GENTE DE CORAÇÃO SECO?
É
habitual na cultura portuguesa – e noutras também, certamente – associar o
amor, a bondade, o calor humano, ao coração. Ter bom coração é uma expressão
idiomática que significa ser bondoso, ser sensível ao sofrimento alheio, gostar
de ajudar, na medida do que é possível, aqueles que rodeiam, mais ou menos
proximamente, a nossa vida.
Há
felizmente muita gente com bom coração! E, por vezes, esses que têm bom coração
também se revoltam, se mostram irados, não estão sempre dispostos a fazer
carícias ao seu fiel cachorro ou ao seu fofo gatinho. Isto é de esperar, pois
ter bom coração pressupõe ser sensível, reagir aos estímulos que nos tocam, ter
um profundo sentido de justiça.
No
extremo oposto estão os frios, os gelados, os que agridem todos aqueles com
quem se relacionam, os que se desesperam com os filhos, os que antipatizam com
a sogra – ou com a nora!… Não simpatizo com eles, mas compreendo que são seres
humanos!
A
mim quem me surpreende são aqueles que têm o que eu chamo um coração seco, seco
como as folhas caducas das árvores que no Outono ficam nuas. Cruzei-me com
alguns destes na minha vida. Ouviram dizer mal de mim – e acreditaram! Bom,
ingénuos e crédulos, todos nós podemos ser, de vez em quando. Mas é triste
ficarmos sem reconhecer que o fomos durante quinze ou vinte anos, quando já nos
é mais que evidente que o que ouvimos dizer era erro ou, pior ainda, era
mentira… Estes de coração seco não reagem, não têm a coragem de contatar aquele
que foi caluniado para lhe dizer “olha, enganaram-me, de facto naquele tempo
acreditei, mas hoje vejo que me enganaram e não quero que me julgues tão
cobarde que não tenha coragem para te dizer isto!” Uma tal mensagem não
humilharia quem a dissesse, pelo contrário, mostrava inteligência, auto-confiança
e frontalidade. E, para quem tem um passado de católico romano, quem ensinou o
catecismo a crianças ou quem pertenceu ao grupo coral da sua paróquia, tal
atitude provava que ele, ou ela, era capaz de agir coerentemente com as suas
convicções religiosas. E o mesmo direi daquele casal, membros da Opus Dei, porque nada os moveu, nem a homenagem que prestei à memória do filho que perderam.
De facto, infelizmente, estes de coração seco existem – e eu conheci alguns!
17. março.2019
J. M. S. Simões-Pereira