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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

FERNANDO PINTO COELHO

Agora um professor de Química que admirei durante a minha licenciatura em Matemática em Coimbra de outubro de 1958 a julho de 1962:

FERNANDO PINTO COELHO

Fernando Pinto Coelho foi meu professor numa cadeira anual do primeiro ano que se chamava Química Geral. Menciono-o, embora ele não fosse matemático, porque a sua personalidade me cativou. Era um pedagogo notável. As suas aulas tentavam despertar o interesse a estudantes que não eram futuros profissionais de Química. Por mim, nem sequer gostava de Química, mas reconheço que Pinto Coelho tentava -- e conseguia! -- despertar o meu interesse por muitos dos assuntos que faziam parte do programa da cadeira.


Mesmo assim, estudei muito pouco. Aprovou-me com uma classificação muito baixa (11 valores na escala de 0 a 20 em que 10 é o mínimo para aprovação), mas eu definitivamente não merecia mais. No fim do ano letivo, ele gostava de conversar rapidamente com cada estudante em particular: chamávamos-lhe o “confessionário”. A mim perguntou se eu não tinha gostado da parte dos átomos com as suas nuvens de eletrões, se isso não tinha um certo sabor matemático. Se bem me recordo, respondi-lhe que sim mas que, de facto, tinha dado prioridade às disciplinas de Matemática e por isso reconhecia que tinha estudado pouco da dele.


A julgar por opiniões de membros atuais do Departamento de Química (ver Sebastião J. Formosinho: Nos Bastidores da Ciência 20 anos depois, Edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007), Pinto Coelho foi um dinamizador das atividades de investigação em Química em Coimbra; obviamente, por mim, não posso dizer nada sobre o seu contributo nesta vertente.


Pinto Coelho tinha uma filha que era nessa altura aluna universitária. Com a esposa, ele costumava passar as férias de agosto na Figueira da Foz. Gostava de dar grandes passeios a pé, sozinho. Mas também gostava de se sentar a conversar com pessoas das suas relações e amizade.


Uns 10 ou mais anos depois de ter sido aluno dele, quando eu já tinha uns anos de trabalho profissional atrás de mim, também eu me encontrava com ele em férias e recordo-me de uma divertida conversa que tivemos aí por volta de 1968 ou 1969. Tinha sido inaugurada uma discoteca (talvez a primeira na Figueira da Foz) que se chamava Pessidónio: o nome prestava-se a gracejos pois havia quem pronunciasse Discoteca Possidónio. Mas ela ainda hoje, em 2012, existe e tem o mesmo nome! Eu tinha lá estado com um grupo de moças e moços, mas já todos tínhamos passado e bem passado a idade dos 20 anos. Como naquele tempo constava que toda a gente que frequentava discotecas ia para se drogar, ele perguntou-me como é que eu me sentia quando de lá saí. Como nem sequer álcool tinha bebido, respondi que me senti bem, como habitualmente. Ele e a esposa estavam sentados junto dos meus pais e de um outro casal e ele, para confirmar a minha resposta, virando-se para o meu pai e a minha mãe, perguntou-lhes se não tinham notado nada de estranho no meu comportamento…


Foi uma troca de impressões que sempre achei divertida e hoje recordo com um nadinha de saudade.

sábado, 13 de outubro de 2012

MANUEL NETO MURTA

Recordando ainda um outro professor da minha licenciatura em Matemática, que frequentei, entre setembro de 1958 e julho de 1962, na Universidade de Coimbra: 


MANUEL NETO MURTA


Em contraste com Beda Neto, Manuel Esparteiro, Pereira Dias e Manuel dos Reis, Neto Murta estava ainda nos cinquenta e poucos anos de idade quando fui aluno dele. Era também um homem calmo e por vezes sorria, mas dava a impressão que gostava de tornar complicadas certas coisas simples, pelo prazer de valorizar a sua própria capacidade de as explicar. De qualquer modo, ficou ligado à minha carreira, pois foi quando aluno dele, em Cálculo das Probabilidades, que me indicou o primeiro livro que li de Matemática Discreta: uma obra de John Riordan, intitulada “Introduction to Combinatorial Analysis”. Matemática Discreta veio a ser o campo a que me dediquei nos meus tempos de investigador e esse livro acompanhou-me até hoje.
O professor Murta tinha feito o seu doutoramento com uma tese de Física Matemática. No 3.º ano, era ele que regia a cadeira com este nome e a matéria que ensinava estava em parte contida na sua tese. Por essa razão, a mim parecia-me aquele programa demasiadamente específico, embora não deixasse de ter interesse. Mas, como estudantes, nós gostaríamos de ter ouvido falar de temas que nesses tempos eram mais apaixonantes, como, por exemplo, a teoria da relatividade, que sabíamos ser lecionada em Lisboa.
Fosse como fosse, Neto Murta era um homem acessível, não distante como alguns outros; cheguei a conhecer a sua esposa, uma senhora muito simpática e dotada de grande simplicidade. Não tinham filhos, mas tinham sobrinhos. Creio que um deles é hoje um dos mais prestigiados médicos oftalmologistas de Coimbra.



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

LUIS ALBUQUERQUE


Mais um professor da então chamada Secção de Matemática da Universidade de Coimbra, de quem fui aluno quando tirei a licenciatura entre 1958/59 e 1961/62:


LUIS ALBUQUERQUE


Luís Albuquerque era professor de Matemática e, consequentemente, era de esperar que a sua área de investigação e docência fosse a Matemática. Ele foi de facto, no início da carreira, coautor (com João Farinha, um assistente da Faculdade de Ciências, falecido relativamente novo, e que eu já não conheci) de duas boas coletâneas de problemas que nós usámos, como estudantes:
1) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Álgebra e Geometria Analítica", volumes I e II, Coimbra Editora, Lda. 1947/48;
2) João Farinha e Luís Albuquerque: "Exercícios de Geometria Descritiva", Atlântida, Coimbra, 1951.
Curiosamente, neste último, indica-se uma lista de publicações anteriores de Luís Albuquerque, incluindo um livro de 150 páginas intitulado "Algumas Propriedades dos Conjuntos de Espaços Abstratos", edição da Empresa Guedes, Porto, 1944, e um opúsculo sobre história da Matemática, aos quais não tive acesso.
Como seu aluno lembro-me dele como um homem um pouco frio, embora extremamente educado e acessível: estive, algumas vezes em sua casa. Sublinho que, quando eu era estudante universitário, os professores não tinham gabinetes de trabalho na Faculdade, nem obviamente a legislação exigia -- nem podia exigir -- que os docentes tivessem horários para atendimento dos alunos. Assim, era nos intervalos entre duas aulas que podíamos trocar umas breves impressões para esclarecer alguma dúvida ou pedir indicações bibliográficas. Quando queríamos falar mais demoradamente com algum professor, pedíamos-lhe que nos recebesse em sua casa; é verdade, porém, que só os bons alunos tinham coragem para fazer tais pedidos.
Luís Albuquerque era um homem com uma vasta cultura histórica e, a partir de certa altura, a sua atividade centrou-se essencial, para não dizer exclusivamente, na História dos Descobrimentos, uma área onde a sua ação foi notabilíssima. A obra de investigação que nos legou foi sobretudo nesta área. Dinamizou um Centro de Estudos do Mar e das Navegações que veio a chamar-se Luís Albuquerque quando, mais tarde, Alfredo Pinheiro Marques o dirigiu, mas que, infelizmente, me parece que estiolou em anos recentes.
Apesar dos seus interesses se terem claramente desviado da Matemática, apoiou diversos estudantes no início das respetivas carreiras de investigação. Tinha-se dedicado à teoria das matrizes e teve seguidores que vieram a doutorar-se nessa área como o meu contemporâneo e amigo Graciano Neves de Oliveira, um investigador ativo e prolífico que por sua vez entusiasmou outros e veio a criar uma notável escola em matrizes centrada em Coimbra, mas que ultrapassou fronteiras. Se o Graciano foi pai e obreiro dessa escola, Albuquerque teve nela sem dúvida o papel tutelar de seu avô.
Mencionemos enfim a sua atividade política. Homem de esquerda, foi Governador Civil de Coimbra no pós-25 de Abril, um cargo que, não duvido, ocupou muito do seu tempo e o afastou da universidade no último período da sua atividade como professor.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

LUÍS BEDA DE SOUSA TAVARES NETO


Hoje mais um professor da minha licenciatura em Matemática em Coimbra entre 1958/59 e 1961/62


Luís Beda de Sousa Tavares Neto



Nós, os alunos, não conhecíamos o seu nome completo. Todos o referíamos como Professor Beda Neto. Dava Álgebra Superior ao 2.º ano e Análise Superior ao 3.º, duas cadeiras, ambas anuais.
Nos exames, não era temido como o Manuel Esparteiro nem tinha a fama de generoso que tinha o Pacheco de Amorim. Era medianamente exigente e as matérias que ele ensinava não eram extensas.
Víamo-lo como um homem fechado, um homem que parecia viver num espaço limitado. Dir-se-ia que sentia alguma frustração. O tratado que naquela época era a referência principal para o estudo da Análise era da autoria de um francês, de nome Goursat. Lembro-me de ele me dizer um dia que tinha também projetado, ou talvez mesmo começado a escrita de uma emulação do Goursat… um Goursazinho foi a expressão que ele usou; começava com a sua tese de doutoramento que ele teria desenvolvido posteriormente. Mas nunca chegou a publicar. Era essa sua fragilidade que me tocou: apesar de minha juventude  eu não tinha nem sequer 20 anos  senti pena daquele senhor que assim me confessava um sonho que não teve coragem de realizar.
Além das suas dissertações, não sei de quaisquer outros trabalhos científicos que tenha publicado. E mesmo como responsável pela cadeira de Álgebra Superior, não tinha admiradores; havia quem considerasse que a matéria por ele dada não seria a mais adequada: a álgebra clássica, já nós a conhecíamos das Matemáticas Gerais do 1.º ano; seria de esperar, diziam os seus detratores, que ele desse o que então se chamava a álgebra moderna, a teoria dos grupos, anéis e corpos que o colega da Universidade de Lisboa dava na cadeira com o mesmo nome. Era mais uma razão que o apagava; não adivinho, se ele tinha ou não conhecimento destas críticas.
E apagado sempre ele foi até ao fim; quando se jubilou, diz-se que terá ido viver para fora de Coimbra, na casa de uma sobrinha. E nunca mais, ninguém ouviu falar dele.



domingo, 7 de outubro de 2012

MANUEL DOS REIS versus AMÉRICO TOMÁS

Mais um professor de quem fui aluno na Universidade de Coimbra quando aí cursei Matemática entre 1958/59 e 1961/62

Manuel dos Reis vs Américo Tomás

Recordarei aqui Manuel dos Reis, ou, melhor, Doutor Manuel dos Reis, como ele sempre assinava, pois a palavra Doutor integrava a sua rubrica e parece que a considerava como sendo parte do seu nome. Vaidade? Talvez, ele cresceu num tempo em que “lente” era a palavra usada para designar os professores universitários. Lente significava aquele que lê. O lente pegava num livro e lia, talvez até não conhecesse o conteúdo, apenas garantidamente sabia ler. E os estudantes ouviam. E tanto bastava para que os lentes fossem alvo da admiração e do respeito gerais.

Seria este o mundo em que Manuel dos Reis, na década de 1960 já próximo da jubilação, nasceu e viveu os primeiros tempos da sua atividade? Nós, os alunos, sempre o vimos como um homem de aspeto irascível, sem nunca sorrir, sempre de má catadura, totalmente inacessível! Dava Mecânica Celeste, uma cadeira anual, aos finalistas da licenciatura em Matemática. O programa era coberto pelas primeiras 200 páginas do “Traité de Mécanique Celeste”, um tratado em 4 volumes, com um total de mais de 2000 páginas, da autoria de um especialista francês, F. Tisserand, professor em Paris. Não sabíamos se Manuel dos Reis alguma vez teria ensinado outra matéria. Mas o ambiente do tempo era tão rígido, que a sua postura e a sua atividade não destoavam desse ambiente. Um homem que foi seu assistente, o Eng. Francisco Alves Ferreira, disse-me que, quando ele andava ocupado a redigir algum trabalho de caráter científico e lhe perguntavam quando ia ser publicado, ele respondia sempre que ainda não lhe tinha dado “a forma definitiva”.
                                                                ***
Em Coimbra, o chamado quarto de hora académico era uma tradição: qualquer coisa marcada para uma determinada hora começava sempre um quarto de hora mais tarde e não se falava de atraso, pois era uma regra seguida por todos. Manuel dos Reis, para as suas aulas, ampliou o quarto de hora para a meia hora, mas era rigorosamente meia hora, quer dizer, o seu atraso era… pontualíssimo. Chegava sempre de táxi. Nesse tempo, nenhum docente tinha gabinete de trabalho na universidade; ele por acaso até tinha porque era o diretor da biblioteca, na qual havia um pequeno escritório à entrada que ele poderia utilizar. Não me lembro de ouvir dizer que ele lá passasse tempo.
Contava-se que, todas as semanas, se deslocava a Lisboa e se encontrava com amigos na Pastelaria Versalhes, que já existia no mesmo local onde ainda hoje se encontra. Julgo saber que ele era membro da Academia de Ciências, mas desconheço totalmente a sua produção científica. Por certo terá sido autor, pelo menos, das dissertações exigidas para o doutoramento e a agregação (ou concurso para professor extraordinário, como se dizia na altura). Em Coimbra nunca aparecia em quaisquer eventos sociais, dos poucos que havia. Constava que era casado, mas julgo que não tinha filhos. Há um facto que parece indicar que ele terá desenvolvido qualquer profunda aversão a Coimbra ou, pelo menos, ao Departamento de Matemática onde durante tantos anos trabalhou. É que após o seu falecimento em 1990, certamente por indicação sua, a família doou à biblioteca da Universidade de Aveiro (não à de Coimbra!) o acervo bibliográfico que ele possuía: alguns milhares de livros sobre Matemática, mas não só. Pessoalmente acredito que a má catadura, que perante nós, alunos, sempre exibiu, tivesse a ver com qualquer misterioso ódio que nutria pela sua própria instituição.
                                                                      
                                                            ***
Talvez transpareça do que escrevo que eu não admirava este homem. É falso. Quero prestar a minha homenagem ao seu caráter de cidadão que eu vi não vergar a espinha perante os deuses do salazarismo. Foi um episódio sobre o qual escrevi um artigo, em 22 de maio de 1991, no Jornal de Coimbra, um semanário que então se publicava.
Tudo aconteceu a 17 de abril de 1969, o dia da inauguração do edifício onde se ia instalar, e continua hoje instalado, o Departamento de Matemática. Na mesa de honra, Américo Tomás então Presidente da República, o Ministro da Educação e o das Obras Públicas, o Reitor da Universidade, e Manuel dos Reis, como decano da Faculdade de Ciências. Rebenta o célebre incidente em que Alberto Martins, um futuro ministro, que então era estudante e presidia à Associação Académica, se levanta da sua cadeira na assistência e pede, aliás respeitosamente, ao Almirante Américo Tomás, para usar da palavra. Tomás pareceu ficar atrapalhado. Ele próprio se levanta também e responde, apontando o dedo ao estudante, “mas agora vai falar o senhor ministro das obras públicas…” Alberto Martins senta-se outra vez e todos nós ficámos à espera, que depois do senhor ministro falar, Tomás, num gesto de homem sem medo, interpelasse o estudante: “Fale então, senhor estudante, dou-lhe agora a palavra…” Tal, porém, não aconteceu.
O ponto que aqui quero salientar tem duas vertentes: uma é que, no discurso que Manuel dos Reis tinha proferido nessa cerimónia, antes do Alberto Martins se levantar, não houve palavras de sabujice às autoridades. Numa atitude raríssima naquele tempo, Manuel dos Reis falou com objetividade sobre as vicissitudes da história recente da Matemática em Coimbra; o seu discurso está publicado na íntegra na Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, volume 42, (1969), páginas 297-300. A outra vertente é que, quando Tomás se levantou para responder ao pedido do estudante, toda a mesa em peso se levantou, exceto Manuel dos Reis. Numa fotografia que o Jornal de Coimbra tinha publicado, e republicou com o meu artigo em 22 de maio de 1991, vemos esse homem que não sabia sorrir permanecer sentado, enquanto todos os outros estão em pé. Distração momentânea? Não viu que os outros se levantaram? Não creio.



sexta-feira, 5 de outubro de 2012

MANUEL MARQUES ESPARTEIRO

Neste ano da minha própria jubilação, continuo a recordar e a registar aqui as minhas memórias relativamente a alguns dos que foram meus professores quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962. Hoje recordo o
Manuel Marques Esparteiro

Relembro, no 1.º ano, Manuel Marques Esparteiro, o homem que dava as chamadas Matemáticas Gerais e depois, no 2.º ano, o Cálculo Infinitesimal, cadeiras anuais, pois naquele tempo poucas eram as cadeiras lecionadas num só semestre. Era um professor extraordinariamente exigente: para ser aprovado nas suas cadeiras, tínhamos de passar em primeiro lugar uma prova escrita e, em seguida, uma prova oral. Era esta que nos parecia terrível. Hoje penso que era útil, pois nos habituava a expor e a não ter medo do público; estas provas eram públicas e os colegas, por exemplo, podiam assistir e efetivamente faziam-no, até para irem ouvindo as perguntas que o professor decidia colocar mais frequentemente.
Como material de estudo, no tempo em que não havia nem fotocópias nem Internet, tínhamos livros na Biblioteca, que era excelente, não hesito em afirmá-lo. Eram essencialmente volumosos tratados, na sua quase totalidade escritos em língua francesa. Os professores portugueses não eram muito dados a escrever livros. O que tínhamos, sim, eram as chamadas “sebentas”, volumes dactilografados por algum estudante mais capaz de coligir bons apontamentos das aulas. Claro que esses volumes eram vendidos e os lucros eram para o estudante que os coligia. Havia um funcionário que os armazenava e, mediante uma pequena percentagem, servia de livreiro. O seu nome: o senhor Manuel dos desenhos, este qualificativo “dos desenhos” vinha de ele ser o responsável pelas portas de uma sala onde tinham lugar todas as cadeiras de Desenho que constavam do nosso curriculum: Desenho Rigoroso, Desenho de Máquinas, Desenho Topográfico…
Nos anos em que frequentei as aulas do Professor Esparteiro (1958/59 e 1959/60), então próximo da sua jubilação, havia a “sebenta” do Miranda, um conhecido e muito procurado explicador para alunos do 1.º ano; depois apareceu outro “autor” das respetivas sebentas que foi um condiscípulo um ano mais avançado e que veio aliás a fazer uma brilhante carreira de matemático como professor e investigador: o Graciano Neves de Oliveira.
Na verdade, Manuel Marques Esparteiro, como grande número de docentes universitários de então, não foi prolífico na escrita de livros ou trabalhos de investigação: sei que publicou uma dissertação para o seu doutoramento e uma outra para o concurso que equivaleria ao que hoje, em 2012, chamamos a agregação. Era assim naquele tempo! Não o condeno, pois embora não escrevesse, a sua cultura matemática era vasta e isso percebia-se por vezes nas aulas que dava.
Já jubilado, continuou a apreciar as coisas boas da vida. Costumava participar em almoços organizados, nos meses de verão, por uma empresa de seca de bacalhau, na Figueira da Foz. E embora preferisse as dietas vegetarianas, nunca, nesses almoços, se eximiu a uma boa sardinhada ou bacalhoada, enquanto comentava:  De vez em quando, também temos de fazer uma asneira!

Veio a falecer atropelado, creio que bem ultrapassados os 80 e muitos anos!



domingo, 30 de setembro de 2012

NUNO CRATO e JOÃO QUEIRÓ vs JOÃO PEREIRA DIAS

Mais um registo relativo a um professor de quando frequentei a Universidade de Coimbra, entre outubro de 1958 e julho de 1962 e um apelo a dois homens da atualidade: NUNO CRATO e JOÃO QUEIRÓ




João Pereira Dias

Um homem tranquilo! É a impressão marcante que me ficou deste professor. Regia uma disciplina anual do 1.º ano (Geometria Descritiva) e uma semestral do 2.º (Geometria Projetiva). A matéria destas aulas não é hoje coberta nos estudos conducentes à licenciatura ou a mestrados em Matemática: a geometria descritiva, e, em certa medida, também a projetiva, são consideradas mais importantes em Arquitetura ou Engenharia de Construção do que em Matemática. Para a sua prática, na atualidade, há software que muito facilita o trabalho, mas que é preciso dominar independentemente; pelo que pressupõem um conhecimento de recursos informáticos que nem todos os estudantes têm quando chegam ao ensino superior.

Nada sei sobre a carreira científica de João Pereira Dias, pois não conheço qualquer publicação de que tenha sido autor, nem sequer a sua tese de doutoramento. Sei, sim, e respeito-o por isso, que foi um cidadão interventivo, na medida em que tal era possível no tempo do Estado Novo salazarista.

Foi durante um longo período diretor da então chamada Faculdade de Ciências de Coimbra. Nos anos 30 e 40 do século passado, participou em análises e estudos sobre os planos da nova Cidade Universitária. Nessa qualidade, quando o Governo recusou subsidiar uma viagem a Madrid de dois professores que iriam visitar a cidade universitária madrilena para de lá trazerem informações úteis para o planejamento da de Coimbra, ele decidiu ir ele à sua própria custa, um ato de generosidade que muito diz sobre a sua dedicação à causa pública.

Julgo saber que muito se interessava pelo êxito da então chamada Secção de Matemática: alguém me relatou que, numa dada ocasião, ele se dirigiu às instâncias governamentais e conseguiu obter uma avultada verba para financiar a Biblioteca Matemática da Universidade de Coimbra.

Sublinharei que esta biblioteca foi durante muitas décadas uma referência no País, pela imensa coleção de revistas científicas que recebia. Tive ocasião de confirmar, nas numerosas visitas que fiz a instituições universitárias estrangeiras, que a nossa biblioteca ombreava, de facto, com as melhores que conheci. Compreenda-se aliás, que, em Matemática, o principal recurso para a investigação não são equipamentos sofisticados e caríssimos como os que são indispensáveis em Física, Química, Biologia, Medicina ou muitas outras especialidades científicas ou tecnológicas. O principal recurso é informação. Fazer investigação em Matemática, ao contrário de outras especialidades, onera relativamente pouco qualquer patrocinador, seja privado seja oficial, quer dizer, governamental. Talvez por essa razão, as bibliotecas de Matemática que visitei nos então chamados países do Leste (digamos, Polónia, Hungria, União Soviética) competiam em acervo com as melhores dos EUA, embora aqueles países tivessem imensas dificuldades com a troca de divisas e os pagamentos aos países do Ocidente. Escolhiam portanto, e muito bem, desenvolver o que era consentâneo com os seus condicionalismos.

Lamentavelmente, estes factos estão hoje esquecidos no nosso Portugal sempre em crise. E eu vejo definhar um organismo que conheci pleno de força e pujança. Não podemos pretextar que o digital é o papiro do futuro ou que a informação está hoje toda na Internet: está lá muita coisa, é certo, e, na minha opinião, deve lá ser posta toda a literatura matemática que está arquivada em livros e revistas esgotados. Mas a investigação em efervescência, viva e digna, tem de continuar a ser arquivada, em primeira-mão, em papel. Porquê? Porque este vai ser sempre legível; não vão deixar de ser fabricados leitores para este meio; vão, sim, desaparecer (na verdade, até já desapareceram) os leitores de fitas magnéticas, de “floppy discs”, de disquetes, e de quaisquer outros suportes digitais. E a Matemática, como tenho repetido muitas vezes, é uma Ciência – talvez a única – cujos resultados não se tornam obsoletos. Ou alguém afirmará que o teorema de Pitágoras é obsoleto? Ou a fórmula que dá a área de um retângulo? Ou a lista dos primeiros vinte números primos? E há quantos séculos foram obtidos estes resultados? Permanecem válidos!

Eu desafiaria os responsáveis de hoje a mostrarem-se à altura dos nossos antecessores, como o professor João Pereira Dias.

Apelo ao meu prezado colega de Coimbra João Filipe Queiró, catedrático de Matemática, membro do Conselho Geral da Universidade e agora também Secretário Geral do Ensino Superior, e ao Ministro Nuno Crato, outro amigo pessoal que muito prezo, igualmente matemático e incansável lutador pela qualidade da educação em Portugal, que encarem a biblioteca matemática de Coimbra com o interesse que ela merece e, num passo próprio do nosso tempo, avancem com a sua transformação no que eu chamaria um Centro Nacional de Documentação Matemática. Não é só com o número de doutorados que vamos exportar que nos prestigiamos. É também com a riqueza do conhecimento que possamos produzir e irradiar a partir das nossas instituições, que deverão manter-se abertas, facilitando a entrada, e não apenas a saída, dos que escolhem a investigação em – e a aplicação da – Matemática, como carreira profissional.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

JOSÉ BAYOLO PACHECO DE AMORIM



Neste ano da minha própria jubilação, quero recordar alguns dos meus professores, especialmente os que marcaram a minha juventude académica.
Começo pelo Professor Doutor

José Bayolo Pacheco de Amorim

Filho de um outro professor universitário, Diogo Pacheco de Amorim, herdou uma das cadeiras que o pai regeu, a Mecânica Racional, e coligiu as aulas do pai num livro que é realmente um modelo de organização e clareza matemáticas. Intitula-se “Lições de Mecânica Racional”. Não sei a quem cabe, se a ele se ao pai, a maior parte das virtudes da obra, pois já não fui aluno do pai. Admitindo que a responsabilidade é partilhada, exprimo aqui a minha admiração pela capacidade expositiva dos seus autores! Acrescentarei que, como aluno do liceu ou, como hoje dizemos, do ensino secundário, estudei aritmética racional por um livro da sua autoria que ainda hoje guardo, para eventual consulta, na minha biblioteca pessoal.

José Bayolo Pacheco de Amorim foi o primeiro cultor, em Portugal, do que hoje chamamos a teoria dos grafos e redes. A sua tese de doutoramento versava o célebre problema das quatro cores. Foi bolseiro em Espanha com Alfred Errera, outro pioneiro desta área, também injustamente esquecido ou, pelo menos, pouco lembrado!

As universidades portuguesas tinham, naqueles tempos, uma extrema rigidez de curriculum; não era possível oferecer aos alunos qualquer variação no elenco das disciplinas que constituem os cursos. Só muito mais tarde começou a haver opções. Um homem como José Bayolo Pacheco de Amorim nunca pôde oferecer uma disciplina sobre a sua especialidade, grafos e redes, aos estudantes.

Como investigador, nas suas dissertações e noutros trabalhos que publicou, ele fez uma análise pormenorizada do problema da dualidade entre cartas geográficas e grafos, recorrendo a conceitos delicados de Topologia.

Como cidadão, teve intervenção ativa na vida pública; era já então conhecida a sua enorme simpatia pela Causa Monárquica, o que por vezes terá levado alguns a considerá-lo um representante do que então se chamava a extrema-direita. Pessoalmente sempre senti o seu apoio profissional e nunca detetei qualquer discriminação, embora eu claramente não partilhasse a sua posição política. Sei que, à margem da sua atividade como catedrático de Matemática, foi um dos grandes dinamizadores do Instituto Politécnico de Tomar, ao qual começou a dedicar intermináveis horas de trabalho na idade em que muitos já só pensam em se aposentarem, e assim continuou já depois de jubilado da Universidade de Coimbra. A sua energia era impressionante, pois corria incansavelmente entre Tomar, Coimbra e a sua bela quinta no Minho… isto num tempo em que a rede - ou o grafo! - das autoestradas portuguesas era bem mais reduzida!

Sua esposa, cuja foto do tempo em que eram noivos ele mantinha na sala de visitas da sua moradia de Coimbra, sempre, em segredo, a admirei, pela sua beleza e juventude, que o seu estilo de vestir acentuava: sandálias pretas e soquetes brancos, saia rodada e blusa de mangas tufadas. Mais tarde, quando a conheci - obviamente, já o casal era adulto - profundamente apreciei, nas diversas vezes em que eles tiveram a amabilidade de me convidar, a dignidade da sua elegância gentil e a distinção do seu trato. Presto aqui, à sua memória, a minha mais sentida homenagem.


 

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