LOUCURA FELINA
Este livro está com doze capitulos mas tenho mais capitulos que ainda não os posso publicar aqui porque não estão completos.
ÍNDICE
Cap. 1 NASCI
Cap. 2 HIPOCONDRIA DA MINHA MÃE
Cap. 3 SER ENCOLHAS OU PATO-MUDO
E SER DE BEIJA-MÃO!
Cap. 4 OS QUE ME ATACARAM E QUEM
ME DEFENDEU
Cap. 5 SUCESSO E GENEROSIDADE
Cap. 6 AVENTURAS NOS EUA
Cap. 7 FILHOS E BATALHA DURA
Cap. 8 EMPRESÁRIO, SIM!
CIENTISTA, NÃO!
Cap. 9 AFINAL EU NÃO ESTAVA
MORTO!
Cap.10 SIMULAÇÕES?
Cap.11 A MINHA APOSENTAÇÃO
Cap.12 E AGORA?
CAP. 1: Nasci!
Comecei a escrever esta história da minha vida hoje, dia 8 de julho de 2019, estando na cidade de Newark, no Delaware, Estados Unidos da América. E vou mesmo começar pelo princípio.
Nasci num dia célebre: 7 de dezembro de 1941. Eram 2 e 15 da noite em Portugal e umas boas horas mais tarde, mas ainda nesse mesmo dia, a aviação japonesa atacou o Porto das Pérolas no Hawai, dando assim uma razão aos Norte-americanos para entrarem na segunda guerra mundial ao lado das democracias europeias. As ditaduras que iniciaram a guerra – foram elas que atacaram primeiro – viriam a ser derrotadas. “Bem feito!” dir-se-ia no jeito popular português, que estivessem quietas, que se contentassem com o que tinham e não quisessem mandar nos outros…
Curiosamente, esta maneira de pensar do povo português foi a minha desde a mais tenra infância: contentar-me com o que tinha, e, muito fundamentalmente, não querer tirar aos outros o que era deles.
Os primeiros anos da minha vida foram durante esta guerra mundial. Portugal foi um país neutro: por um lado, havia a multicentenária aliança com o Reino Unido; mas por outro uma certa simpatia da classe política dominante do regime salazarista pelos governos autoritários. Salazar não quis pôr-se ao lado de Hitler, até porque Franco, outro simpatizante de governos rijos, tinha vencido a guerra civil espanhola e, portanto, ideias muito democráticas não iriam chegar até nós, pois teriam de atravessar a Espanha. Ora ele seguiu a sabedoria popular portuguesa e achou melhor estar quieto do que arriscar-se a uma derrota: nunca se sabe o futuro e ele, que era indiscutivelmente inteligente, conhecia esta verdade, é que mesmo quem está convencido do que é correto, numa guerra pode não ser o vencedor!
No entanto, apesar da neutralidade, houve momentos em que se temeram bombardeamentos. Não me lembro quem nos atacaria, mas sei que uma vez se colaram tiras de papel nos vidros das janelas para atenuar possíveis estilhaçamentos provocados por explosões de bombas. E um dia, espreitando o céu das janelas da nossa cozinha, eu vi o que hoje creio ser a Lua, em quarto crescente ou minguante, e pensei que era uma bomba… sobrevoando… sem cair… a nossa cidade. Retirei-me calado mas cheio de medo!
Eu tinha quase quatro anos quando
a guerra acabou e pouco mais recordo desse primeiro período da minha vida.
Talvez apenas da presença assídua de uma senhora francesa, a Mademoiselle Marie
Martha Grangier, que teria abandonado o seu país, a França, e me acompanhou
muitas vezes, nos passeios de menino pequeno, ensinando-me desse modo a falar Francês.
Francês foi portanto a minha segunda língua e eu falava como um nativo. Parece
que ela seria natural de Vichy e, mais tarde, tinha eu uns vinte anos,
companheiros franceses num curso de verão em Londres, tomaram-me por cidadão
francês e até pensaram que eu era de Vichy, pois tinha a pronúncia
caraterística dessa zona de França! Não
há dúvida que, para aprender uma língua e falá-la como um nativo, tem de se
começar durante a primeira infância!
Hipocondria da minha mãe
Prosseguindo a história da minha
vida, vejo-me agora nos 5, 6, 7 anos a ouvir a minha mãe, uma senhora
terrivelmente hipocondríaca, anunciando a quem a rodeava: - “Eu estou com um
cancro, sinto o mesmo que Fulano ou Sicrano…”, isto num tempo em que cancro,
que obviamente ainda hoje é uma doença grave, significava uma sentença de
morte, em dois ou três meses, enfim, meio ano quando muito. Nem os médicos
revelavam ao próprio, por vezes nem à família, o nome da doença quando a
diagnosticavam, tal era o terror que ela infundia. E a minha mãe, especialmente
para mim, a repetir: - “Olha, meu querido filho, eu vou te faltar em breve; e o
pai vai casar com outra que será tua madrasta e te vai tratar mal!”
Vivia-se a história da Cindarela, livro, em muitas versões, de leitura obrigatória para todas as crianças, uma Cindarela com as suas meias-irmãs e a madrasta, a ser sempre posta de lado e muitas vezes muitíssimo maltratada. Nos anos quarenta do século passado, a família em Portugal não era vista com a flexibilidade com que hoje a vemos. Madrastas são hoje frequentemente como irmãs mais velhas, a mãe, se não morreu – e isso continua a ser dramático pois que, como todos nós concordamos, a morte é a única coisa irreversível – mas, estando viva, não tiver a custódia dos filhos, vê-os de certeza todas as semanas: em geral, em casos de divórcio, é ela que fica com eles, exceto quando os manda para o pai, por necessidades profissionais, e aí, a madrasta, se existe, é uma companheirona. Mas, nesses tempos, havia, de facto, uma diferença gigantesca entre mães e madrastas. A mãe dava mimo, embora as crianças fossem por vezes esbofeteadas até pelas mães, mas quanto mais não o seriam pelas madrastas… Os castigos físicos eram a regra, ou não recordaremos as palmatórias que eram então visíveis em todas as escolas para servirem de utensílio didático aos professores? A que distância vinha o didatismo atual com os seus monitores online, laptops e outros quejandos!!!
Entretanto menciono uma recordação desta época: eu não andava nas ruas sozinho, pelo que alguém me ia buscar às aulas. E, enquanto esperava, eu sonhava com um aparelho que me permitisse falar com a minha mãe na quinta e saber como ela estava. O telemóvel já existia pois na minha imaginação!
Outra recordação desta época é a minúscula loja onde se vendiam cadernos, lápis, etc. Era o quiosque do Senhor Brandão. Ficava no caminho entre a casa da D. Feliz e a casa onde nós morávamos quando estávamos em Coimbra. Na época havia pouquíssimos automóveis e, em frente da nossa casa, erguia-se um edifício de 4 pisos além do térreo; neste havia uma garagem que serviria para o dono do prédio, se ele lá vivesse, pois nenhum dos oito arrendatários teria possibilidades económicas para ter carro. A garagem estava pois arrendada a um sapateiro, um homem cujo nome não recordo mas sei que tinha sido combatente na primeira guerra mundial. Quando se apercebeu que eu falava Francês contou-me uma história do seu tempo de soldado em França. Enquanto ia martelando umas meias-solas, disse-me que um dia precisaram de uma picareta para movimentar algumas terras da trincheira onde estavam e pediram-na a um francês que, não os tendo compreendido, lhes respondeu apenas “Je ne vous comprends pas!” E eles, muito satisfeitos, replicaram ao francês “Sim, sim, uma pá também serve!” História que dava alegria, a quem não teria outros grandes motivos para se rir!
Termino esta recordação dos meus 5, 6, 7 anos com outro momento que envolve doenças. Era o meu pai que estava acamado, com um problema que já não posso identificar. O meu avô materno, de seu nome Manuel dos Santos Madeira, nos seus setenta e picos, veio visitá-lo à quinta. Era a época do Natal. Não se falava de Pai Natal, dizia-se sim que o Menino Jesus vinha num trenó voador distribuir presentes aos meninos na noite de Natal, descendo pelas chaminés para colocar os presentes nos sapatos que os meninos deixavam junto ao fogão. Os meninos eram aconselhados a escrever antecipadamente ao Menino Jesus dizendo que presentes queriam. Nós acreditávamos nisto até aos 6 ou 7 anos! Alguém lembrou, olhando para mim de lado, que era noite de Natal e que eu, por certo, também esperava algum presente. Está ainda no meu ouvido a voz do meu avô ao comentar: - “Ele, por certo, o presente que mais quer é ver o pai com saúde!” Fantástico! Realmente, nas minhas orações de criança, eu tinha pedido a Deus que melhorasse o meu pai. Foi um extraordinário exemplo de um homem de mais de setenta anos a compreender os desejos de um menino que não teria mais que sete.
Era um homem de grande inteligência e não menor sensibilidade! Tinha
aliás uma licenciatura em Direito e outra em Farmácia!!!





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