chame José, outros apenas Zé, outros
ainda José Manuel, Zé-Manel ou Simões Pereira. Eu sou sempre eu, mas respondo a
vários nomes.
Vejo-me a mim próprio como cientista e creio em Deus. Como não pertenço a
nenhuma religião, por outras palavras, não sigo hoje nenhum regime de culto,
não uso qualquer daquelas designações quando quero falar com Ele para lhe
agradecer alguma graça ou lhe pedir algum favor. Chamo--Lhe somente, ó Deus!
Tenho ouvido e lido opiniões que exprimem uma imaginária incompatibilidade
entre Deus e a Ciência. Habituados a encadear raciocínios lógicos, os
cientistas reconhecem-se incapazes de provar a existência de Deus como se se
tratasse de provar a existência de um exoplaneta que eles observariam em vídeos
gravados por algum telescópio enviado para o espaço; ou de um elemento químico
numa amostra liquida que lhes trouxessem ao laboratório e que eles verteriam de
um tubo de ensaio para outro tubo de ensaio, ora aquecendo-a, ora arrefecendo-a;
ou de células sãs ou doentes num tecido animal ou vegetal que contemplariam através
de ultramicroscópios ou outros equipamentos sofisticados.
Facto é que a realidade não pode ser analisada toda ela do mesmo modo. Eu
recordo sempre a mulher gravemente ferida num acidente que a politraumatizou, a
qual, ao ter alta do hospital, agradeceu à equipa médica a forma como cuidaram
dela reconhecendo-se até, nas suas palavras alegres, um toque de humor: “Escapei
à morte com o vosso auxílio e também pelo facto de Deus não querer, por
enquanto, a minha alma no Paraíso!” O médico chefe afirmou-lhe que não tinha
necessidade nenhuma de lhes agradecer, pois tinham apenas feito o melhor que
sabiam, e, agnóstico que era, também com algum humor acrescentou: “Mas olhe que
a sua alma, não a vimos em parte alguma, fora ou dentro do seu corpo! E olhámos
para tudo com muita atenção!” Ao que ela, por sua vez, redarguiu,
perguntando-lhe, também sorrindo, “se, porém, tinham visto algures, lá dentro
ou cá fora, o grande amor que ela tinha pelos seus três filhos.”
É um episódio simples que aponta não ser possível analisar toda a realidade
com os mesmos métodos e as mesmas ferramentas. E quem usa o seu intelecto para
trabalhar como investigador científico tem de compreender este facto
incontestável: que a realidade não tem toda os mesmos predicados, não pode
portanto ser analisada, toda ela, com as mesmas técnicas, os mesmos utensílios.
Isto que a mim parece evidente, é esquecido por muita gente, cientistas,
artistas ou humanistas, eruditos ou analfabetos!
A minha experiência, ou, talvez melhor dizendo, a minha convivência com
Deus enriqueceu a minha vida; os momentos, os episódios, as evoluções e os
desenlaces que me convenceram que Deus existe e interfere connosco foram tão
intensamente significativos que apagaram qualquer dúvida que alguma vez tivesse
existido no meu entendimento. Embora eu nunca tenha visto nada do que outros
chamam milagres: nem vi Deus manipular a Física, transformando por exemplo
moedas em rosas, nem contemplei qualquer bailado do Sol subitamente aparecido
de entre nuvens chuvosas; talvez a minha virtude não seja tanta que eu mereça
assistir a momentos desses; nem, muito menos, a recriações de momentos
bíblicos, como seria ver mortos ressuscitando ou anjos voando pelos céus. Mas o
que vivi foi suficiente para perceber atitudes hediondas de gente que se diz
profundamente religiosa e agradecer a Deus que tenha usado tais atitudes para
me agraciar com acréscimos de fé; ou verificar a espantosa animosidade, direi
mesmo rancor, de alguém que toda a vida eu amei como um louco e perceber que
Deus o terá feito acontecer para eu não sofrer terrivelmente com a morte dela.
Termino! Para mim, Deus não se prova como um teorema de Matemática ou com uma
experiência de Física, Química ou Biologia num laboratório ricamente equipado!
Deus não se prova, pese muito a Kant, com métodos científicos. Mas também não
se exclui com quaisquer desses métodos. Como o amor pelos filhos da doente
politraumatizada, Deus sente-se, mas não se vê! E há quem não sinta a presença
d’Ele, nem sequer, consequentemente, creia que Ele existe!
Por isso, eu concordo que a Ciência, no seu estado atual e provavelmente em
todo o seu futuro, não vai esclarecer se Deus existe ou não. Embora cada um de
nós, quer sejamos cientistas, artistas, humanistas, profissionais de qualquer
outra atividade, ou até inativos, possa viver de acordo com uma ou outra destas
duas convicções: Deus existe ou Deus não existe; e justificá-la, ou pelo menos
interpretá-la, com a decorrência da própria vida.
Lisboa, 23 de novembro de 2017