Ciência e Religião
Convicções dos cientistas e convicções
dos místicos
Quando
se fala de religião e ciência, há sempre quem as ponha frente a frente numa
espécie de oposição. Um caso clássico é o de Deepak Chopra e Leonard Mlodinow que
aceitaram adotar esta postura e publicar em co-autoria o livro “Guerra entre
dois Mundos: Ciência vs. Espiritualidade” (Editora Estrela Polar, 2012). É a tradução
em Português do original em Inglês “War of the Worldviews”.
Simone
Weil morreu em 1943, com 34 anos, hoje dir-se-ia em plena juventude. Mas a
força do seu pensamento continua a impressionar. Li recentemente o seu pequeno
livro “Carta a um homem religioso” publicado em 2003 pela Editora Ariadne
(tradução do original francês “Lettre à un religieux” publicado pelas “Éditions
Gallimard” em 1951). Termina com a frase:
“Como
mudaria a nossa vida se víssemos como a geometria grega e a fé cristã brotaram
da mesma fonte.”
Creio
que Simone não escreveu esta frase pensando no mesmo que eu pensei quando a li.
E que é o seguinte: A fé dos místicos (cristãos, maometanos, judeus ou outros)
tem pilares de suporte semelhantes, para não dizer iguais, à fé dos cientistas,
em particular dos matemáticos mas também dos físicos, astrónomos, químicos,
médicos, etc., nas suas ciências. Porquê?
Porque
todos partem de convicções básicas que não podem demonstrar a partir de outras.
Tais afirmações básicas são pontos de partida em que acreditam e sobre eles
constroem uma teologia ou uma ciência. A essas convicções chamam os místicos os
seus dogmas; os cientistas, em particular os matemáticos, chamam-lhes axiomas;
todos os outros, físicos, químicos, biólogos… todos os que afinal se baseiam
cada vez mais na matemática, chamam-lhes leis ou princípios fundamentais.
Parecem-lhes
evidentes, crêem neles como os místicos nos seus dogmas… mas quem quiser
duvidar pode fazê-lo, pois não são verdades absolutas.
Na
matemática, temos exemplos em que alguns destes axiomas se revelaram
espantosamente contraditórios: o chamado axioma do contínuo, para falar de um
exemplo que todos os meus colegas profissionais conhecem, podemos aceitá-lo
como verdadeiro ou como falso, pois a sua negação pode aceitar-se como
verdadeira, o que obviamente equivale a dizer que ele é falso.
E
exatamente o mesmo se pode dizer do famoso axioma da escolha.
Mais
atrás, no século XIX, já tínhamos vivido o drama do axioma das paralelas: será
que nunca se encontram, por mais que se prolonguem como nós dizíamos na escola?
A resposta é: depende, da geometria que escolhermos ….
Nós,
matemáticos, já aprendemos esta lição de humildade. Os crentes de algumas
confissões religiosas também já a aprenderam e por isso são tolerantes para com
ateus, agnósticos e fiéis de outras crenças. Lamentavelmente ainda há místicos que
não a aprenderam e continuam a usar violência, julgando desse modo servir a
Deus. Quanto aos que assim procedem, a minha esperança – e a minha Fé no Deus
em que acredito – é que todos aprendam, e pratiquem, a lição de humildade que
acima refiro.
29-7-2014






