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segunda-feira, 4 de março de 2013

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN

ONÉSIMO T. ALMEIDA E A GÁVEA BROWN



Creio ter sido no número de julho a dezembro de 1981 que esta revista publicou uma entrevista a uma cientista portuguesa, então residente em Nova Iorque, na qual ela fez algumas declarações de que eu, em certa medida, discordei. Dizia que os portugueses daquela época eram ainda “guerreiros que não trabalham”, que sentiam prazer “em passar uma noite na conversa”, pouco votados ao esforço e à “solidária solidão” que são necessários para estar na vanguarda de qualquer atividade. Dava o exemplo de um afilhado português que gostava muito de nadar mas que, na opinião dela, nunca viria a ser um campeão.

Escrevi ao diretor da revista a seguinte carta (aqui reproduzida com a nova ortografia) que ele, no seu pleno direito, entendeu não publicar.


Professor Onésimo T. Almeida
Box O, Revista Gávea Brown
Brown University
Providence, RI 02912
Exmo. Professor Almeida:

A leitura do interessante número da Gávea Brown que dedicaram à doutora Ana de Brito despertou-me o desejo de manifestar uma certa discordância com o pano de fundo que se percebe sem se ver. Submeto-lhe para possível publicação os comentários que teci na forma de carta aberta à doutora Ana de Brito, pessoa real que na verdade me merece a mais alta consideração pelo seu prestígio científico e que tive o prazer de conhecer, embora só fugazmente.

Quanto a mim, sou professor catedrático na City University of New York; a minha especialidade científica é a matemática e não a biologia mas os mundos de uma e de outra não são totalmente distintos. Tenho, porém, mantido estreitos e frequentes contatos com Portugal. Este ano, por exemplo, encontro-me a passar uma licença sabática no departamento de matemática da Universidade de Coimbra. Esta visita levou-me realmente a confirmar as minhas suspeitas de que Portugal não é já exatamente aquilo que se retrata no número dedicado à doutora Ana de Brito; e por isso me decidi a enviar-lhe o meu comentário.

Cumprimentos do

J. M. S. Simões-Pereira

[Nota: Ana de Brito não era o verdadeiro nome da entrevistada!]
CARTA ABERTA À DOUTORA ANA DE BRITO(*)

Senhora Doutora Ana de Brito:

A maioria daqueles que, como nós os dois, nasceram há quatro décadas em Portugal, sabem que não é preciso haver arranha-céus para haver janelas de onde se vê o horizonte. Basta haver colinas; e a sua Lisboa, como a minha Coimbra, têm colinas e não tinham então arranha-céus.

Havia uma varanda na casa onde eu morava de onde todo o ano se via o pôr-do-sol e, embora eu nunca tenha escrito poesias, ali sentia, por vezes, o que os poetas sentirão. O que lhe vou contar, vivi-o nessa varanda.

Tinha eu uns catorze anos e foi num entardecer na primavera. É um tempo do ano em que há, em Portugal, muitas andorinhas e àquela hora o seu voar é muito alegre, rápido, nervoso, quase louco. Nessa tarde, sem que elas a vissem, voando mais alto de que todas, serena, calma, batendo as asas só de vez em quando, surgiu uma ave de grande envergadura que se dirigia para o ocidente. Fiquei a olhar aquela ave solitária, determinada no caminho a seguir, forte, imperturbável, voando em direção ao sol poente. Surpreendeu-me que ela não pousasse; até a ver como um ponto minúsculo na distância, prosseguiu segura, altiva, corajosa.

Seria por ter visto uma ave assim que Richard Bach criou o John Livingston Seagull? Talvez. Richard Bach acreditou que em cada um de nós habita um John Livingston Seagull. Eu não. Por isso, para mim, aquela ave invulgar tornou-se um símbolo. Não de todos nós, mas apenas de alguns. Apenas daqueles que então, em Portugal, embora frequentes vezes conversassem, não passavam todas as noites a fazê-lo. Apenas daqueles que, isoladamente, sem mesmo terem tido o estímulo de verem o estrangeiro, num mundo que os não apoiava, sem estruturas, sem recompensas, sem equipas, sem a admiração da maioria ou de minorias, escolhiam um destino para a sua vida e partiam em direção a ele, inabaláveis. Um destino escolhido por serem sonhadores, por crerem que existe alguma coisa mais que a mediocridade e que alcançá-lo vale o preço do esforço e do sacrifício.


De entre estes portugueses de quem falo, tenho, e tinha já, visto vários triunfar. Em tudo. Até na natação. Onde a imagem de um Joaquim Baptista Pereira, entrevistado depois de vencer a travessia do Canal da Mancha no seu ano, foi uma das maiores lições da minha infância: apontava ao jornalista o local do Tejo onde se treinara e dizia-lhe com simplicidade “olhe, foi ali, sozinho, que passei muitas horas a nadar e a sonhar”. Exemplo de um Português vivendo em Portugal que, no desporto do seu afilhado, tinha talento e foi um campeão.

Caso único? Não, já nesse tempo os havia, homens e mulheres, no desporto, no espetáculo, na matemática, na música, na medicina… Gigantes. Porque se fizeram a si próprios, porque não tiveram a seu lado, a fazê-los crescer, a ajudá-los a vencer o desânimo, a educá-los na liberdade ou na disciplina, um treinador, um promotor, um supervisor… Gigantes porque ousaram ombrear com aqueles que, tendo nascido noutros países, não precisaram de se fazer, pois tiveram o apoio dedicado, permanente, muitas vezes quase exclusivo e privado, de treinadores, promotores, supervisores… Gigantes que nos merecem, pelo menos, o respeito de não ignorarmos que os houve.

A imagem que cada um de nós tem de Portugal é evidentemente subjetiva: a sua como a minha. E também é subjetiva a imagem que temos de outros países. Em todo o mundo, porém, há coisas que mudam e coisas que permanecem porque também em todo o mundo as mensagens da verdade atravessam fronteiras, por mais cerradas que elas sejam, e encontram sempre quem esteja preparado para as receber.

Eu compreendi quando ainda era muito jovem – e confesso sentir orgulho nisso – que depois da minha geração viria outra ainda melhor que a minha. E compreendi também que cada geração deve muito àquelas que a precederam. Hoje, os jovens de Portugal que quiserem voar a grande altitude e para isso tiverem força já encontram, com uma facilidade que nós não tivemos, quem os treine, promova, supervisione. Por isso a nova geração portuguesa já é mais que um punhado de heróis isolados.

Ainda estará viva em Portugal a tradição dos “guerreiros que não trabalham”? Eu penso que não, felizmente. Ainda existirá em Portugal o prazer de “passar uma noite na conversa”? Eu penso que sim, felizmente. Felizmente porque – para quem gostar, claro! – conversar não é só perder tempo, como o não é jogar o golfe, correr mini-maratonas, ver basebol ou ver televisão. Prazer português, prazeres americanos. Conversar espelha e é a capacidade portuguesa de ser humano, coexiste com a tendência para formar amizades que não nascem à força de artifícios, que não se nutrem no uso sem significado do primeiro nome ou do tu instantes depois de um “how do you do?” ou de um “hi!”, mas que também não se destroem sem causa, nem, muito menos, se esquecem.


Concordo que Portugal é ainda, em certas áreas, que não a Ciência nem o Desporto, um país onde muitas pequenas aves se sentem felizes porque lhes é possível ignorar a existência das grandes; mas é também um país que tem sempre tido águias solitárias, voando de olhos postos na distância, subindo mais alto para ver para além do horizonte… A vida deu-me o privilégio de testemunhar que muitas de entre elas, não obstante conhecerem bem aquilo a que chama a sua “solidária solidão”, gostam de conversar. Afinal conversar, tal como fazer poesia, também é criar…

Luso-americanamente seu

J. M. S. Simões-Pereira



(*) O professor Onésimo T. Almeida, apesar do seu espírito aberto à discussão e ao contraditório, entendeu não publicar na revista Gávea Brown, da qual era diretor, esta minha carta. Para que tudo fique esclarecido, Ana de Brito era um falso nome da conhecida investigadora em Biomedicina Maria de Sousa, também amante da poesia, Prémio Universidade de Coimbra 2011, sobre quem June Goodfield tinha escrito um livro intitulado “An Imagined World: A Story of Scientific Discovery”, que visava focar, usando o seu caso, o que é a atividade de investigação científica. Nessa história, à protagonista, que era na vida real a Maria de Sousa, a escritora chamava Ana de Brito.



sábado, 13 de outubro de 2012

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

A CRISE, O DÓLAR E O EURO

Há duas afirmações a respeito da crise que se sente em Portugal e noutros países europeus de cuja validade estou convencido:
1) A crise é provocada por aqueles que, caso o euro sobreviva, receiam a perda da influência e do poder do dólar a nível internacional;

2) A crise terminará imediatamente quando esses mesmos se convencerem que o euro vai sobreviver e, portanto, as suas maquinações são inúteis.
Não afirmo que seja o povo americano que quer destruir o euro; nem o Presidente Obama ou o candidato republicano, seu adversário na eleição que se aproxima. São os senhores do dólar, cujos nomes o grande público nem conhece, talvez os grandes grupos financeiros, ou Wall Street, ou os grandes bancos, talvez um Goldman Sachs de que fala o número de 11 a 17 de Outubro da revista Sábado.
Não se compreende que as agências que desacreditam as dívidas dos países europeus… sejam todas americanas! Porque não existe uma agência de rating europeia que analise a dívida soberana dos EUA? Ou uma sedeada nos países do euro que avalie a dívida soberana do Reino Unido?
Já vimos os senhores do dólar pretenderem que a China altere a paridade da sua moeda, o renmimbi. Esta tentação dos poderosos dos EUA de moldarem o Mundo à conta dos seus interesses, é óbvia. Já todos o sabemos, olhando as suas campanhas militares. Como intervenções militares na Europa seriam o cúmulo do absurdo, a alternativa que lhes resta é o ataque ao euro, procurando desfazer a união entre os países que o adotaram, acometendo em primeiro lugar, como é evidente, os que são mais fracos. Fator poderoso de união, a moeda única é um passo de enorme significado para a criação dos Estados Unidos da Europa, que urge concretizar.
No dia em que os senhores do dólar perceberem que o euro não morrerá, nesse mesmo dia a crise que hoje vivemos acabará. Nós, simples cidadãos a sofrer, na pele, as consequências do egocentrismo deles, só esperamos que os responsáveis europeus compreendam, tão bem como nós, essas manipulações, e avancem no único caminho que permitirá à Europa continuar o seu papel no Mundo: a união política e monetária com um enquadramento fiscal equitativo tão homogéneo quanto possível.
Termino com uma nota de otimismo: Quando a crise acabar, haverá um período de desenvolvimento e prosperidade, pois os senhores do dólar, vendo que não destruíram o euro, vão seguir o velho provérbio que diz “se não os podes vencer, junta-te a eles.”
Na Europa, não há muito mais tempo a perder!
2012-10-13
J. M. S. Simões-Pereira

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Jornal das Letras, Ler, Os meus Livros, as páginas do jornal Público...

PUBLICAÇÕES PORTUGUESAS SOBRE LITERATURA, AO SERVIÇO DE QUEM?

O patriotismo destas publicações culturais é muito duvidoso.

Se o autor não é ídolo da TV - ou figura mediática, até pode ser futebolista - então não importa o que ele escreve ou, pior ainda, o assunto sobre o qual ele escreve...

Li há pouco tempo, depois de ver um grande elogio da crítica, o livro "A Caixa Negra" de Amos Oz (editora D. Quixote, 2a. edição).

Tema: Um casal divorcia-se e, no centro da polémica, está um filho dos dois, chamado Boaz, cuja guarda a mãe não quer perder e por isso aceita até, recusando testes de paternidade, que o pai fique na dúvida sobre se Boaz é seu filho ou não.

Ela casa em segundas núpcias e tem uma filha do segundo marido, a Yafat. Vicissitudes diversas levam ao início de um segundo divórcio em que o pai pretende ficar com a guarda da criança, acusando a mãe de adultério por esta ir apoiar o primeiro ex-marido na fase terminal da sua doença.

O cenário é internacional e a personagem principal de toda a história é o drama da guarda dos filhos de pais divorciados enquadrado pela derrocada da instituição família.

O livro é vedeta nos media e nos escaparates das livrarias. Mas há uma pergunta que não posso impedir-me de fazer: - Por que motivo exatamente estes mesmos temas, quando tratados por um autor português, não motivam uma única palavra desses media nem aparecem nos escaparates das livrarias? Não há uma única palavra... nem de elogio nem de crítica, demolidora que fosse!

O Jornal das Letras, as revistas Ler ou Os Meus Livros, as secções literárias de vários diários de referência, ninguém se preocupa em promover ou divulgar o que é nosso! Assim se defendem os autores portugueses. Assim estas publicações revelam o seu patriotismo! Assim cumprem os seus superiores desígnios de servir a cultura portuguesa!

Por isso vos peço que leiam e avaliem por vós próprios os meus contributos, que assinei como Zé-Manel Polido: a prosa de "Amor, Solidão e Fé" e as poesias de "Amor Explorado", ambos publicados pela Editora Luz da Vida . Não seriam merecedores de alguma atenção?

Zé-Manel Polido

quinta-feira, 14 de junho de 2012

DEDICATÓRIA: AOS QUE ME BLOQUEARAM!

Dos três livros técnicos que escrevi, o primeiro que publiquei foi dedicado à memória do meu Pai porque, apesar de médico, devo-lhe o entusiasmo pela matemática; o segundo foi dedicado à minha Mulher por ter criado o ambiente que me permitiu recomeçar a trabalhar, após um período de terríveis dificuldades familiares.

É evidente que, nos prefácios dos livros, menciono também as numerosas pessoas a quem tenho o dever moral de agradecer pelo apoio que direta ou indiretamente me deram.

Ando agora a hesitar quanto à dedicatória do terceiro que terminei recentemente e vai ser publicado em breve. Estou a ponderar dedicá-lo AOS QUE TENTARAM BLOQUEAR O MEU TRABALHO. Assim mesmo! Porquê?

Porque ao fazê-lo, estimularam-me a prosseguir, criaram em mim uma espécie de desejo de os vencer, mostrando-lhes que, embora tenham podido atrasar os meus planos, não conseguiram evitar que eu os levasse a cabo. Lembro-me de ter lido algures que "quanto mais se persegue um homem mais ele corre". Comigo, isso sempre aconteceu.

Reconheço assim que devo alguns dos meus triunfos em parte à adversidade que me foi criada. É neste sentido que estou grato também aos que me bloquearam.

Aceito naturalmente que me perguntem: -- "Então se lhes deves gratidão, que fizeste para os recompensar?" A resposta é simples: ajudei-os a evoluir como pessoas, ensinando-lhes que tentar bloquear os outros é uma atitude pateta que pode não resultar e até ter efeito contrário ao que eles pretendem.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

TRATADOS, LIVROS, SEBENTAS, FOLHINHAS

SEBENTAS?

A velha tradição académica coimbrã cunhou a palavra “Sebenta”. Eram folhas de apontamentos, dactilografadas, muitas vezes brochadas a imitar um livro, que procuravam reproduzir o que um professor dava nas aulas. Num tempo em que não havia fotocopiadoras para piratear edições, as sebentas sempre saíam mais baratas que as alternativas então usadas: os chamados “Tratados” – “les Traités”, quase todos de autores franceses, que eram verdadeiras enciclopédias sobre as áreas científicas que cobriam e que incluíam, quase sempre, resultados originais dos seus autores.

Entretanto o enciclopedismo morreu e agora já não há tratados; o que há são “Monografias”. Os maiores cientistas, os grandes sábios, já não escrevem tratados mas sim, em vez deles, monografias, em cada uma das quais se ocupam – com profundidade e cuidado, não o neguemos! – de um e apenas um tópico pelo qual se interessam ou interessaram.

Quanto à palavra “sebenta”, caiu em desuso. Foi substituída pela expressão, mais aristocrática, “texto de apoio”. E passou a ser frequente ser o próprio professor a redigi-lo e a afixá-lo na Internet.

Só que, por cada asneira que nos escapa quando revemos o texto de um livro a publicar em suporte de papel, há vinte que nos escapam – sem a mínima dor de consciência – quando revemos umas folhas de apoio que vamos disponibilizar na Internet. E porquê?

Porque no papel a asneira fica lá, a testemunhar a nossa incúria… ou falta de sabedoria. Na Internet apaga-se com um clique e, “não se encontrando o cadáver, é mais difícil provar que houve crime!”

Por tudo isto dou razão a um amigo que compara a sebenta – ou os textos de apoio – a um barquinho salva-vidas; e um livro – digno desse nome! – a um luxuoso navio de cruzeiro ou pelo menos a um iate privado de um qualquer multibilionário.

Porque o mercado em Portugal é pequeno e ser ou não “digno desse nome” é um qualificativo difícil de atribuir, sem contestação, a qualquer livro técnico, poucos se aventuram ao trabalho de escrever um. Até porque a escrita de uma obra dessas, que noutras épocas era a consagração de um mestre, hoje pouco pesa na avaliação da qualidade do desempenho da carreira docente universitária. Contam mais os artigos de investigação, mesmo os de poucas páginas – que sem dúvida merecem apreço, pois é com eles que a Ciência avança!

Em todo o caso não se justifica a escandalosa desvalorização do tratado que tem, a meu ver, uma dupla explicação: em primeiro lugar, para quê existirem se ninguém tem coragem de os ler? Em segundo lugar é melhor não falar neles para não termos de assumir a nossa incapacidade de os escrever!

terça-feira, 20 de julho de 2010

POBRES PROFESSORES DOUTORES!

Pobres professores do ensino superior!

Somos indiscutivelmente os trabalhadores mais mal pagos na relação salário dificuldade da carreira! E continuamos, masoquisticamente, dispostos a sacrifícios inúteis, improdutivos, ridículos.

Este cartaz nasceu por uma mensagem que, hoje, 20 de julho de 2010, acabo de receber de um colega por quem aliás tenho o maior respeito e a mais sincera admiração dado o seu curriculum científico e pedagógico. Mas a mensagem é a convocar-me para uma reunião a 3 de setembro - pasme-se! - para discutir a melhor maneira de apaparicarmos a caloirada que vai entrar na universidade no próximo ano!

Bom, não faço mais comentários! Vou transcrever a minha resposta ao colega:

++++++++++

Oh meu caro e prezado Colega:

Vamos ver se lhe consigo fazer chegar esta mensagem sem o magoar. Nós
portugueses, para nosso mal, somos uns vidrinhos, ofendemo-nos com um
mosquito, e eu, que vivi em 3 países ditos desenvolvidos, já me apercebi
que esta nossa hipersensibilidade é uma das razões pelas quais ninguém se
manifesta, ninguém dialoga, ninguém faz sugestões... e, portanto, nunca
passamos da cepa torta...

Vem isto a propósito da sua convocatória para uma reunião a 3 de setembro.
Como estou a trabalhar no duro e não vou fazer férias, por mim até podia
marcar a reunião para 15 de agosto, um dia que é feriado e é domingo!

Mas deixe-me fazer-lhe uma observação: há um ano, creio que também foi sua
a marcação de uma reunião qualquer para os primeiros dias de setembro, com
convocatória em julho; este ano a sua ‘’reincidência’’ leva-me a uma
pergunta: o que move o seu super zelo? Ainda não começaram as férias que,
na nossa profissão, ao contrário de todas as outras, nem podem ser
escolhidas por nós, e já está a lembrar-nos que temos de servir a Pátria,
''com coragem e valor'' logo a seguir a elas...

Olhe, estimado Colega por quem tenho a máxima consideração apesar de
discordar desta sua pressa: não ignore - eu sei que quem vive só na
Academia ignora muitas vezes o Mundo real, aquele que existe para além da
sala de aulas e das bibliotecas, em papel ou virtuais - não ignore que
nós, professores do ensino superior, estamos a ser profundamente
injustiçados e mal tratados
. Há aspetos que têm melhorado - isso é
indiscutível! São coisas que melhoraram com o nosso esforço e a nossa
iniciativa, o nosso voluntariado, em suma. Produzimos e organizamos mais a
nível científico e didático, trazemos mais prestígio para as nossas
instituições. Mas há outros aspetos em que estamos a andar para trás. Hoje
somos trabalhadores mal pagos. Não duvido: os mais mal pagos em relação às
dificuldades da carreira!
Compare com o que lhe cobra qualquer trabalhador
ou pequena empresa por reparar um cano, uma torneira ou uma tomada
elétrica, ou por lhe pintar uma parede ou desempenar uma porta! E na nossa
especialidade, Matemática, não temos sequer qualquer hipótese de obter
rendimentos extra nem, muito menos, sermos nós a fazer o preço pelo nosso
trabalho.

Ora Bolonha veio trazer, em Coimbra, um aumento enorme de trabalho
improdutivo para nós. Numa época, em que todos falam de produtividade! Por
exemplo: esta história da avaliação contínua. Já verifiquei que, na
Clássica de Lisboa, há gente que continua a fazer avaliação com um simples
exame final. Isto tudo é discutível, é verdade: eu, por exemplo, penso que
haver só um exame final estimula os alunos a aprenderem a ser responsáveis
e a gerir o seu tempo, uma competência mais valiosa para eles que saberem
o teorema de Pitágoras (o seu equivalente em espaços de Hilbert, claro)!
Os minitestezinhos só lhes prolongam a adolescência, para não dizer a
infância; e eu sei isso por experiência própria, pois o aprendi quando
tinha 14 anos e saí da infantilizante escola pública de então para uma
onde havia liberdade; e lá aprendi a saber usá-la e, consequentemente a ser
responsável.

Enfim, se leu até aqui, também já contribuí para delapidar um pouco do seu
tempo que podia ter usado em coisa mais produtiva que a ler o meu
escrito!!!

Um abraço de muita estima e consideração – apesar da discordância! – e
tenha umas boas férias. E no dia 1 de Setembro, quarta-feira, por favor
torne a mandar a convocatória para o dia 3, sexta-feira!

Renovados cumprimentos!

J. M. S. Simões Pereira
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Visite o blogue: ze-manel-polido.blogspot.com

domingo, 13 de junho de 2010

5 Euros por prova corrigida! Mas para mim, ZERO

E PARA MIM... NÂO VAI NADA, NADA, NADA?

Sou, como se pode ver no meu perfil, docente do Ensino Superior. Mas assumo o lugar comum: tenho por todos os que trabalham com competência e honestidade o mesmo respeito independentemente dos graus académicos.

Ora o que hoje, 13 de junho de 2010, acabo de ler na primeira página do Diário de Notícias foi uma enorme surpresa: o Ministério da Educação paga 5 euros a cada docente por prova corrigida dos exames nacionais no Ensino Básico e no Secundário!

Não vou dizer que é imerecido, acalmem-se os colegas destes níveis de ensino! Sei muitíssimo bem que é um trabalho desgastante, demorado, que não entusiasma. Por isso não direi que é errado remunerá-lo. Evidentemente que não!

O que eu digo é que, sendo verdadeira esta notícia, nós, no Ensino Superior, somos vergonhosamente explorados.

Cada um de nós tem de preparar as questões a propor aos alunos - não há nenhum GAVE a fazer-nos esse serviço - temos de as escrever no computador, temos de as imprimir e fotocopiar - não vem a GNR trazê-las à nossa porta - temos de as corrigir, e, pelo menos no meu caso, é tradicional mostrar as provas depois de corrigidas aos alunos que as quiserem ver, enfim é frequente apresentar aos alunos uma possível resolução dos problemas propostos - o que é viável na Matemática, embora não o seja, obviamente, noutras áreas.

E isto acontece uma vez no ano? Não, com a famigerada reforma de Bolonha, os alunos têm direito a avaliação contínua, que envolve além de vários minitestes durante o semestre uma chamada frequência no fim das aulas - que é um exame como outro qualquer - depois um exame chamado da época normal, depois um outro chamado da época de recurso e ainda um quarto exame - de facto este só para alunos em situações especiais - que se chama da época especial. E cada aluno não tem uma só oportunidade, atenção!

Então quanto é que nos pagam por todo este trabalho? Quero dizer, quanto é que me pagam, para falar com todo o rigor pois não estou mandatado por ninguém nem sei de facto o que se passa noutras universidades, noutros departamentos, noutras faculdades?

Pagam-me NADA ou seja, matematicamente falando, ZERO!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ciência e cultura gratuitas: Sim ou Não?

Acabo de ler um documento no Boletim Quinzenal do meu sindicato, o SNESup, em que o autor preconiza a disponibilização gratuita do conhecimento e dos bens culturais. Para ele, as músicas, por exemplo, deviam ser postas à disposição do público na Internet, sem qualquer remuneração a pagar por quem as quisesse gravar, os livros, a mesma coisa, enfim, na era das telecomunicações fáceis, a cultura e a ciência deviam ser produzidas de graça.

Espantoso que o autor desse documento não propõe -- como devia fazer para ser coerente -- que tudo o resto que se produz devia ser igualmente gratuito. Por que razão deveremos pagar o arroz, as batatas, o pão ou a fruta que comemos? Porquê pagar ao pedreiro e ao carpinteiro que produzem as casas onde moramos? Porquê pagar o petróleo e seus derivados ou quaisquer outras fontes de energia?

É certo que há sociedades que parecem viver felizes sem que os seus membros paguem serviços ou bens mutuamente fornecidos: desde a infância que admiro as formigas e as abelhas. Mas haja coerência como entre elas existe: ou se paga tudo ou não se paga nada!

E num mundo que paga, e caro, as tacadas de Tiger Woods, os xutos de Cristiano Ronaldo e as raquetadas de Serena Williams, que razão nos levará a aceitar que não se devam pagar os resultados do esforço, suor e lágrimas dos que produzem ciência e cultura?

Certamente que já houve tempos em que muitos não eram pagos pelo seu trabalho e produziram grandes obras: os escravos e servos da gleba não eram pagos e alimentaram reis, nobres, senhores feudais e grandes exércitos; e no Antigo Egipto, segundo se diz embora alguns já duvidem, terão sido escravos os que construiram monumentos que ainda lá estão, milhares de anos depois. Preconizará o autor do artigo a que me refiro a reintrodução da escravatura na sociedade do futuro da qual parece querer ser arauto? Sendo que esses novos escravos seriam os cientistas, os intelectuais, os artistas...

Temos pois um arauto do futuro a defender um regresso ao passado! E vamos com sorte, porque também nesse passado, ao qual eu não quereria regressar, cientistas e artistas não eram lá muito bem pagos. Havia alguns reis e nobres mecenas que eram mais ou menos esmoleres para os que, com música, teatro e bufonaria matavam o tédio das cortes e salões dos seus senhores. E cientistas, e também artistas, alguns o conseguiram ser porque eles próprios pertenciam a famílias nobres: nasceram ricos, não enriqueceram com o que descobriram ou criaram.

Enfim, convenhamos, pior ainda do que não ser pago é ser castigado por produzir conhecimento e cultura. Se seguirmos a proposta do autor do artigo que refiro, o primeiro passo será não ser pago; e nesse regresso ao passado o segundo passo é talvez pagar com a vida ou a liberdade a ousadia de pensar ou de produzir progresso. Não foi isso que aconteceu a Sócrates, o grego, à Hipátia de Alexandria, ao Galileu Galilei?

Ora, responder-me-á o autor do artigo, trabalhem sem ganhar e dêem-se por felizes: por enquanto ainda não preconizo para vós o destino de Sócrates, Hipátia ou Galileu!

Ze-Manel Polido

sábado, 30 de janeiro de 2010

POLIGAMIA E INCESTO: SER OU NÂO SER LIBERAL

Hoje, 14 de Fevereiro de 2010, estou a acrescentar uma nota que julgo significativa ao cartaz que aqui afixei em 30 de Janeiro passado. É que a nossa sociedade, por mais que diga o contrário, continua cheia de tabus: o texto que divulgo abaixo foi enviado a várias publicações nacionais nas secções de Fala o Leitor e quejandas. Alguém se atreveu a publicã-lo? Oh! Oh! Foi como se eu estivesse a apelar a colaboradores para alguma acção terrorista!
Leia o meu amigo o que eu escrevi e julgue por si:

Na onda de liberalização das opções sexuais livremente consentidas entre pessoas adultas, ocorre-me perguntar o motivo pelo qual ainda se não iniciou a discussão da possível legalização da poligamia e do incesto.

Reproduzo um pequeno texto que escrevi há dias:

POLIGAMIA E INCESTO: LEGALIZAR OU NÃO?

Pessoalmente só tenho contra o casamento de homossexuais o nome que se lhe dá. Penso que degrada e ridiculariza o contrato que livremente estabelecem e que, tendo obviamente um enquadramento distinto do casamento tradicional, deveria também ter um nome diferente. Estranho porém não se aproveitar este momento de viragem na instituição chamada família para liberalizar e/ou legalizar outras situações muito mais frequentes e que continuam proibidas e por discutir.

Primeiro exemplo: a poligamia. A proibição de um homem ter várias esposas ou uma mulher ter vários maridos tem causado e continua a causar sofrimentos, tragédias e crimes. É uma fonte de stress para todos os envolvidos. E para quê? Quantos homens e quantas mulheres têm relações fora do casamento e não deixam de ser amorosos e atentos tanto para os cônjuges como para os amantes? Sem esquecer as festas em que casais se reúnem para trocar de parceiro sem que daí advenham más consequências. Também ao discutir a adopção por casais homossexuais, lembremos as crianças nascidas de relações poligâmicas; embora os anticoncepcionais tenham atenuado o problema, ele ainda existe e ninguém gosta de ser filho ilegítimo (bastardo era a palavra ainda pior que felizmente caiu em desuso). A legalização da poligamia porá fim a estes dramas. Na verdade há países onde a poligamia é legal e são modelares como sociedades pacíficas e de reduzidíssima violência: conheço bem o caso da Suazilândia.

Segundo exemplo: o que hoje se chama incesto. Por que não permiti-lo e legalizá-lo? Aqui argumenta-se com riscos genéticos para os descendentes desses casais. Existem de facto? No Antigo Egipto o incesto era usual e não parece que tenha levado à degradação da espécie ou à queda dessa civilização que foi a mais duradoura da História conhecida. Será outra discussão que as sociedades ditas ocidentais deverão encetar para abrir caminho a uma revolução no conceito de família em que a união legal de homossexuais é apenas um tímido começo.

Zé-Manel Polido
(Coimbra)

sábado, 15 de agosto de 2009

CENTRALISMO E AMBIENTALISTAS EM PORTUGAL

A FIGUEIRA DA FOZ, O GOLFE, A CIMPOR E O CABO MONDEGO

Aqui na Figueira da Foz recordei hoje um artigo meu saído no Diário de Coimbra há mais de 9 anos. Relê-lo mostra como tudo continua sem mudar neste nosso país que padece do característico síndrome dos países do terceiro mundo: desenvolve-se a capital (e o Algarve que é onde a capital passa férias) e deixa-se o resto entregue à natureza. Uma opção tranversal aos partidos que têm passado pelo poder, no que obviamente se revelam úteis os auto-proclamados ambientalistas...

Nove anos depois, é amargo reconhecer que, entre os projectos a que me refiro, só não foi inviabilizada a Foz Village; e a pista de remo em Montemor-o-Velho, embora sobreviva, não tem a envolvente que já devia ter... e pergunto-me se a virá a ter...


Segue-se a transcrição do artigo publicado a 22 de Abril de 2000:

++++++++

DA CIMPOR AO GOLFE: O QUE MOVE OS AMBIENTALISTAS E OS "PROTECTORES DA NATUREZA"?

Ainda não tínhamos digerido a inviabilização do golfe na Figueira da Foz e logo sabemos que o de Mira sofre o mesmo destino. E que houve pareceres negativos contra a pista de remo em Montemor-o-Velho: não sei aliás se também é inviabilizada. E que o magnífico projecto de urbanização Foz Village, entre Buarcos e o Cabo Mondego, também está a ser vítima dos ambientalistas e protectores da natureza. Só que - e isto é fantástico mas é um facto! - os mesmos que tanto se empenham contra estes projectos estão mudos e quedos contra a fábrica da Cimpor do Cabo Mondego e contra a co-incineração em Souselas e Maceira. Não se lhes ouve um só murmúrio contra estes monstruosos atentados ao ambiente.

Se em política o que parece é, permitam-me que pergunte, o que parece isto tudo?

Que coerência têm estas associações de ecologistas? Porque não se pronunciam contra os projectos do Algarve e da Grande Lisboa, sejam eles na Arrábida ou em Sintra? Não são estas áreas dignas de ser preservadas? Tanto são que a co-incineração foi logo excluída do Outão, mesmo sem os protestos deles! Porque se identificam os alvos dos ataques destas associações com tudo o que possa trazer desenvolvimento à Região Centro, especialmente na vertente turística? Porque permitem eles que os seus pontos de vista se colem aos interesses da indústria hoteleira do Algarve e Grande Lisboa, e aos mais fanáticos partidários do centralismo lisboeta ou enfim da bipolarização turística Lisboa-Algarve?

Porque, deixemo-nos de ingenuidades: o ambiente é de nós todos, não é só dos caracóis e dos batráquios, dos malmequeres e da passarada, é dos humanos também. A flora e a fauna actuam sobre o meio ambiente e nós humanos temos pelo menos iguais direitos. É óbvio que temos de actuar com inteligência e cautela, mas isso não implica deixar tudo nas mãos (ou melhor, nas patas) da bicharada. Termos uma floresta, umas dunas, uns lagos ou lagoas intocados, onde os humanos não entram, será uma maneira de educar para a protecção do ambiente? Como educadores sabemos que para amar e respeitar a natureza temos de nos habituar a conviver com ela. Se tudo nos for inacessível, duvido que esse amor e esse respeito se desenvolvam nas novas gerações.

A opção que me parece realista quanto ao golfe da Figueira ou de Mira não é entre umas lagoas e dunas impolutas e virgens e uma floresta de betão a substituir-se às espécies que os ambientalistas e outros protectores da natureza dizem tanto amar. A alternativa realista é outra: é entre haver turistas, e consequentemente trabalhadores a cuidar da limpeza dos espaços, das plantas, das relvas, das lagoas, das árvores, ou haver apenas marginais e um ou outro raro passante que pensará "que bonito que isto podia ser, se estivesse arranjado e aproveitado!"; é entre haver bolas e tacos de golfe, ou haver preservativos e seringas, restos de papel higiénico, sacos de plástico rotos a verter cascas de frutas e côdeas de pizza, fraldas descartáveis fétidas e sujas. Lixos que ninguém obviamente limpará, estercos que ninguém vai remover. Mas quem quiser jogar o golfe tem a Grande Lisboa e tem o Algarve e para contemplar a natureza tem o Parque de Monsanto, Sintra ou a Arrábida, e a costa algarvia, onde há hotéis, restaurantes, discotecas, condomínios fechados e tudo o mais. Para o lazer dos que têm tempo ou já não precisam de emprego e para se empregarem os que ainda precisam de o fazer. Que vão todos para lá! E que suba nessas regiões o nível de vida e que continuem pobres e sem empregos os que vivem na Região Centro. Afinal também estes, se quiserem, podem ir para essas regiões privilegiadas onde a natureza resiste a todos os golfes, projectos imobiliários de férias e fins-de-semana, equipamentos turísticos e de lazer de todos os tipos. A desertificação não é um problema, pelo menos não incomoda os caracóis, batráquios, malmequeres e passarada. Nem incomoda os protectores da natureza. Nem certamente a Cimpor.

Senhores políticos, desçam das nuvens! Ouçam a meia dúzia dos iluminados protectores da natureza, mas ouçam também a meia dúzia de milhões de portugueses (talvez de facto já sejam menos...) que ainda não emigraram para a Grande Lisboa. Que vivam caracóis, batráquios, malmequeres e passarada, sim! Mas que vivamos nós humanos também! Façam favor de encontrar rapidamente alternativas locais aos projectos que inviabilizaram. Usem a inteligência que têm! Porque nós, cidadãos comuns, também não somos desprovidos dela!

J. M. S. Simões Pereira

(Professor Universitário)

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Diário de Coimbra a 22 de Abril de 2000

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

PROFISSIONAIS DO ENSINO E PROFISSIONAIS QUE ENSINAM

Vou acrescentar mais uma página às muitas que se têm escrito sobre os problemas ou pseudo-problemas das chamadas Ciências da Educação.

A espiral de degradação em que se encontra o ensino pré-universitário afecta toda a sociedade e é sentida e vivenciada em primeira linha por aqueles cuja actividade os envolve nestes problemas.

Tenho para mim que uma das causas desta degradação é a dicotomia que menciono no título: há, nas escolas, profissionais do ensino, mas faltam profissionais que ensinam. Exemplificando com a minha especialidade científica: quem ensina Matemática nos níveis do básico ao secundário, tem de ter, por exigências do próprio sistema e frequentemente a contra-gosto, muito mais em comum com baby-sitters do que com matemáticos profissionais. E isto é tremendamente errado, porque por um lado eterniza a infância dos jovens em vez de os estimular a crescer e, por outro, estiola a capacidade dos docentes para viver - digamos, com generosidade, a metade - do seu campo de acção que será (ou deveria ser) a preparação como matemático, enquanto a outra metade seria a preparação como ensinante. E digo que sou generoso, porque acredito que a preparação como matemático devia tomar mais do que metade do seu esforço e da sua dedicação.

Curioso é que a vantagem do ponto de vista que defendo é tácita embora não abertamente reconhecida pela sociedade. Falando sem tabus: em que se baseia o prestígio da Universidade Católica Portuguesa? Essencialmente – e invoco, também mas não só, a minha própria experiência como aluno pós-graduado que fui desta universidade – no facto de a maioria dos seus docentes serem profissionais que ensinam, quer dizer, pessoas que têm a sua principal actividade fora do campus e ali vão dar aulas como actividade secundária. Transmitem assim aos seus alunos uma experiência de vida que é benéfica para eles, não só em si mesma como também porque lhes faculta desde logo contactos para o acesso ao mercado de trabalho quando receberem os seus diplomas. Disso resulta os seus graduados terem muito menos dificuldades em encontrar um primeiro emprego do que os de outras instituições de não menor qualidade. E o que é válido para esta escola é-o também, em larga medida, para várias faculdades da Universidade Técnica de Lisboa.

Ressalvo, para não me acusarem de ambíguo, um facto: em muitas outras universidades nacionais, a maioria dos que, legal e oficialmente e antes de tudo, são chamados professores, pois nelas trabalham em exclusividade, não se limitam a ensinar: são também profissionais que ensinam pois a sua actividade de investigação, divulgação, organização e serviço à comunidade extra-universitária vai muito para além do simples acompanhar dos seus próprios estudantes.

Relativamente aos docentes do ensino pré-universitário, devem estes, a meu ver, em especial os do secundário, ser estimulados a crescer no conhecimento e manuseamento das áreas da sua docência porque acredito que quem sabe fazer sabe ensinar e por vezes desconfio que têm razão os que ironizam com o provérbio “quem sabe, faz, quem não faz - ou é quem não sabe? - ensina!”

E estes que ensinam mas não fazem, lá se vão escudando no conhecido, gasto e ridículo argumento, tão querido aos gurus da Psicologia e das Ciências da Educação, que, mesmo quem não sabe fazer nada, se for cientista da educação sabe garantidamente ensinar!

Mas ensinar o quê? É a pergunta que nós outros, que não somos gurus nem sequer cientistas da educação, lançamos… para ficarmos sem resposta.

domingo, 16 de novembro de 2008

A BÍBLIA E DARWIN



A CAROCHINHA, A SUA HISTÓRIA, A BÍBLIA E DARWIN (*)

Parece que ainda há pessoas, e até nas sociedades ditas desenvolvidas, que levam à letra as palavras do livro do Génesis, o primeiro da Bíblia.

Deus terá feito o Mundo em seis dias: segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado... uma semana portanto. Primeiro terá separado a luz das trevas (o que até parece de acordo com a teoria do Big Bang, pois antes dele só haveria trevas e nada e depois dele é que se fez luz), depois separou as águas das terras (se isto significa haver estados diferenciados da matéria, precursores de um estado sólido e um estado líquido, mantém-se uma aparência de acordo), em seguida fez os astros (as estrelas, o Sol, a Terra, a Lua). Até aqui, uns três ou quatro dias... e o que significará a palavra dia?

Mas difícil mesmo de acreditar é o calendário das actividades seguintes! Julgo que terá sido qualquer coisa como: Ele teria feito os peixes na quinta-feira de manhã, as aves na quinta-feira à tarde, a bicharada que não sabe nadar nem voar, na sexta de manhã, o homem nesse mesmo dia à tarde, depois reparou que não tinha feito a mulher e foi fazê-la a correr provavelmente já no Sábado, antes do almoço, para poder dormir a sesta com a consciência tranquila de quem completou o seu trabalho... e no dia seguinte, domingo, repousou todo o dia. Não terei sido muito preciso para os exegetas do Génesis, mas, mais quarto de hora menos quarto de hora, mais manhã menos manhã, mais tarde menos tarde, tudo se teria passado assim.

Francamente, não acredito de modo algum nestes pormenores. E compreendo que um Darwin que vivia numa sociedade puritana (e hipócrita, como são aliás quase todas as sociedades puritanas) tivesse querido combater essa visão dominante no seu tempo com a teoria que apresentou. Embora dissimulado com grande inteligência, o seu objectivo deve ter sido essencialmente político, ou político-social; terá sido um esforço mais destinado a abalar a autoridade secular de um poderoso clero, do que a explicar cientificamente fosse o que fosse.

Diz-se que, na opinião dele, as espécies não teriam surgido assim todas numa hipotética primeira semana da história do Mundo. Terá havido uma longa e lenta evolução em que novas espécies apareciam e outras se extinguiam, tudo ou quase tudo passível de ser explicado pela sobrevivência dos mais aptos. Ou seja, quando surgiam indivíduos com características distintas das dos seus progenitores, características essas que os tornavam mais aptos a sobreviver, então eles sobreviviam, transmitiam-nas aos seus descendentes, e aqueles a quem essas características não eram transmitidas ficavam com menos recursos para sobreviver e acabavam por se extinguir. Ainda com mais razão se extinguiriam aqueles indivíduos que surgissem com características diferentes das dos progenitores mas tais que os tornassem mais frágeis, menos aptos a enfrentar o ambiente. Dá pois a ideia, esta bela construção teórica, que houve uma evolução contínua (ou quase contínua, talvez mesmo, admitamo-lo, com alguns saltos discretos) em que os seres aparecidos posteriormente tinham mais capacidades, mais competências -- como se diz agora -- para a luta pela vida.

Será assim? Não parece! Como se teriam sentido os nossos antepassados ao verem as aves, que já existiam antes deles e já voavam porque tinham asas, perante a triste realidade de não terem asas? A evolução em vez de os tornar mais aptos, tornou-os menos aptos. Porque, não duvidemos, para fugir aos representantes de outras espécies fisicamente mais fortes e menos simpáticas -- eu direi os crocodilos, os mamutes, as serpentes -- que já povoavam a Terra, umas asas tinham dado muito jeito. E eles, se tivessem conhecimento do darwinismo, perguntar-se-iam: Como é que as perdemos? A evolução devia ter-nos tornado, já que a nossa espécie apareceu mais tarde, mais aptos, ou, na pior das hipóteses, devia manter-nos tão aptos como aqueles que antes de nós já tinham o direito às asas.

E quem diz asas, diz guelras. Então não se terão sentido revoltados os homens primitivos, porque a evolução, em vez de lhes dar guelras ainda mais perfeitas que as que tinha dado aos peixes surgidos antes deles, privou-os delas? Assim, em vez de mais aptos a sobreviver quando caíssem à água ou quando a água, numa inundação, maremoto ou chuva diluviana lhes caísse em cima, ficaram menos aptos, ou melhor, totalmente inaptos... e ainda o estamos, uns tantos milénios depois.

Talvez, em breve, a introdução de um gene de águia ou abutre e outro de bacalhau ou pescada no óvulo dos nossos netos lhes permita nascer com asas e guelras... mas isso, que digo e prevejo sem a menor ponta de ironia, não é fruto da evolução natural mas da ciência e da tecnologia. Não é uma confirmação, mas sim o desmoronar completo da teoria de Darwin porque provará que afinal podíamos ter mantido as asas e as guelras já usadas em espécies mais antigas -- quanto às asas até os pterossauros as tiveram e alguns não seriam muito mais leves que os humanos -- mas afinal a evolução não se dignou mantê-las! Teremos de concordar que estamos em presença de um claro desmentido do facto, mil vezes repetido pelos darwinistas, de que com a evolução sempre se avançou, tornando cada espécie mais apta que as anteriores. Aqui falhou redondamente. E este caso específico é apenas um entre milhares de outros casos análogos.

Há uma outra situação que põe claramente a nu a ingenuidade -- ou a arrogância! -- dos que consideram a espécie humana mais apta, mais capaz, mais adaptada que outras espécies a partir das quais ela terá evoluído. Refiro-me à proverbial (e real!) incapacidade de uma criança de sobreviver por si só. Então quando as crias de tantas espécies, mal saem do ovo já estão aptas a fazer pela vida e de facto sobrevivem sem qualquer apoio dos seus progenitores, nós, humanos, que teoricamente devíamos ser mais avançados, mais capazes, mais competentes, nós que como espécie seremos das mais recentes e portanto produto de uma mais longa evolução, de um mais demorado aperfeiçoamento... não conseguimos minimamente sobreviver, logo após nascermos, sem apoios?

Dos recém-nascidos -- não serão muitos mas infelizmente são alguns -- que certas mães desesperadas deitam no lixo, porventura já algum foi visto a roer um osso, a trincar uma espinha, enfim a tentar ingerir restos de comida que pudesse encontrar no contentor onde o abandonaram para se proteger de uma carência que certamente o matará? Nenhum! E no entanto, milhares de crias de peixes, por exemplo, sabem muito bem fazê-lo! Conclusão: não nos tornámos mais aptos que essas espécies que já existiam antes de nós. Tornámo-nos menos aptos e, por isso, teoricamente, segundo Darwin, não devíamos ter sobrevivido como espécie. Em suma, com Darwin ou sem ele, vamos assumir com humildade -- uma humildade que não é bíblica nem nada tem de mística ou metafísica! -- a seguinte e indiscutível verdade: neste ponto, somos menos aptos que todos os peixinhos e muitas outras espécies não aquáticas que nos precederam na cadeia da evolução...

Lembro-me de um dia ter lido, ocasionalmente, numa revista de divulgação científica, na sala de espera do meu dentista (razão pela qual não posso citar mais precisamente a fonte) o que o autor chamava um argumento decisivo a favor do darwinismo. Era, entre outras, a questão do olho. Ele dizia que devíamos reparar na razão pela qual o olho (ou mais rigorosamente, a capacidade da visão) se desenvolveu. De facto, argumentava ele, uma espécie sem visão rapidamente se tornava presa de outra espécie com visão, o que levaria a primeira a ser aniquilada e a segunda a prosperar; pois era claro, para o referido autor, que a espécie cega não podia fugir eficazmente da espécie com vista quando esta a atacasse.

Fiquei a pensar nas espécies vegetais; e nas espécies animais herbívoras... As plantas parece-me que não têm olhos; e mesmo que os tivessem, não têm pernas para fugir. Como é que ainda se não extinguiram todas?

Não escamoteemos factos verificados experimentalmente que parecem confirmar o grande Darwin: há vírus ou bactérias que, depois de combatidos, digamos durante uma década, com medicamentos antivíricos ou antibióticos que a princípio os destroem, evoluem e tornam-se resistentes. Quer dizer, as gerações seguintes ficam invulneráveis àqueles medicamentos que aniquilaram os seus antepassados. Ora, se pensarmos um pouco, isto não confirma mas sim desmente a teoria da evolução. Porquê? Porque -- admitamos que é verdade -- um vírus ou bactéria consegue rapidamente evoluir e tornar-se mais apto a sobreviver àquilo que o envenena e mata. Mas então essa capacidade perdeu-se (em vez de se adquirir) algures na cadeia evolutiva. Como é que um vírus faz isto no espaço de uma década e nós, humanos, produto de uma evolução que a partir desses micro-organismos nos devia ter tornado muito mais aptos e versáteis, continuamos a morrer se bebermos cicuta, exactamente como morreu o Sócrates, vai para 24 séculos? Essa capacidade de produzirmos descendência mais competente do que nós a resistir àquilo que nos envenena e mata, essa capacidade que os vírus e bactérias parecem ter, nós não a temos, contra o que seria de esperar dos postulados do darwinismo. E de desejar, postulo eu!

É verdade que têm aparecido alguns seguidores de Darwin que já não acreditam tanto nele como anteriormente se acreditava. Pelo menos tentam dar umas pinceladas de alguma cor nova para retocar a sua velha história. Estou a lembrar-me de Dawkin e da sua famosa e rendosa encenação chamada o gene egoísta! Mas que grande ideia nova que ele trouxe à sociedade! Como os genes se transmitem de pais para filhos, ele coloriu esta história dizendo que eles são eternos e usam os nossos corpos como uma casa de habitação temporária: quando a casa se degrada e se desmorona eles já estão a viver numa casa mais nova. Por isso são egoístas: servem-se da casa para passar umas décadas, mas estão apenas interessados na sua própria sobrevivência. A acreditar em Dawkin, eles são, não diremos eternos, mas talvez perenes.

Será esta ideia assim tão luminosa? Como, segundo os físicos, os núcleos dos átomos ora ganham ora perdem alguns electrões que os gravitam, vamos passar a chamar-lhes núcleos egoístas: sobrevivem à custa da nuvem dos electrões mas estes passam e eles é que ficam! Ou talvez vice-versa: os electrões é que são egoístas: servem-se dos núcleos para gravitar à volta mas, se o núcleo se desintegrar, eles rapidamente encontram outro núcleo! Enfim, os próprios átomos também serão egoístas pois integram moléculas mas sobrevivem à destruição destas; apenas se servem delas enquanto lhes apetece, depois arranjam outras onde se instalarem.

Quando penso nas considerações que acabo aqui de tecer, sou incapaz de decidir quem serão os mais ingénuos: Os que levam à letra o texto do Génesis? Ou os que levam à letra Darwin e os seus continuadores?

Já não falo dos milénios desde que se escreveu a Bíblia, mas do século e meio desde que Darwin lançou o seu manifesto. Século e meio durante o qual a Santíssima Inquisição já se tinha tornado inofensiva de modo que ninguém precisa de temer acabar na fogueira por apresentar ideias que não se inspirem no Génesis. Século e meio ao fim do qual nenhuma Darwiníssima Inquisição -- das que continuam a investir na intoxicação da opinião pública em geral e da juventude escolar em particular -- pode reivindicar o direito de queimar na fogueira os hereges como eu. Sendo estas Inquisições hoje inofensivas, naturalmente me questiono: -- É só por não haver coragem, ou porque a ninguém ocorre uma alternativa melhor, que ainda não se avançou com uma teoria mais credível, enfim, sem eufemismos, com uma teoria digna da nossa época, que explique a biodiversidade com menos fantasias ou fantasias menos delirantes?

Quando criança ouvi contar (e cantar!) a história da carochinha: bonita e arranjadinha, ela procurava um noivo para casar. Ao longo da vida, percebi que história da carochinha é expressão sinónima de descrição fantasiosa ou pelo menos fantasiada. E é desta metáfora que me socorro na presença de discussões entre criacionistas e evolucionistas seguidores de Darwin.

Tenho no entanto de reconhecer que os media estão agora a começar a anunciar, com grandes trombones e trompetas, que alguns génios da Biologia -- jovem prodígio, foi como recentemente o respeitado jornal on-line ‘’Ciência Hoje’’ chamou a Kevin Foster que será um deles --já descobriram finalmente que não é só a lei dos mais aptos que condiciona a evolução das espécies! Já não era sem tempo... mas, como diz o ignorado e ignorante povo iletrado português, antes tarde do que nunca! Creio que a frase é de Saramago e eu vou apropriar-me dela: Sou um pessimista cheio de esperança! Talvez isto seja o começo do caminho para enterrar de vez a teoria dos mais aptos.

© J. M. S. Simões Pereira, 15 Novembro 2008
(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve "Convicções e Cepticismos"

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO? ARTES DA EDUCAÇÃO?

ARTES (E NÃO CIÊNCIAS) DA EDUCAÇÃO (*)

Não sei se é a pressão dos linguistas que querem manter as línguas imutáveis e por tal motivo não aceitam que se inventem palavras novas para factos novos. Mas se os factos são novos, tem de haver para eles palavras novas. Este é um aspecto que, na minha opinião, tem de ser revisto. Ainda há outro em que os linguistas deviam intervir mas também aí ninguém vê neles qualquer reacção: refiro-me à utilização inadequada de palavras que, ou não exprimem o que se quer significar ou exprimem um facto distinto daquele a que se referem.

Exemplos não faltam. No campo da Informática, área muito afim daquela em que trabalho, os profissionais de programação de computadores e os teóricos da chamada Matemática Computacional usam a palavra instância em vez de exemplo ou caso particular. Transliteram o vocábulo inglês instance que, como todos nós sabemos, mesmo os não linguistas, equivale a exemplo (todos nós, americanos e portugueses, dizemos a cada passo "for instance" e "por exemplo", respectivamente), mas não equivale ao português instância: em português, o que há é tribunais de várias instâncias e também há quem faça pedidos instantemente.

Uma outra situação ridícula é o mais que discutido casamento de homosexuais, homens ou mulheres: tenho a convicção que a maioria das pessoas que se opõem à oficialização ou legalização destes contratos o fazem, não por oposição ao contrato em si, mas sim pelo uso de uma palavra que não foi criada para o expressar. Repare-se que, no imobiliário, um contrato de compra e venda não é o mesmo que um contrato de permuta: há uma diferença, relativa aos contratantes. No primeiro, na compra e venda, há alguém que tem e quer deixar de ter e outro que não tem e quer passar a ter; no segundo, ambos têm e querem continuar a ter. Justificadamente, os contratos têm nomes distintos; traduzem situações com algumas semelhanças mas que não são idênticas. Nesta linha de pensamento, porque é que não há-de haver nomes distintos para o casamento entre homem e mulher e o que persistem em chamar casamento entre dois homens ou duas mulheres? Impõe-se a intervenção de linguistas que criem uma palavra nova. Se cada coisa tivesse o seu nome, só se dignificariam ambas e não se estabelecia uma inútil confusão que prejudica sempre quem copia e irrita quem é copiado.

Estas considerações feitas um pouco ao lado dos temas que me propus tratar servem para melhor esclarecer o meu ponto de vista sobre uma polémica que tem também incomodado muita gente.

É o caso das Ciências da Educação. Porquê este nome, obviamente a despropósito? Não há Ciências da Educação! O que há, e seria mais correcto e honesto chamar-lhes assim, é Artes da Educação. O que aliás em nada as desprestigiaria. Até há pouco mais de um século, a Medicina era uma Arte; depois começou a ser uma mistura de Arte e Ciência; agora é muito mais Ciência que Arte. E porque é que podemos fazer esta afirmação? Porque agora sabemos que, se tomarmos a vacina anti-tetânica, é quase absolutamente certo que não vamos morrer com o tétano; e se tomarmos a da rubéola, também ficamos seguros - quase absolutamente e insisto no quase porque em Medicina o absoluto não existe - que não adoeceremos com rubéola.

Ora vejamos o contraste: Que vacina podem os educadores dar a uma criança que garantidamente a imunize contra tornar-se um criminoso ou mesmo apenas um miúdo violento? Ou um deprimido? Ou que a modifique, produzindo um jovem que adore ir à escola a partir de um adolescente que detesta fazê-lo?

Qual é pois a razão para falar de Ciência a propósito da Educação? Respondem-me que é porque, no seu âmbito, se fazem uns inquéritos, se obtêm umas estatísticas, se esquematizam uns resultados utilizando alguns cálculos de matemáticas elementares como sejam percentagens ou proporções. Bem, os pintores, em particular os figurativos, também recorrem um pouco à geometria quando querem respeitar as leis da perspectiva. Deveremos por isso mudar o nome desta forma de arte para Ciências Pictóricas? Quem frequentar uma faculdade ou escola superior de Belas Artes deverá passar a dizer que está a tirar uma licenciatura em Ciências da Pintura?

A excepção serão as Ciências Musicais, porque compor, harmonizar, orquestrar e mesmo afinar instrumentos musicais são actividades enormemente matematizadas. Mesmo assim, o espaço reservado à criação pura, seja do compositor ou do intérprete, é enorme. Também a Arquitectura tem Arte e tem Ciência, e Ciência tem até, embora em menor escala, a Escultura: é óbvio que ao esculpir uma estátua, há que considerar volumes, forças, equilíbrios... mesmo assim, é essencialmente uma Arte, não uma Ciência.

Por isso não se generalizou nem creio se generalizará no futuro próximo, qualquer designação do tipo Ciências Escultóricas nem mesmo Ciências Arquitectónicas.

Resta-nos o ridículo da designação Ciências da Educação.

Assumamos, pois, que a Educação é uma Arte. E que exige talento, em grande parte inato. E que quem brilha na criação dessa forma de arte merece o nosso respeito e admiração; mais até, a sociedade deve ser grata aos que a cultivam porque o seu papel na formação das gerações futuras é fundamental.

Só não se intitulem cientistas. São artistas, sim, e orgulhem-se de o ser, mas não reivindiquem títulos que não se quadram de modo algum aos aspectos centrais da actividade que praticam!

Que gostem de fazer isto ou aquilo, é legítimo; se lhes é apelativo por razões subjectivas, pratiquem-no! Mas não o queiram impor como um protocolo tecnológico ou uma lei científica! Porque disso, nada tem. O que para uns não terá nada de belo para outros é o supra-sumo da estética, às vezes simplesmente porque se generalizou, porque se tornou de uso ou prática numa dada época: como exemplos actuais darei, na Poesia, não haver rimas nem métricas; e na Arte do Vestuário, vulgarmente chamada Moda, as calças e blusões de ganga rasgados, tão em voga à data em que escrevo! A Arte não deve ser imposta. E cada vez é maior a tendência para não o ser. O pensador francês contemporâneo Gilles Lipovetsky fala abertamente nos seus estudos da morte da chamada moda imperativa; hoje, diz ele, a moda é plural. O tempo em que os grandes costureiros -- hoje dir-se-ia, estilistas -- diziam às mulheres: minhas senhoras, a baínha das saias este ano é a x centímetros do chão ou este inverno as botas usam-se pretas ou qualquer outra coisa do género, já passou; e segundo este autor, não é de esperar que volte. Portanto não se pode afirmar que alguém anda ou não anda na moda, que alguma coisa está na moda ou fora de moda.

Isto tudo é consequência, segundo ainda o mesmo pensador, do que ele chama o hiperconsumismo: ninguém se quer afirmar como pertencendo a uma ou outra classe, quer sim afirmar o seu próprio eu... livre, hedonista, procurando valorizar a imagem que criou para si.

E o que se passa na arte do vestuário, passa-se em todas as outras manifestações artísticas. É que os artistas sabem que a Arte não se impõe. E não há que procurar explicações racionais para o que cada um valoriza sob o ponto de vista estético! A menos que queiramos repetir os chavões das grandes damas do século dezanove, quando se elogiavam mutuamente pelo "Bom Gosto" que nisto e naquilo revelavam ter. Na Arte, hoje em dia, não há nada a demonstrar! Muito menos se deve ter a estulta presunção que "é assim que todos devem fazer".

Compreende-se e aceita-se que uma Ordem dos Médicos ou dos Farmaceuticos exija a todos os seus membros que, perante uma determinada patologia, passem a prescrever um novo medicamento B em substituição do antigo medicamento A porque se verificou que os efeitos curativos do novo são claramente superiores aos do anterior. Se um levava uma semana a curar uma dor na cabeça ou no cotovelo e o outro a cura apenas num dia, não hesitemos. Estamos aqui em presença de um avanço científico, fruto de uma actividade científica, que temos de encarar como tal.

Pelo contrário, se ordenarmos a todos os pintores que pintem segundo o gosto (ou, mais expressivamente, o bom gosto) de um determinado mestre, por mais popular, mais inovador, enfim, mais genial que ele seja, aniquilaremos esta forma de arte.

É por isso que são tão catastróficas as consequências de ordenar a todos os professores, a todos os ensinantes, a todos os educadores que instruam, que ensinem, que eduquem de acordo com um modelo congeminado pelos pseudo-cientistas da Educação; porque os gurus da Educação não são cientistas, são sim artistas. E, consequentemente, não devem nem podem dar indicações, muito menos ordens, aos seus confrades. Quando muito, que dêem exemplos!

2008.04.21

© J. M. S. Simões Pereira

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(*) Este texto é extraído de um livro a publicar em breve “Convicções e Cepticismos

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

O FAMIGERADO PROBLEMA DOS EXAMES

Permito-me trazer à colação um dos ingentes problemas a que se dedicam os peritos das Ciências ditas da Educação: devemos ou não sujeitar crianças e adolescentes a essa tortura monstruosa que no século dezanove se aplicava nas escolas e que dava (e dá) pelo nome de EXAMES?

Mas claro que não, diz a maioria daqueles preclaros especialistas. Exames para avaliar o que os alunos aprenderam? Mas isso que importa? Vamos submetê-los a umas horas de um enorme stress, capaz de os traumatizar para o resto da vida. Se na vida não há stress, para quê obrigar os jovens a saber o que isso é? E porventura podemos avaliar alguém só por essa simples vertente? Façamos sim avaliação contínua, durante o ano lectivo. Essa ainda pode valer alguma coisa. E há imensas outras competências que não se podem avaliar num exame e são pelo menos tão decisivas para triunfar na vida como os conhecimentos adquiridos sobre qualquer matéria, seja Português, Inglês, Matemática, História, Filosofia...

E sabemos, ou julgamos saber, que os povos verdadeiramente avançados já há muito acabaram com os exames... a Finlândia, por exemplo, ao que por aí consta. É por isso que os jovens finlandeses andam todos felizes e nunca, mas nunca mesmo, fazem disparates nas escolas.

Pois é verdade, este será um primeiro passo para entrarmos na era da avaliação contínua e global. Diz-se, aliás, que as provas e competições desportivas, como os Jogos Olímpicos, por exemplo, são um repugnante vestígio de um passado bárbaro que devia ser a vergonha dos gregos antigos que os inventaram. As medalhas vão passar a ser dadas pela avaliação contínua dos atletas nos treinos durante cada período de quatro anos. Quem tiver melhor avaliação, quem tiver sido mais assíduo aos treinos, tiver obtido melhores tempos no estádio da sua cidade, sem stress, bem apoiado pelos seus amigos, familiares, treinadores e dirigentes, no clima a que está habituado, enfim, com todo o conforto, esse é que ficará com a medalha de ouro; o que tiver uma avaliação um pouco mais baixa, mas ainda assim superior aos outros todos, esse ficará com a medalha de prata. E assim sucessivamente... todos aliás terão medalhas... de bronze, de ferro, de níquel, de cádmio, de papel, de plástico (biodegradável, evidentemente!)...

É de facto traumatizante obrigar os atletas a mostrar as suas capacidades longe da sua amada pátria, num ambiente de concorrência com outros que eles nem sequer conhecem, que falam outras línguas, que têm outros hábitos. E, drama dos dramas, pôr em risco quatro anos de treinos numa prova que, por exemplo, nos 100 metros, dura hoje menos que 10 segundos... É sem dúvida o cúmulo do absurdo!

E mais, o valor de um desportista não reside só nas suas marcas. Um desportista que corra os 100 metros em 15 segundos pode ter qualidades humanas muito superiores a um que os corra em 10 segundos. Pode, no futuro, quando por força da idade tiver de abandonar a competição e passar a dirigente desportivo ou professor de educação física, mostrar ser mais competente e mais bem sucedido que outro que, na juventude, tenha alcançado melhores marcas. Não pode ser só pela atribuição de um número que se classifica uma pessoa. E um desportista é uma pessoa!

Por tudo isto vamos avançar rapidamente para um novo sistema de avaliação dos atletas em que as provas em estádio sejam completamente eliminadas. Será o fim do stress de que hoje são vítimas todos os que se dedicam à alta competição. Saudemos, pois, o advento desta nova era no mundo do desporto. Introduzamo-la rapidamente.

Parece que a Finlândia o vai fazer já este ano na modalidade de esqui alpino: vão passar a contar o número de descidas que cada um faz por semana, o número de quedas, os dias em que faltaram aos treinos, se ficaram a transpirar ou não depois de cada descida, como se comportou o batimento cardíaco e como variou a taxa da glicémia após cada treino, enfim, será com este acompanhamento contínuo que depois, no período que no futuro substituirá o mês dos exames -- perdão, o mês dos campeonatos -- se atribuirão medalhas e se registarão recordes.

Claro que o sistema também vai ser aplicado no volei, no hoquei, no basquete, no futebol... Não haverá mais campeonatos do modelo actual. No futebol, por exemplo, que tanto encanta os portugueses, não se pode decidir quem é o melhor no curto período de uma hora e meia. Vamos decidir quem será campeão avaliando continuamente os treinos, incluindo os períodos de aquecimento... Os esquemas actuais ficarão na História como exemplos do barbarismo da nossa civilização. Aliás passará a haver também uma avaliação dos treinadores e dos árbitros: quanto aos treinadores, os melhores serão aqueles que souberem motivar a sua equipa a treinar esforçadamente mesmo sabendo que não vai haver, nos jogos em que participarem (jogos amigáveis, claro, que serão os únicos que subsistirão), nem vencedores nem vencidos; e quanto aos árbitros, os melhores serão aqueles que consigam dirigir os referidos jogos sem mostrar cartões vermelhos ou amarelos. Têm de ser capazes de arbitrar tão bem que nenhum jogador pratique qualquer falta sobre outro jogador. Um bom árbitro tem de conseguir, com a sua simples presença, motivar os jogadores a darem o seu melhor com correcção, e, portanto, se mostrar cartões é porque não sabe ser bom árbitro.

O Mundo avança e só os mais empedernidos conservadores é que duvidam destas extraordinárias transformações da sociedade que nos farão a todos sentir à porta (ou será a Leste?) do Paraíso.

Escrito a 2008.07.09, afixado hoje, com uma pequena alteração, 2008.10.02

© Zé Manel Polido

terça-feira, 30 de setembro de 2008

ESMERALDA E O SEU PAI (BIOLÓGICO CLARO ESTÁ)

Hoje, 19 de Janeiro de 2009, estou a acrescentar algumas palavras à mensagem que afixei em fins de Setembro e cujo texto se pode ler em baixo.

O que eu quero acrescentar hoje é que me parece que o pai biológico vai poder finalmente ter a grande alegria de conviver com a sua filha.

O que é que eu espero para ser coerente com as minhas convicções? É que ele não se vingue dos pseudo-pais afectivos e não passe agora a ser ele a querer convencer a filha que eles eram os lobos maus.

Se o pai biológico não embarcar em tal comportamento de vingança, acho que a criança vai crescer sentindo-se feliz.

******

Segue-se o meu cartaz de Setembro:

*****


É profundamente revoltante que se manobre uma criança para odiar o próprio pai. E isto é, a meu ver, o que têm feito os que até ao momento detêm a criança.

Pois que efeito têm eles pretendido, desde o tempo em que a mãe adoptiva andou fugida com a pobre criança (é que até é ofensivo usar-se esta palavra ... mãe... mesmo adoptiva, para aquela senhora)

Uma criança deve ser ensinada a ter medo dos criminosos, isso está certo, mas o pai biológico não me parece que tenha o que quer que seja de criminoso.

O facto de uma criança amar os pais, biológicos ou adoptivos, com quem vive, não a impede de amar os tios, os avós, os padrinhos, os primos... e de os visitar e conviver com eles.

A vergonhosa manipulação que os pseudo-pais adoptivos fazem na pobre Esmeralda, apresentando-lhe o pai biológico como se ele fosse o lobo mau da história do capuchinho vermelho, é do mais revoltante que há. Ante a passividade de um sistema e de uns técnicos que não devem saber o que são sentimentos humanos de amor, tolerância, partilha... e por isso são cúmplices nessa situação monstruosa.

Se, apesar de tudo, essa criança conseguir chegar à idade de compreender a vida com as suas capacidades intelectuais intactas e com um espírito crítico suficientemente desnvolvido para não ser -- o que muita gente hoje infelizmente é -- um boneco manipulado pelas opiniões que lhe berram aos ouvidos, bom... não tenho dúvidas que vai sentir contra os pseudo-pais adoptivos uma tremendíssima revolta! Porque acredito numa frase que um dia, há largos anos, ouvi numa peça de teatro dramática. Não recordo o autor mas citarei a frase que tenho visto sempre confirmada:

"A vida faz sempre valer os seus direitos!"

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

ZÉ-MANEL POLIDO, A VOZ DO PAI DIVORCIADO

ZÉ-MANEL POLIDO

E O SILÊNCIO SOBRE O PAI DIVORCIADO

Quem ousa desafiar The Establishment?

Como já afirmei noutro cartaz que afixei neste blogue, ser autor e editor é uma curiosa experiência que muito nos ensina sobre a sociedade em que vivemos, neste caso, a portuguesa ou, mais propriamente, a ocidental. Os dois livros que publiquei sob o pseudónimo de Zé-Manel Polido “Amor Explorado” e “Amor, Solidão e Fé” (Editora Luz da Vida, Rua Mário Pais, 16-0-A, 3000-268 Coimbra, URL: www.luz-da-vida.com.pt) viram-se cobertos por um manto de silêncio só por tentarem trazer à luz do dia um drama politicamente incorrecto: a discriminação contra o pai divorciado. Para o leitor mais interessado, afixarei neste blogue alguns fragmentos do “Amor, Solidão e Fé”.

Entretanto o texto que segue foi extraído, com ligeiras adaptações, de um capítulo do meu trabalho final no curso de Pós-Graduação em Edição, Livros e Novos Suportes Digitais, na Universidade Católica de Lisboa, apresentado em Setembro de 2006. Continua válido! Deixo ao leitor a tarefa de tirar as suas próprias conclusões.

O silêncio que assassina:

Há, de facto, uma espécie de conspiração de silêncio sobre tudo o que não seja enquadrável no que, anos atrás, a geração contestatária chamava The Establishment; as gerações actuais deparam-se com idênticas barreiras no Establishment contemporâneo se pretenderem dizer o que não é politica, social ou religiosamente correcto.

Concordamos com o vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, José Jorge Letria, quando afirma, na entrevista publicada no número de Agosto de 2006 da revista Os meus livros: “A mim, o que me choca mais, mais do que dizer mal, é o silêncio que assassina”.

Cremos que o jornalismo em geral – talvez seja melhor dizer o “quarto poder” – é o principal responsável por essas barreiras de silêncio que se abatem sobre os recém entrados, como autores ou editores, no meio literário. Responsabilidade a começar nos críticos e comentadores e a acabar nos fazedores de opinião televisivos!

As promoções dos que não precisam delas:

Tem-nos efectivamente surpreendido o efeito “bola de neve” que é prevalecente a nível da promoção de edições literárias por todos os agentes envolvidos neste meio. Sem esquecermos as livrarias! Vejamos que, se uma determinada obra já vendeu 100 mil exemplares, em princípio não precisa de ocupar uma montra inteira; mas ocupa! Porque se está a obter um tão grande sucesso, é óbvio que a livraria a tem à venda e qualquer interessado em comprá-la pode entrar confiante e adquiri-la sem precisar de a ter visto na montra.

O mesmo se diga da postura das páginas literárias de qualquer revista ou suplemento da imprensa escrita: será preciso que todos analisem e reanalisem à exaustão o best-seller do momento, o seu autor, as obras que acabam de ser publicadas a reboque do mesmo tema e que esperam ter sucesso à sombra da primeira, as opiniões que outros críticos já emitiram a seu respeito?... Parecer-nos-ia que não, que não seria necessário prosseguir com super promoções de um produto cujo êxito já se confirmou; mas o que na realidade sucede é o contrário do que pareceria lógico. Os exemplos são por demais conhecidos e não vamos especificá-los por motivos óbvios!

Os temas de sucesso garantido:

Outro efeito que dificulta a vida aos referidos recém entrados é a prioridade dada a tudo o que tenha êxito comercial assegurado sem que minimamente se atenda à qualidade literária, para não dizer linguística e mesmo gramatical, ou à mensagem que a obra traz (ou não traz) consigo.

Se uma figura mediática, de preferência futebolista ou quejando, manequim, apresentador de programas televisivos ou vedetinha de telenovela ou de reality shows fizer publicar um livro sob o seu nome (no sistema de ghost writing, é claro, quer dizer, redigido total ou quase totalmente por um profissional da escrita), esse livro tem garantida uma enorme publicidade a todos os níveis e por todas as formas; e haverá, em consequência disso, ou talvez até sem necessidade disso, milhares de leitores interessados em o comprar, sejam homens que não realizaram o sonho de serem goleadores, mulheres que não realizaram o de se passearem em passerelles, jovens que não realizaram o de ser escolhidos num casting para algumas semanas depois entrarem na sua escolinha de peito inchado porque os outros meninos os viram na véspera na televisão.

Mencionemos ainda a prioridade dada às obras sobre temas em voga, as quais também têm êxito imediato: o centésimo romance dedicado, por exemplo, à violência do homem sobre a mulher vende tantos milhares de exemplares como vendeu o nonagésimo nono, o nonagésimo oitavo, o nonagésimo sétimo, etc. Porque este drama que, no nosso país, durante décadas se escondeu atrás do alcoolismo endémico dos rurais, agora publicita-se para evidenciar a emancipação da mulher urbana portuguesa! Dir-se-ia que ao mundo cinzento da aguardente cachaça e do vinho carrascão se igualou afinal o das flutes e do Johnnie Walker…

Mas mesmo que o tema nada tenha a ver com Portugal, desde que seja politicamente mediático… publique-se já! Os taliban impondo a burka no Afeganistão? Importantíssimo! Publique-se já! Os machistas da Arábia proibindo as mulheres de guiar automóvel? Verdadeiramente dramático! Publique-se já! A protagonista sofrendo a excisão do clitóris na África? É essencial que fique a saber dessa estúpida prática quem ainda não ouviu falar dela! Publique-se já! E publique-se já porque todas as páginas literárias vão dedicar parangonas a essa nova obra… embora nela nada mais se diga para além do que já foi dito e redito noventa e nove vezes…

Os poetas e o seu Gotha; alguém entende o que eles escrevem?

Enfim não esqueçamos as obras de poesia: ou o autor já entrou numa espécie de Gotha de poetas, um misterioso catálogo virtual de autores que são considerados poetas, ou não. Se entrou, vende o seu livro aos outros membros do Gotha; se não entrou, não vende a ninguém.

É certo que a poesia contemporânea são sequências de palavras cujo sentido provavelmente só quem está no tal Gotha ou vive ao seu serviço é que pode entender… São eles quem finge receber a mensagem, descodificando o que hoje chamam poemas, fiadas de algumas poucas palavras impressas no fundo de uma página; e parece que é importante ser no fundo, pois no cimo desvaloriza o conteúdo; ah! e o papel, sim, é de boa qualidade e a fonte tipográfica bem escolhida, pormenores cujo desrespeito levaria a que parte da mais-valia da obra se perdesse para sempre! Ao receberem tais mensagens, os eleitos vivem a mesma transcendência que sempre viveram os místicos, desde que a humanidade se conhece, quando afirmam percepcionar revelações do além através de visões ou vozes que só eles apreendem.

Em contrapartida ao que acabamos de dizer, qualquer livro de versos à moda antiga, ou seja, portador de uma mensagem e escrito em linguagem que todos entendam, com algum ritmo, métrica ou – pecado dos pecados! – rima… não é visto como poesia e resta-lhe candidatar as suas páginas a letras de canções ligeiras…

Ensaios e os partidos ou congregações apoiantes dos seus autores:

Quanto a ensaios e livros técnicos, assinalemos apenas que alguns problemas atrás mencionados também atingem o ensaio. Tornou-se claro para nós que a recensão de um ensaio por críticos literários das publicações de referência não tem nada a ver com o mérito respectivo! É que, também aqui, nem uma crítica negativa se pode esperar…

Se o autor do ensaio não for um consagrado – e pode sê-lo com inteira justiça pelo seu reconhecido talento e competência mas também pelo simples facto de ter um partido político ou uma congregação, religiosa ou agnóstica, atrás de si – ou se a editora não tiver o nome feito – e pode tê-lo pelos mesmos motivos que consagram um autor – não há sequer menção da obra; só o silêncio, o “silêncio assassino” de que Letria fala, a cobrirá…

O livro técnico e a fotocopilhagem:

E para não deixarmos de referir os livros técnicos destinados especialmente a apoiar os estudantes universitários portugueses, desses recordaremos um problema, este bem geral, que comercialmente afecta todas as editoras e todos os autores, consagrados ou não, estreantes ou veteranos: a fotocopilhagem, neologismo que alguém cunhou para designar o fenómeno que consiste em poupar uns cêntimos renunciando à capa dura e à boa encadernação e gramagem das páginas de um livro que poderia servir uns anos no estudo e na profissão, para usar em sua substituição umas folhas soltas e enrodilhadas que se atiram ao lixo no dia seguinte ao do exame.

A impunidade em que vivem as chamadas casas de fotocópias do nosso país é impressionante; pessoalmente recordo o que me aconteceu nos EUA quando entrei numa casa de fotocópias com uma revista científica onde tinha publicado um pequeno trabalho meu com apenas três páginas e eles se recusaram a fotocopiá-lo porque na respectiva ficha técnica se mencionava o copyright!

Conclusões:

Como disse no início, tire-as o leitor!

Lisboa, Setembro de 2006

© Zé-Manel Polido

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

QUE INTERVENÇÃO CÍVICA?

LITERATURA DE INTERVENÇÃO

Quem me conhece há pouco tempo pode gostar de saber até que ponto vai a minha intervenção cívica. Se sou ou fui deputado, autarca, dirigente ou simples activista de algum partido.

Propriamente, propriamente, não sou nem fui. Mas penso que todos nós, cidadãos, devemos manifestar a nossa opinião sobre questões e aspectos da vida em sociedade que nos sensibilizem de um modo mais intenso.

Por mim, vivi um drama que toca hoje muitos homens no chamado Mundo Ocidental: o drama do divorciado, pai de filhos menores, que se vê impossibilitado, pela ex-mulher ou pelos tribunais, de conviver com eles.

Todos ouvimos condenar – e muito bem – as mais variadas discriminações, seja pela cor da pele, pela religião, pela nacionalidade, pela etnia. Todos ouvimos condenar – e muito bem – as discriminações e violências de que a mulher tem sido vítima. Mas só agora se começa a falar desta última discriminação em que a vítima é o homem e a mulher a culpada. Todos os países da chamada civilização ocidental, tanto os do Hemisfério Norte como os da América Latina, estão a despertar para esta forma de violência que por ser essencialmente psicológica não é menos execrável que qualquer violência física.

Tem sido, pois, através da escrita e também como membro de associações que se preocupam com estas problemáticas, que dou o meu contributo à luta contra uma situação tão vergonhosa. Por isso me considero um cidadão que preza a sua intervenção na sociedade: e orgulho-me do meu pequeno contributo para ajudar a tornar o Mundo mais justo.

Respeito a opção – e o talento, sim! – dos profissionais da escrita que escrevem pelo prazer de escrever, pelo gosto de alinhar palavras, frases e intermináveis páginas, muitas vezes nos fascinando com a capacidade que têm de manejar, para não dizer manipular, a linguagem. Embora não defendam nenhuma tese nem documentem nenhuma situação da qual nos queiram tornar conscientes, muitos que tomam esta atitude são considerados – e talvez sejam efectivamente – grandes escritores.

Mas não é esse o caminho que escolhi. Eu prefiro escrever apenas quando estou convencido que tenho algo para dizer. Embora por vezes também não resista a fazer um pouco de humor! Acredito que quem sofre precisa, com mais razão ainda, que lhe dêem de vez em quando um pretexto para soltar umas gargalhadas saudáveis!

Para si, que veio visitar este meu blogue, aqui tem dois exemplos da minha escrita: um pouco de ironia num caso (foi escrito quando George Bush era o Presidente dos EUA) e muito sofrimento no outro. São dois poemas extraídos do meu livro Amor Explorado.

(Nota: Se gostar e quiser ajudar, compre na sua livraria ou encomende directamente à Editora Luz da Vida, Lda. Rua Mário Pais, n.º 16-0-A, 3000-268 Coimbra. Custa 10 euros, mas se indicar que viu neste blogue são apenas 9 euros. A editora pode mandar-lho à cobrança; mas se enviar cheque ou vale postal com a encomenda, as despesas de envio são por conta da editora.)

HUMOR NEGRO

To Mister President...

- Wanna learn Portuguese, Sir?


Limpar o Mundo

De terroristas,

De armas maciças

De destruição…

+

Projecto ingente,

Ninguém duvida.

Pela nossa vida,

Vamos em frente!

+

Dizem-me até,

E ninguém mente:

– Temos metralha

Inteligente.

+

Então, avante,

Acabar co’a raça

À mosca, à pulga

Mais à carraça!

+

Mosquitos, pulgas

Que tanto picam

Matá-los todos

É uma ilusão...

+

Mas mesmo assim

Há quem insista!

Este é o conselho

Que sempre dão:

+

– Vencer as moscas

Com o avião!

Contra os mosquitos

Usar canhão!

+

E quanto às pulgas,

A solução

É estoirar bombas

De fragmentação.

+

Já para carraças,

As ordens são:

– Se for preciso,

Matem o cão!

+

– E ovos e larvas

De todas elas?...

Pensaram nisso?

– Ficam no chão…

+++

RETRATO

Aos meus filhos:

Tenho na minha mesa de trabalho

Aquele retrato em que vos vejo aos dois...

Os dois junto a mim!

Momento fugidio…

Pensava então

Que o tempo de sofrer pela vossa ausência

Tinha chegado ao fim...

+

Ingenuidade!

Não vos voltei a ver...

Nossa separação recomeçou.

Culpa de quem? De quem só é feliz

Quando a vida dos outros destroçou...

+

E é neste limbo que paira o meu amor,

Pelos filhos que o ódio me arrancou.

Santa aliança, a dos que recearam

Que vós, filhos, me vísseis como eu sou...

 

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