quinta-feira, 31 de outubro de 2024

A MINHA QUERIDA LUZ

ESCRITO A 
‎28‎ de ‎dezembro‎ de ‎2021,


Minha querida Luz:

Sei que andas muito triste , embora tenhas andado caladita, sem dizeres as razoes desse teu silencio.

Sem querer há pouco li teus escritos diários, tuas questões a Deus me levaram a entender as razoes da tua tristeza.

Deixa-me contar-te algumas coisas da minha vida que talvez te ajudem a ver como eu reagia e a não te deixares tu destruir por quem tenta molestar-te. 

Temo que eles o consigam, e que tu te deixes destruir por essa pessoa ou por essas pessoas!

Ao contrário de ti, eu nunca me deixei abater, nem quaisquer ataques , até hoje, me fizeram sentir triste.

Isto porque, só nós dois sabemos o que foi e o que é a nossa vida e estou confiante que ela tem sido levada com consciência de que fazemos o melhor que se pode.

Nunca perdi tempo a pensar como me poderia vingar deles, que bem mereciam sofrer uma vingança!

Mas isso era gastar as minhas forças, o meu pensamento e o meu tempo para lhes fazer bem, a eles, ensinando-os a proceder melhor… Lembra-te do provérbio

 “Os cães ladram e a caravana passa!” 

Sim nós jamais deveríamos parar pois como tu mesmo tens dito:

- “Ambos unidos temos que cumprir a nossa missão!”

Recordo os meus nove anos no 1º ano do liceu e o reitor Mário Guerra a dar-me um valentíssimo puxão de orelhas por eu o ter cumprimentado; e ele pensou, no seu espírito de fracassado como pedagogo, que eu o estava a troçar! Outro que eu fosse ficava a odiar o liceu e os estudos! Mas eu não, não fracassei como aluno do secundário e continuei no mesmo liceu com o mesmo reitor….

Chego à universidade e sofro a estúpida “praxe” académica de Coimbra. Logo no início vinha de uma aula que tinha acabado às 6 horas da tarde e uma trupe apanhou-me. Calmamente respondi que vinha de uma aula e eles até perceberam e deixaram-me seguir.

Uns dias mais tarde um “doutor da praxe” quis gozar-me, mas eu fiz-me tão molengão que ele desistiu, considerando-se vencido!

Ao acabar o curso, o professor Manuel dos Reis por pouco me reprovava, vociferando mesmo que eu estava convencido de ser bom aluno… mas não era!

Não me acabrunhou, antes não fui “pedir batatinhas” repetindo o exame dele como fez um outro colega meu também bom aluno (o Amílcar Gonçalves).

Segui em frente; se ele não gostou de mim, o problema era dele… e triunfei ganhando o primeiro emprego a que me candidatei, mesmo mostrando a nota baixa que ele me atribuíra.

Ao fim de alguns anos, a trabalhar no Centro Científico da Fundação Gulbenkian, candidatei-me a doutoramento em Lisboa sob a orientação do professor António Gião.

Havia, porém, um erro no trabalho dele em que eu baseara a minha tese e desisti do doutoramento retirando a tese. O Gião ficou meu inimigo, mas eu não me deixei vencer. Escrevi outra tese sem nenhum professor me orientar e apresentei-me eu próprio a doutoramento em Coimbra com o júri formado por todos os possíveis membros dos júri que naquele tempo eram os catedráticos de Matemática do País, exceto o Gião que não quis aparecer; e venci!

Entretanto, um catedrático de Coimbra (o António Ribeiro Gomes) embirrou comigo e nunca, no resto da sua vida me apoiou em nada. Porquê? 

Quando ele se doutorou, eu gostei do modo como ele dialogou com os membros do seu júri e eu disse-lhe. Mas ele entendeu que eu estava a fazer troça dele e por isso embirrou comigo. 

Foi outro fracassado, este como cientista, exatamente como o reitor dos meus 9 anos! 

Mas a embirração que este Ribeiro Gomes me teve nunca me impediu de seguir em frente…

                                    PUBLICADO A 31 OUTUBRO 2024

https://youtu.be/C3Xay5_4QPQ?si=zql5nZGBuDsvC62z

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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Esladrunça


CÃO, CACHORRO, CACHORRÃO, CACHORRÃOZINHO E CAINÇO


 

Quanto a animais de companhia, há hoje quem tenha cobras e lagartos, peixes e patos, coelhos e salamandras. Mas eu continuo a considerar apenas gatos e cães, como possíveis companheiros. E as minhas claras preferências vão para os gatos.

É óbvio que respeito quem prefere os cães; mas para quem vive num apartamento, mesmo grande e luxuoso, numa cidade, se tiver um cão tem de passeá-lo na rua quer chova quer faça sol e isso não me é muito agradável, especialmente no Inverno, quando chove. Um gato não me exige essas saídas. Além disso um gato não me perturba, o maior ruído que faz na casa é o seu ronrom ou uma miadela delicada. Não se compara com o ladrar, ou melhor dizendo, o “esladrunçar” de um cão. Eu criei a palavra esladrunçar para dar ênfase à falta de sentido do habitual ladrar. O que eu quero dizer é que um cão, Cão com letra grande, no seu perfeito juízo, consciente da sua dignidade, tendo presente a sua missão e o seu papel na sociedade, ladra; quando fora de si, quando deficiente mental, ou, enfim, quando simples cainço da classe baixa entre os cães, “esladrunça”.

 

Aos amigos que adoram cães, eu não manifesto estes meus sentimentos; pelo contrário, sou amável e pergunto até pelo seu cachorrãozinho. É outra palavra que não existe nos dicionários, mas eu inventei-a para exprimir a minha antipatia com as primeiras três sílabas (cachorrão…) e uma diplomática simpatia com as duas últimas (…zinho, em cachorrãozinho!). Quando um amigo ou vizinho anda a passear o seu, ele, como animal, deve entender a minha pouca simpatia com os da sua espécie… e “esladrunça” logo, arreganhando-me a dentuça…

E eu, diplomaticamente, vou sorrindo e dizendo ao meu amigo ou vizinho: − Parece que o seu cachorrãozinho não está a simpatizar comigo…

 21 de agosto de 2019

domingo, 19 de setembro de 2021

LOUCURA FELINA - ESTE VAI SER O 11 º LIVRO QUE VOU PUBLICAR

                                          LOUCURA FELINA 

Este livro está com doze capitulos mas tenho mais capitulos que ainda não os posso publicar aqui porque não estão completos. 

ÍNDICE 

Cap. 1 NASCI

Cap. 2 HIPOCONDRIA DA MINHA MÃE

Cap. 3 SER ENCOLHAS OU PATO-MUDO E SER DE BEIJA-MÃO!

Cap. 4 OS QUE ME ATACARAM E QUEM ME DEFENDEU

Cap. 5 SUCESSO E GENEROSIDADE

Cap. 6 AVENTURAS NOS EUA

Cap. 7 FILHOS E BATALHA DURA

Cap. 8 EMPRESÁRIO, SIM! CIENTISTA, NÃO!

Cap. 9 AFINAL EU NÃO ESTAVA MORTO!

Cap.10 SIMULAÇÕES?

Cap.11 A MINHA APOSENTAÇÃO

Cap.12 E AGORA?

CAP. 1: Nasci!

Comecei a escrever esta história da minha vida hoje, dia 8 de julho de 2019, estando na cidade de Newark, no Delaware, Estados Unidos da América. E vou mesmo começar pelo princípio. 

Nasci num dia célebre: 7 de dezembro de 1941. Eram 2 e 15 da noite em Portugal e umas boas horas mais tarde, mas ainda nesse mesmo dia, a aviação japonesa atacou o Porto das Pérolas no Hawai, dando assim uma razão aos Norte-americanos para entrarem na segunda guerra mundial ao lado das democracias europeias. As ditaduras que iniciaram a guerra – foram elas que atacaram primeiro – viriam a ser derrotadas. “Bem feito!” dir-se-ia no jeito popular português, que estivessem quietas, que se contentassem com o que tinham e não quisessem mandar nos outros…

Curiosamente, esta maneira de pensar do povo português foi a minha desde a mais tenra infância: contentar-me com o que tinha, e, muito fundamentalmente, não querer tirar aos outros o que era deles. 

Os primeiros anos da minha vida foram durante esta guerra mundial. Portugal foi um país neutro: por um lado, havia a multicentenária aliança com o Reino Unido; mas por outro uma certa simpatia da classe política dominante do regime salazarista pelos governos autoritários. Salazar não quis pôr-se ao lado de Hitler, até porque Franco, outro simpatizante de governos rijos, tinha vencido a guerra civil espanhola e, portanto, ideias muito democráticas não iriam chegar até nós, pois teriam de atravessar a Espanha. Ora ele seguiu a sabedoria popular portuguesa e achou melhor estar quieto do que arriscar-se a uma derrota: nunca se sabe o futuro e ele, que era indiscutivelmente inteligente, conhecia esta verdade, é que mesmo quem está convencido do que é correto, numa guerra pode não ser o vencedor!

No entanto, apesar da neutralidade, houve momentos em que se temeram bombardeamentos. Não me lembro quem nos atacaria, mas sei que uma vez se colaram tiras de papel nos vidros das janelas para atenuar possíveis estilhaçamentos provocados por explosões de bombas. E um dia, espreitando o céu das janelas da nossa cozinha, eu vi o que hoje creio ser a Lua, em quarto crescente ou minguante, e pensei que era uma bomba… sobrevoando… sem cair… a nossa cidade. Retirei-me calado mas cheio de medo!

Eu tinha quase quatro anos quando a guerra acabou e pouco mais recordo desse primeiro período da minha vida. Talvez apenas da presença assídua de uma senhora francesa, a Mademoiselle Marie Martha Grangier, que teria abandonado o seu país, a França, e me acompanhou muitas vezes, nos passeios de menino pequeno, ensinando-me desse modo a falar Francês. Francês foi portanto a minha segunda língua e eu falava como um nativo. Parece que ela seria natural de Vichy e, mais tarde, tinha eu uns vinte anos, companheiros franceses num curso de verão em Londres, tomaram-me por cidadão francês e até pensaram que eu era de Vichy, pois tinha a pronúncia caraterística dessa zona de França!  Não há dúvida que, para aprender uma língua e falá-la como um nativo, tem de se começar durante a primeira infância!

                                             CAP. 2:

 

Hipocondria da minha mãe 

Prosseguindo a história da minha vida, vejo-me agora nos 5, 6, 7 anos a ouvir a minha mãe, uma senhora terrivelmente hipocondríaca, anunciando a quem a rodeava: - “Eu estou com um cancro, sinto o mesmo que Fulano ou Sicrano…”, isto num tempo em que cancro, que obviamente ainda hoje é uma doença grave, significava uma sentença de morte, em dois ou três meses, enfim, meio ano quando muito. Nem os médicos revelavam ao próprio, por vezes nem à família, o nome da doença quando a diagnosticavam, tal era o terror que ela infundia. E a minha mãe, especialmente para mim, a repetir: - “Olha, meu querido filho, eu vou te faltar em breve; e o pai vai casar com outra que será tua madrasta e te vai tratar mal!”

Vivia-se a história da Cindarela, livro, em muitas versões, de leitura obrigatória para todas as crianças, uma Cindarela com as suas meias-irmãs e a madrasta, a ser sempre posta de lado e muitas vezes muitíssimo maltratada. Nos anos quarenta do século passado, a família em Portugal não era vista com a flexibilidade com que hoje a vemos. Madrastas são hoje frequentemente como irmãs mais velhas, a mãe, se não morreu – e isso continua a ser dramático pois que, como todos nós concordamos, a morte é a única coisa irreversível – mas, estando viva, não tiver a custódia dos filhos, vê-os de certeza todas as semanas: em geral, em casos de divórcio, é ela que fica com eles, exceto quando os manda para o pai, por necessidades profissionais, e aí, a madrasta, se existe, é uma companheirona. Mas, nesses tempos, havia, de facto, uma diferença gigantesca entre mães e madrastas. A mãe dava mimo, embora as crianças fossem por vezes esbofeteadas até pelas mães, mas quanto mais não o seriam pelas madrastas… Os castigos físicos eram a regra, ou não recordaremos as palmatórias que eram então visíveis em todas as escolas para servirem de utensílio didático aos professores? A que distância vinha o didatismo atual com os seus monitores online, laptops e outros quejandos!!!

 As trovoadas eram outro terror da minha mãe. Tinha medo das faíscas, embrulhava-se num cobertor de lã e chamava-me para junto dela, pois acreditava que o cobertor nos servia de isolamento das descargas elétricas. Para a nossa moradia em Coimbra o meu pai mandou instalar um pára-raios, que era uma efetiva defesa contra descargas das trovoadas. Hoje não vejo moradias com pára-raios, mas naquele tempo havia bastantes. Aliás o meu pai ofereceu também a instalação de um à minha tia Conceição que vivia numa zona da Beira Alta onde as trovoadas eram frequentes e onde nós passávamos muitas vezes o mês de setembro. 

 Por volta dos meus seis ou sete anos, devido ao estado depressivo em que a minha mãe se encontrava, fomos viver para uma quinta do meu pai em Ceira, a poucos quilómetros de Coimbra. Foi o conselho dado por um brilhantíssimo jovem neuropsiquiatra, dedicadíssimo, que passou a ir visitá-la todos os dias. E realmente conseguiu uma extraordinária recuperação. Nunes Vicente era o seu nome e ver a minha mãe melhorar fez-me sentir por ele, apesar da minha pouca idade, uma imensa gratidão.

 Numa pequena aldeia todos se conhecem e aqui se vivem os dramas dos vizinhos. Um dia, faleceu a mãe nonagenária de um cavalheiro solteiro que com ela vivia. Ouvi comentar que ele, ficando só, iria sentir muito a falta da mãe e, tendo ele já sessenta anos, não era provável que ainda viesse a casar. Nesse momento, eu, nos meus seis anos, vi-me com sessenta num futuro longínquo e pedi a Deus, numa pequena oração, que a minha mãe também vivesse até eu ter sessenta anos! Coincidência? Ou a prova que Deus nos ouve? É que a minha mãe só veio a falecer três semanas depois de eu fazer sessenta anos… Tinha ela noventa e um anos…

 Prosseguindo agora com os meus relatos, por volta dos 7 anos, ainda vivíamos na quinta, comecei a frequentar a escola. Foi na casa particular, uma bela moradia rodeada por um pequeno jardim, com entrada por duas ruas paralelas, propriedade de uma senhora que tinha só uns 6 alunos, sendo eu um deles. Chamava-se essa senhora Feliz dos Anjos Afonso, vivia com ela uma tia que andava pelos noventa e muitos e uma empregada doméstica. A D. Feliz tinha uma quinta na Pedrulha, uma povoação também perto de Coimbra, quinta que ela visitava por vezes e onde alguém tomava conta das atividades agrícolas.

 Lembro-me com simpatia desta senhora: Pronunciávamos o nome dela como Sôdona Feliz! A instrução primária durava quatro anos (dizia-se a primeira, a segunda, a terceira e a quarta classes) e tínhamos de fazer exame no fim da terceira e no fim da quarta. Estes exames eram feitos numa escola pública à qual a D. Feliz nos candidatava. Esta era a escolaridade obrigatória no tempo e quem ia seguir para os estudos secundários, ou liceu como se dizia, era dispensado de fazer o exame da quarta classe mas tinha de fazer exame de admissão ao liceu. Foi o que aconteceu comigo.

Entretanto menciono uma recordação desta época: eu não andava nas ruas sozinho, pelo que alguém me ia buscar às aulas. E, enquanto esperava, eu sonhava com um aparelho que me permitisse falar com a minha mãe na quinta e saber como ela estava. O telemóvel já existia pois na minha imaginação!

Outra recordação desta época é a minúscula loja onde se vendiam cadernos, lápis, etc. Era o quiosque do Senhor Brandão. Ficava no caminho entre a casa da D. Feliz e a casa onde nós morávamos quando estávamos em Coimbra. Na época havia pouquíssimos automóveis e, em frente da nossa casa, erguia-se um edifício de 4 pisos além do térreo; neste havia uma garagem que serviria para o dono do prédio, se ele lá vivesse, pois nenhum dos oito arrendatários teria possibilidades económicas para ter carro. A garagem estava pois arrendada a um sapateiro, um homem cujo nome não recordo mas sei que tinha sido combatente na primeira guerra mundial. Quando se apercebeu que eu falava Francês contou-me uma história do seu tempo de soldado em França. Enquanto ia martelando umas meias-solas, disse-me que um dia precisaram de uma picareta para movimentar algumas terras da trincheira onde estavam e pediram-na a um francês que, não os tendo compreendido, lhes respondeu apenas “Je ne vous comprends pas!” E eles, muito satisfeitos, replicaram ao francês “Sim, sim, uma pá também serve!” História que dava alegria, a quem não teria outros grandes motivos para se rir! 

Termino esta recordação dos meus 5, 6, 7 anos com outro momento que envolve doenças. Era o meu pai que estava acamado, com um problema que já não posso identificar. O meu avô materno, de seu nome Manuel dos Santos Madeira, nos seus setenta e picos, veio visitá-lo à quinta. Era a época do Natal. Não se falava de Pai Natal, dizia-se sim que o Menino Jesus vinha num trenó voador distribuir presentes aos meninos na noite de Natal, descendo pelas chaminés para colocar os presentes nos sapatos que os meninos deixavam junto ao fogão. Os meninos eram aconselhados a escrever antecipadamente ao Menino Jesus dizendo que presentes queriam. Nós acreditávamos nisto até aos 6 ou 7 anos! Alguém lembrou, olhando para mim de lado, que era noite de Natal e que eu, por certo, também esperava algum presente. Está ainda no meu ouvido a voz do meu avô ao comentar: - “Ele, por certo, o presente que mais quer é ver o pai com saúde!” Fantástico! Realmente, nas minhas orações de criança, eu tinha pedido a Deus que melhorasse o meu pai. Foi um extraordinário exemplo de um homem de mais de setenta anos a compreender os desejos de um menino que não teria mais que sete. 

Era um homem de grande inteligência e não menor sensibilidade! Tinha aliás uma licenciatura em Direito e outra em Farmácia!!!

 

 

 

 

 


 

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