quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A CEBOLEIRA E A CIÊNCIA...

 


A CEBOLEIRA QUE NÃO PRECISAVA DA CIÊNCIA


 

No mercado central de uma vila pequena, havia uma mulher que vendia produtos da quinta onde residia.

Um dia tinha à venda cebolas a dois euros o quilo e apareceu um potencial cliente que queria comprar cebolas.

- Bom dia, disse ele, a como são as cebolas?

- São da melhor qualidade, respondeu ela, e custam-lhe só dois euros o quilo!

O cliente percebeu que as cebolas eram de facto de boa qualidade e nem regateou. Disse-lhe apenas:

- Vou levar três quilos. 

E enquanto ela as punha na balança, tirou seis euros do porta-moedas.

 - Ora aqui tem um quilo, disse a vendedeira, dê-me por favor dois euros!

 O cliente pegou no saco com um quilo de cebolas e deu os dois euros à mulher, mas acrescentou:

 - Bom, mas eu queria três quilos!

 - Sim, respondeu a vendedeira, aqui tem mais um quilo, e são mais dois euros.

 O cliente pegou no segundo saco e, um pouco surpreendido deu à vendedeira outra moeda de dois euros; e sorrindo um pouco relembrou que ainda faltava um quilo que agradecia ela lhe entregasse. Ela assim fez e lembrou ao cliente que eram mais dois euros!

 - Está tudo certo, disse ele, mas porque é que me entregou um quilo de cada vez e quis que lhe pagasse assim também por três vezes? Ora três quilos a dois euros o quilo, é fácil fazer a conta, não é difícil esta matemática, três vezes dois são seis e eram precisamente seis euros que eu já tinha na mão para lhe pagar…

 - Meu amigo, respondeu ela, matemática e ciência não é comigo. Eu não acredito na Ciência e não preciso dela para nada; por certo o senhor não se sentiu prejudicado, nem eu, passámos bem sem contas e sem Ciência…

 - Isso é inteiramente verdade, disse o cliente, eu não a prejudiquei nem a senhora a mim.

 E no seu pensamento recordou as muitas vezes que se cruzou com pessoas aparentemente muito menos provincianas que, tal como a ceboleira, não acreditam na Ciência e acreditam que passam muito bem sem ela!!!

                                    Coimbra, 30 de dezembro de 2020



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Nicolau Ceausescu



Condenado a morte pelo genocídio de 60 mil romenos fruto de maldades e negligências que cometeu no governo, 1989.

 Nicolau Ceausescu

Um vestígio de humanidade, em quem era desumano

 

Ele foi um ditador temido, hipocritamente aplaudido e odiado.

 

Sei que foi temido, pois tive forte ligação com uma família romena que sentiu a falta de liberdade, o terror da sua polícia e a arbitrariedade das suas decisões. Contaram-me que, um dia, a mulher do Ceausescu, ao passar numa rua, viu um edifício com flores numa varanda e não gostou; no dia seguinte, saiu uma lei proibindo flores nas varandas.

 

Que foi hipocritamente aplaudido, será óbvio porque o medo de um ditador leva o povo sob o seu jugo a aplaudi-lo para não correr o risco de ser considerado oposicionista e acabar condenado a uma pena de prisão. Para concretizar, no caso da Roménia, até um representante da URSS, que em 1989 tinha participado como convidado num congresso do partido comunista romeno, se queixou, após o seu regresso a Moscovo, que tinha assistido a um discurso de Ceausescu e teve de se levantar 75 vezes para aplaudir pois todos os que assistiram assim fizeram… E com tantos esforços de levantar e sentar acabou sentindo-se muito fatigado! (*)

 

Enfim, odiado, pois o seu regime caiu em dois dias e ele e sua esposa foram ambos executados. Foi no tempo de Gorbachov, presidente da então URSS, quando os países sob a égide de Moscovo se libertaram dessa tutela rígida e escolheram os seus próprios governos. Não houve grande violência contra os governantes desses países em nenhum deles a não ser na Roménia. O acontecimento que ficou a simbolizar o fim da tutela soviética foi a queda do muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 e o fim do governo de Ceausescu foi nos últimos dias de dezembro deste mesmo ano.

 

Eu recordo ter visto numa reportagem um breve filme que não esquecerei. Essa reportagem mostrou Ceausescu, aparentemente já feito prisioneiro dos revolucionários, sentado no banco traseiro de um automóvel, ao lado da sua esposa e tocando com a sua mão na mão dela como a dizer-lhe “não tenhas medo… tudo vai correr bem!”. Não esquecerei essa cena pois mostrou-me que havia afinal na alma daquele homem um vestígio de humanidade. Ele sofreu pela sua mulher e quis tentar aliviar o terror dela. Infelizmente para eles, foi uma tentativa inútil. Um ou dois dias depois desta cena, foram ambos executados.

 

Coimbra, 2020-10-03

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(*)  Ver página 8 do jornal “A Capital” de 21 de fevereiro de 1990.


 

JOSÉ MANUEL TOCANDO PIANO

 


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