quinta-feira, 15 de abril de 2021

TER OU NÃO TER SAUDADES!


 

Recordo muitas vezes o meu pai. José Simões Pereira Júnior era o seu nome, igual ao do pai dele que só não tinha o Júnior: esta igualdade de nomes era habitual no princípio do século XX, quando ele nasceu em 1904.

Recordo-o com saudade e às vezes pergunto-me o que poderei eu fazer para mostrar o quanto o amei e o compreendo. A resposta é: Nada! Ele faleceu em 1990 e, religiosidade à parte, nada me permite comunicar com ele.

Lembro-me do que ele sofreu, sempre calado. A minha mãe, pessoa doente dos nervos, fez-lhe coisas terríveis. Acredito que não o fazia por mal, era consequência do seu temperamento doentio; mas as coisas que fazia chegaram a ser diabólicas.

Por que motivo ela agiria assim? Parece que se sentiu chocada logo após o casamento. Ela queria pertencer à alta sociedade e, portanto, gostaria de estar rodeada por gente dessa alta sociedade. Nos seus antepassados até havia uns nobres, com título dado pelos monarcas de então.

Ora as irmãs do meu pai, todas, dez anos, pelo menos, mais velhas que ele, eram gente da classe média; uma delas, a minha tia Augusta, era casada com um homem que hoje se diria um empresário… mas a sua empresa era um pequeno supermercado que ao tempo se chamava mercearia; e o dono de uma mercearia era chamado um merceeiro, palavra que até se usava como sinónimo de grosseirão, mal-educado. Outra irmã, a minha tia Assunção, era já viúva; tinha tido um problema de circulação que lhe fez ficar com a face assimétrica, doença frequente naquele tempo, hoje ao que me parece bastante rara ou talvez capaz de recuperação. Enfim a terceira irmã, minha tia Piedade, era casada com um proprietário rural: na sua quinta criavam galinhas, porcos e vacas e produziam também vinho e azeite. É claro que, rodeados de porcos e vacas, à alta sociedade também não pertenciam.

Mas o que mais dececionava a minha mãe era o modo como elas se vestiam: como aldeãs, com xaile (não casaco) e lenço (não chapéu) na cabeça, e todas sempre de preto; naquele tempo este era o trajo típico das gentes simples do campo!

Terá sido o ter vivido nos primeiros tempos de casamento na mesma casa onde, pelo menos uma delas, a Augusta, também vivia, que mais exacerbou o nervosismo da minha mãe. De facto essa convivência não terá durado muito, pois entretanto essa minha tia e o marido arranjaram casa para eles, mesmo assim a minha mãe dizia-se traumatizada pois que elas a olhavam, sem xaile nem lenço, como uma jovem demasiado moderna. Não sei se elas o pensariam ou se a ideia nasceu apenas na imaginação da minha mãe.

Eu disse acima que ela fez coisas terríveis contra o meu pai. Vou exemplificar: meu pai tinha tirado a sua licenciatura em Medicina com altíssimas classificações e fora nomeado logo assistente da Faculdade o que era ao tempo equivalente a estudante graduado que prepara um doutoramento. Aconteceu que na ausência do seu mestre, o professor Ângelo da Fonseca, chegou ao hospital universitário um doente que, ou era operado imediatamente ou teria poucas probabilidades de sobreviver. E o meu pai resolveu operá-lo e salvou-o, mas isso foi considerado uma falta de respeito pelo mestre – então um discípulo já sabe fazer o que o mestre faz? – e o meu pai foi demitido. Espantoso, dir-se-á, mas foi assim!

O meu pai foi então trabalhar como médico militar e entretanto tornou-se um cirurgião de sucesso.

Ora tinham já decorrido uma ou duas décadas, o seu velho mestre já estava certamente aposentado e o meu pai teve nova oportunidade para se candidatar ao doutoramento. Andava a preparar uma dissertação, nas horas que o seu trabalho no hospital militar e no seu consultório privado lhe deixavam livre. E o que fez a minha mãe num dos seus ataques de nervosismo? Queimou todos os seus papéis e apontamentos! Num tempo em que não havia computadores e pens ou flash drivers para ir guardando o que se escrevia, o meu pai perdeu literalmente todo o seu trabalho. Nunca lhe ouvi uma queixa. Mas também nunca mais pensou em doutoramento. Eu, que teria então os meus 6 ou 7 anos, só me apercebi de tudo quando vi restos de papel e livros queimados, e então ele disse-me o que tinha acontecido. Mas sem o mínimo vestígio de zanga ou revolta.

Não creio que meu pai tenha esquecido isto. Mas, como diz um personagem do romance Um que não mentiu de Nuno de Montemor, “Deus manda perdoar, não manda esquecer!”

Obrigado, querido pai, por esta e outras lições de calma e auto-domínio que assim me deste. Quem dera que pudesses ouvir este meu agradecimento.

 

Newark, Delaware, 3 de julho de 

Ditulis Oleh : J. M. S. Simoes-Pereira // 10:44
Kategori:

0 comentários:

 

Blogger news

Blogroll


Com tecnologia do Blogger.