Condenado a morte pelo genocídio de 60 mil romenos fruto de maldades e negligências que cometeu no governo, 1989.
Nicolau
Ceausescu
Um vestígio de humanidade, em quem era
desumano
Ele
foi um ditador temido, hipocritamente aplaudido e odiado.
Sei
que foi temido, pois tive forte ligação com uma família romena que sentiu a
falta de liberdade, o terror da sua polícia e a arbitrariedade das suas
decisões. Contaram-me que, um dia, a mulher do Ceausescu, ao passar numa rua,
viu um edifício com flores numa varanda e não gostou; no dia seguinte, saiu uma
lei proibindo flores nas varandas.
Que
foi hipocritamente aplaudido, será óbvio porque o medo de um ditador leva o
povo sob o seu jugo a aplaudi-lo para não correr o risco de ser considerado oposicionista
e acabar condenado a uma pena de prisão. Para concretizar, no caso da Roménia,
até um representante da URSS, que em 1989 tinha participado como convidado num
congresso do partido comunista romeno, se queixou, após o seu regresso a
Moscovo, que tinha assistido a um discurso de Ceausescu e teve de se levantar 75
vezes para aplaudir pois todos os que assistiram assim fizeram… E com tantos
esforços de levantar e sentar acabou sentindo-se muito fatigado! (*)
Enfim,
odiado, pois o seu regime caiu em dois dias e ele e sua esposa foram ambos
executados. Foi no tempo de Gorbachov, presidente da então URSS, quando os
países sob a égide de Moscovo se libertaram dessa tutela rígida e escolheram os
seus próprios governos. Não houve grande violência contra os governantes desses
países em nenhum deles a não ser na Roménia. O acontecimento que ficou a simbolizar
o fim da tutela soviética foi a queda do muro de Berlim em 9 de novembro de
1989 e o fim do governo de Ceausescu foi nos últimos dias de dezembro deste
mesmo ano.
Eu
recordo ter visto numa reportagem um breve filme que não esquecerei. Essa
reportagem mostrou Ceausescu, aparentemente já feito prisioneiro dos
revolucionários, sentado no banco traseiro de um automóvel, ao lado da sua
esposa e tocando com a sua mão na mão dela como a dizer-lhe “não tenhas medo…
tudo vai correr bem!”. Não esquecerei essa cena pois mostrou-me que havia afinal
na alma daquele homem um vestígio de humanidade. Ele sofreu pela sua mulher e
quis tentar aliviar o terror dela. Infelizmente para eles, foi uma tentativa
inútil. Um ou dois dias depois desta cena, foram ambos executados.
Coimbra, 2020-10-03
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(*) Ver página 8 do jornal “A Capital” de 21 de
fevereiro de 1990.


