sábado, 27 de fevereiro de 2021

CIENCIA E RELIGIÃO / MEUS LIVROS

Ciência e Religião

Convicções dos cientistas e convicções dos místicos


 

Quando se fala de religião e ciência, há sempre quem as ponha frente a frente numa espécie de oposição. Um caso clássico é o de Deepak Chopra e Leonard Mlodinow que aceitaram adotar esta postura e publicar em co-autoria o livro “Guerra entre dois Mundos: Ciência vs. Espiritualidade” (Editora Estrela Polar, 2012). É a tradução em Português do original em Inglês “War of the Worldviews”.

 

Simone Weil morreu em 1943, com 34 anos, hoje dir-se-ia em plena juventude. Mas a força do seu pensamento continua a impressionar. Li recentemente o seu pequeno livro “Carta a um homem religioso” publicado em 2003 pela Editora Ariadne (tradução do original francês “Lettre à un religieux” publicado pelas “Éditions Gallimard” em 1951). Termina com a frase:

 

“Como mudaria a nossa vida se víssemos como a geometria grega e a fé cristã brotaram da mesma fonte.”

 

Creio que Simone não escreveu esta frase pensando no mesmo que eu pensei quando a li. E que é o seguinte: A fé dos místicos (cristãos, maometanos, judeus ou outros) tem pilares de suporte semelhantes, para não dizer iguais, à fé dos cientistas, em particular dos matemáticos mas também dos físicos, astrónomos, químicos, médicos, etc., nas suas ciências. Porquê?

 

Porque todos partem de convicções básicas que não podem demonstrar a partir de outras. Tais afirmações básicas são pontos de partida em que acreditam e sobre eles constroem uma teologia ou uma ciência. A essas convicções chamam os místicos os seus dogmas; os cientistas, em particular os matemáticos, chamam-lhes axiomas; todos os outros, físicos, químicos, biólogos… todos os que afinal se baseiam cada vez mais na matemática, chamam-lhes leis ou princípios fundamentais.

 

Parecem-lhes evidentes, crêem neles como os místicos nos seus dogmas… mas quem quiser duvidar pode fazê-lo, pois não são verdades absolutas.

 

Na matemática, temos exemplos em que alguns destes axiomas se revelaram espantosamente contraditórios: o chamado axioma do contínuo, para falar de um exemplo que todos os meus colegas profissionais conhecem, podemos aceitá-lo como verdadeiro ou como falso, pois a sua negação pode aceitar-se como verdadeira, o que obviamente equivale a dizer que ele é falso.

 

E exatamente o mesmo se pode dizer do famoso axioma da escolha.

 

Mais atrás, no século XIX, já tínhamos vivido o drama do axioma das paralelas: será que nunca se encontram, por mais que se prolonguem como nós dizíamos na escola? A resposta é: depende, da geometria que escolhermos ….

 

Nós, matemáticos, já aprendemos esta lição de humildade. Os crentes de algumas confissões religiosas também já a aprenderam e por isso são tolerantes para com ateus, agnósticos e fiéis de outras crenças. Lamentavelmente ainda há místicos que não a aprenderam e continuam a usar violência, julgando desse modo servir a Deus. Quanto aos que assim procedem, a minha esperança – e a minha Fé no Deus em que acredito – é que todos aprendam, e pratiquem, a lição de humildade que acima refiro. 

 

29-7-2014

DUARTE PACHECO E VEIGA SIMÃO



DUARTE PACHECO E VEIGA SIMÃO

 

Dois heróis que entusiasmaram a minha imaginação. São o engenheiro e político Duarte Pacheco, cujo nome ficou ligado a um viaduto de Lisboa e o físico e político Veiga Simão, cujo nome podia ter sido dado a uma das muitas universidades que fundou.

 

Duarte Pacheco foi ministro das obras públicas num governo de Salazar, no princípio da década de 40 do século XX. Num tempo em que ainda circulavam nas ruas das cidades carros de bois e carroças puxadas por um ou dois cavalos, ele lançou a construção da primeira auto-estrada do País, entre Lisboa e o Estádio Nacional, com uns 7 ou 8 quilómetros de extensão. Na saída de Lisboa, a auto-estrada atravessa um vale num viaduto que também é imponente: é o mais longo na cidade de Lisboa. Duarte Pacheco faleceu num desastre de automóvel e o seu tempo como ministro foi curto. Mas marcou a história das vias de comunicação de Portugal.

 

José Veiga Simão foi outro dos meus heróis. Doutorou-se na Universidade de Coimbra em Física e foi catedrático nesta universidade. Mas notabilizou-se na ação política. Inicialmente como primeiro reitor da universidade do Maputo (então Lourenço Marques) cuja fundação ele impulsionou, tal como impulsionou a universidade em Angola. Não se deixou vencer pelos que se opunham á criação destas escolas, sob o pretexto que seria impossível encontrar professores com a competência necessária para nelas exercerem a docência. De facto naquele tempo havia universidades apenas em Lisboa, Coimbra e Porto e o número de doutoramentos em cada área era de um ou dois por ano letivo. Mas Veiga Simão não desistiu e Angola e Moçambique ficaram com as suas universidades.

 

Maior ainda foi o arrojo de Veiga Simão quando, mais tarde, no cargo de Ministro do Ensino Superior no governo de Marcelo Caetano, levou a cabo a fundação (ou refundação, no caso de Évora) de numerosas universidades em Portugal: Aveiro, Braga, Trás-os-Montes e Alto Douro, Covilhã, Évora, Nova de Lisboa, Algarve, Madeira passaram a existir. Num País em que só havia ensino superior nas três cidades acima referidas, o aparecimento quase simultâneo de tantas instituições foi uma verdadeira revolução. Não esqueçamos que ainda estávamos na vigência do Estado Novo, embora o primeiro-ministro já não fosse Salazar, mas sim Marcelo Caetano.

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