O AMOR AO PRÓXIMO E A HABITUAL MAS ERRADA INTERPRETAÇÃO DO TEXTO BÍBLICO (*)
Deus fez-me ver que o precioso e maravilhosamente lapidado diamante que eu pensava ser o amor dela era afinal um estilhaço de vidro velho. E assim me aliviou a dor de o ter perdido. [ … ]
– “Ajuda-me, ó Deus, a nunca mais o esquecer! E se eu reconheço o teu amor por mim, ajuda-me a corresponder-lhe. Há momentos da vida em que nos pedes firmeza, desassombro, assunção plena da nossa dignidade, criada à imagem da Tua. Em que não há lugar para branduras. É nisto que me reconheço culpado. É nesta linha de pensamento que, diante de Ti, o mais importante grito desta página é um pedido de perdão que Te venho fazer pelo bem que desacertadamente pratiquei e por ter amado tanta gente errada!
Reler o teu Evangelho ajudou-me a perceber quanto eu me enganei! Sim, está em Lucas, no capítulo 10, versículo 27: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” E depois vem a parábola do homem que caiu nas mãos dos salteadores e ficou jazendo na beira da estrada. A seguir, a pergunta frontal: “Dos três... (o sacerdote, o levita, o samaritano)... qual te parece ser o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?” E a resposta: “O que usou de misericórdia para com ele”. E Jesus aconselhou o seu interlocutor a “fazer do mesmo modo”. Tudo bem. Mas uma questão devia aflorar imediatamente ao nosso espírito: ─ Onde é que Cristo diz que “próximo” é sinónimo de “toda a gente”? Ele claramente perguntou qual dos três tinha sido o próximo do homem agredido; e não contestou a resposta que lhe foi dada, que foi aquele que o ajudou. Portanto, o sacerdote e o levita não o foram; nem, com muito mais razão, os salteadores. “Amarás o teu próximo!” não significa pois “Amarás toda a gente!”
O bom conselho de Jesus é que procedamos como o samaritano, que nos façamos próximos de quem de nós precisa. Mas àquele que por nós passa com indiferença, àquele que não usa de misericórdia para connosco, àquele que selvaticamente nos agride, a esses não nos exige que os amemos; pois nem diz para amarmos toda a gente – mas sim o próximo! – nem que o sacerdote, o levita e os salteadores foram, como o samaritano, igualmente próximos do homem agredido. É o que se lê, preto no branco, neste importante e tantas vezes citado capítulo dos Evangelhos!
Esta é para mim uma indicação clara que Deus não espera nem exige que retribuamos com amor a indiferença e, muito menos, a crueldade dos outros. Ao esquecermos este princípio, traímos a mensagem de Cristo. Falamos muito “no dar a outra face” e esquecemos o chicote com que Ele correu os vendilhões do templo ou a maldição que lançou à figueira pelo simples facto de ela não ter frutos. E com essa postura contribuímos para que a iniquidade continue.
Judeu que era – não o esqueçamos! – Cristo certamente terá lido esta afirmação que recordo ver citada do Talmude: “Quem é piedoso com os cruéis, acaba sendo cruel com os piedosos”. É por estes motivos que eu venho penitenciar-me. Por não ter interiorizado a parábola do samaritano e não ter conhecido o pensamento do Talmude, uma vez mais Te rogo, ó Deus:
– Perdoa-me! Não fui justo, não chicoteei os vendilhões, não amaldiçoei e fiz secar as figueiras que não me deram frutos!”
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(*) Estas linhas que questionam a totalmente ilógica mas sempre repetida interpretação que a Igreja Católica Romana dá à parábola do samaritano são extraídas do livro de Zé-Manel Polido: “Amor, Solidão e Fé”, Editora Luz da Vida (Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra), Fevereiro 2004.
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